terça-feira, 14 de novembro de 2006

Poemas em voz alta

Dobrada à moda do Porto


Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Álvaro de Campos


Na voz de Luís Gaspar:

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Na estante de Culto


















Quem conhece... Judith Teixeira?


Judith Teixeira nasceu em Viseu em 1880. Começou a escrever na adolescência "versos ingénuos, que guardava", (segundo palavras suas) e apareceu no "Jornal da Tarde" com composições em prosa que assinava com pseudónimo.
Do seu nome verdadeiro, só haveria notícia em 1922, quando escreveu a maior parte dos poemas que haveriam de ser incluídos nos seus livros "Decadência" e "Castelo de Sombras", publicando também poemas na revista "Contemporânea".
O livro "Decadência" saiu em Fevereiro de 1923. Em Março do mesmo ano, o Governo Civil de Lisboa apreendeu este livro de Judith, assim como as "Canções" de António Botto e "Sodoma Divinizada" de Raúl Leal, depois da polémica instalada após a publicação destes livros, apelidados de "imorais", que levaram uns quantos estudantes católicos sedentos de mão pesada, a queixar-se contra a "literatura dissolvente" que "corroía a moral e os costumes". Os livros foram queimados e Judith apelidada de "desavergonhada". Fernando Pessoa tomou posição em defesa dos amigos Botto e Leal. De Judith, não mais se falou na altura. Em Junho do mesmo ano, Judith publicou "Castelo de Sombras", constituído por 24 poemas datados de sexta-feira de paixão de 1921 a Abril de 1923. E em Dezembro do mesmo ano, resolveu editar novamente "Decadência". Durante o ano de 1925, Judith escreveu a maior parte dos poemas que iria publicar no livro "Nua", em 1926. Entretanto, editou e dirigiu a revista "Europa". O livro "Nua" foi anunciado pelo poema "A cor dos sons", publicado na revista "Contemporânea", n.º11. Em Junho, já com o livro à venda, sairia no jornal "Revolução Nacional", (jornal de propaganda da ditadura onde se insultavam os directores de quase todos os outros jornais), um texto onde era referido o livro "Nua" de Judith, como "uma das vergonhas sexuais e literárias" e apelidados os seus poemas de "versalhadas ignóbeis". Marcelo Caetano escreveria ainda, no jornal "Ordem Nova" (de que era fundador e redactor), que tinham aparecido nas livrarias uns livros obscenos, apelidando Judith de desavergonhada, e onde se vangloriava pela cremação dos livros dela, de Leal e de Botto, a que chamava de “papelada imunda, que empestava a cidade”. Judith Teixeira, depois de enxovalhada publicamente, ridicularizada, apelidada de lésbica e caricaturada em revistas, defendeu-se e contra-atacou na conferência "De Mim", cujo texto se apressou a editar. Sete meses depois, publicou "Satânia", enfrentando tudo e todos.
Depois desta data, Judith assinou raras colaborações. Em 1928 publicou o "Poemeto das Sombras" na revista "Terras de Portugal" e depois disto, não se ouviria dela nem mais uma palavra. Depois de totalmente esmagada pela moral vigente, viu-se em 1927 sentenciada de "morte artística" pela mão de José Régio, que diria: "Todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Botto". Depois disto, sabe-se que terá saído do país e que se terá calado para sempre uma voz tão incisivamente dedicada à agitação.
Judith morreu em 1959. Mais tarde, em 1977, António Manuel Couto Viana ressuscitava o nome de Judith Teixeira ao dedicar-lhe uma memória no volume "Coração Arquivista" onde se interrogava porque teriam sido as poesias de Judith votadas ao silêncio e à ignorância das mesmas. Judith Teixeira é ainda hoje praticamente desconhecida e continua a não estar representada em qualquer antologia. Fala-se ainda hoje da polémica da "literatura de sodoma" de Botto, Leal e Pessoa, e omite-se aquela que viu igualmente um livro seu em labaredas e que foi o mais perseguido e enxovalhado dos poetas modernistas. Uma excepção para a Editora "&etc", que, em 1996 resolveu editar os poemas de Judith Teixeira, (com pesquisa, organização e bibliografia elaborada por Maria Jorge e Luís Manuel Gaspar), com o objectivo de reparar a injustiça de tal silêncio a que esta poetisa vanguardista dos anos 20 foi votada todos estes anos.
Foi também com agrado que descobri recentemente, um blogue totalmente dedicado a Judith Teixeira, aqui.



















“Poemas”
Judith Teixeira
Edição & etc
(1996)
Capa de Luís Manuel Gaspar

Recomendo. E deixo-vos com um poema deste livro:

A mulher do vestido encarnado

Ameigam teu corpo airoso
requebros sensuais,
e o teu perfil
felino e vicioso
diz-nos pecados brutais?
– Paixões preversas
onde o crime é gozo!

Carne que a horas se contrata,
e onde a tísica já fez guarida;
– vendida por suja prata
em tanta noite perdida…

Ó farrapo de luxúria
que acendes quentes desejos
até à fúria,
na febre de longos beijos!…

Perderam-se tantas, tantas
mocidades
nos teus olhares diabólicos,
que nem tu já sabes quantas!

E ninguém te perguntou
ainda, mulher perdida
que desgraçado amor foi esse
que te arrastou
a essa vida, negra vida!

E às vezes,
cuspindo sangue
em noites de guitarrada,
a tua boca tão mordida,
cantando, à desgarrada,
fala do amor crueldade
– um amor todo ruína,
uma amor todo saudade!

Ó farrapo de luxúria
que acendes quentes desejos
até à fúria,
na febre de longos beijos!

Outubro
1922

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Encontros Literários Portugueses em Nantes









Fernando Pessoa, as novas vozes da literatura portuguesa e o futuro da edição em Portugal vão estar em debate nos "Encontros Literários Portugueses", uma iniciativa que decorrerá a partir de sexta-feira em Nantes, sul de França, nos dias 10, 11 e 12 de Novembro.

No programa incluem-se várias sessões literárias, como é o caso de Rostos de Fernando Pessoa, com Jacques Bonnaffé, Patrick Quillier, Maria Antónia Câmara Manuel, Antonio Tabucchi, Eduardo Lourenço e Antoine Bonnet; A edição portuguesa e o futuro do livro em Portugal, com Bernard Martin, Carlos da Veiga Ferreira, Sandra Silva e Maria do Rosário Pedreira; As novas vozes da literatura portuguesa, com José Luís Peixoto, Filipa Melo e Pedro Rosa Mendes; e A poesia portuguesa contemporânea, com Nuno Júdice, António Osório, Maria do Rosário Pedreira e José Mário Silva.

Durante o evento prevêem-se também degustações de vinhos portugueses, projecção de filmes, um concerto de fado por Bévinda e leituras de textos e recitais em português. Destaque ainda para a conferência A invenção do mundo pelos navegadores portugueses, com Michel Chandeigne, Ilda Mendes dos Santos, Eduardo Lourenço e Jean-Luc Van Den Heede.

Mais um Prémio para Ramos Rosa



António Ramos Rosa foi distinguido com o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2006, referente à poesia publicada em 2005, pelo livro "Génese seguido de Constelações", editado pela Roma Editora.

O prémio, no valor de cinco mil euros, foi atribuído por unanimidade, por um júri constituído por quatro elementos da direcção da Fundação Luís Miguel Nava (Carlos Mendes de Sousa, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz e Paulo Teixeira) e um elemento convidado (o poeta Manuel António Pina, vencedor deste prémio em 2003).
O Prémio Luís Miguel Nava foi instituído em 1997, por vontade expressa em testamento do poeta que lhe dá o nome, e já foi atribuído aos poetas Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Echevarría, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Manuel Gusmão, Fernando Guimarães e Luís Quintais.

Fernando Pinto do Amaral na Livraria da Praça





O poeta e ensaísta Fernando Pinto do Amaral vai estar amanhã, 10 de Novembro, pelas 21:30h, na Livraria da Praça, para uma noite de poesia e de livros.

Fernando Pinto do Amaral – é poeta, ensaísta e professor na Faculdade de Letras de Lisboa. Autor de uma vasta obra literária, colabora em diversas revistas e jornais como a Ler, A Phala, Colóquio/Letras e o jornal Público. Traduziu As Flores do Mal, de Baudelaire, que lhe valeu o Prémio do Pen Club e o Prémio da Associação Portuguesa de Tradutores, e Poemas Saturnianos de Verlaine. Traduziu ainda toda a poesia do argentino Jorge Luis Borges.
Entre a sua obra, contam-se Acédia (1990, Poesia), A Escada de Jacob (1993, Poesia), Às Cegas (1997, Poesia), O Mosaico Fluido — Modernidade e Pós-Modernidade na Poesia Portuguesa Mais Recente (1991, Prémio de Ensaio Pen Club), Na Órbita de Saturno (1992, Ensaio) e Poesia Reunida (2000). Recentemente editou o livro de poemas Pena Suspensa (2004) e o conjunto de contos Área de Serviço e Outras Histórias de Amor (2006).

A Livraria da Praça fica em Viseu, na R. Cónego Martins, nº 13 (ao Museu Almeida Moreira) e também com entrada pelas escadinhas Chão do Mestre (à Rua do Comércio).
Está aberta todos os dias das 11h às 23h e domingos das 15h às 19h.
Encerra às segundas e feriados.
E o blogue, fica aqui.

Na estante de culto





Florbela Espanca como poeta é inigualável, divergindo com grande nitidez dos modelos que prevaleciam no período em que mais escreveu. Através da representação de excessivos estados de alma só atingíveis por raros artistas, a sua obra reflecte a insatisfação, a ânsia de absoluto e de amor impossível, registando emoções e sensações numa escrita intensa e rica que é caso único na literatura portuguesa dos últimos séculos: o âmbito da paixão humana é, afinal, o cerne da sua poética.

"Poesia Completa"
Florbela Espanca
Bertrand Editora
7ª Edição, 2005

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

A Música em Pessoa
















Lançado pela primeira vez em 1985 (em edição vinil), data comemorativa dos 50 anos da morte de Fernando Pessoa, "A Música em Pessoa", editado pela Som Livre, é um exemplo do casamento perfeito entre a poesia portuguesa e a canção brasileira.
São 15 poemas, musicados por alguns dos principais compositores brasileiros: António Carlos Jobim, Edu Lobo, Milton Nascimento, Dory Caymmi, entre outros.
Esta nova edição, em formato digital, remisturada e remasterizada, contém uma versão inédita de Tom Jobim de "Autopsicografia", cantada pelo próprio Jobim.
Tom Jobim interpreta ainda "O Rio da Minha Aldeia" e "Cavaleiro Monge", Nana Caymmi canta "Segue o teu destino", Ritchie revela um aspecto britânico de Pessoa em "Meantime", Eugénia Melo e Castro interpreta "Emissário de um rei desconhecido" e Vânia Bastos dá a sua voz a "Quem bate à minha porta", entre tantas outras especiais interpretações.
Destaque ainda para Marília Pêra declamando "O menino da sua mãe" e o talento de Jô Soares, que incorpora Álvaro de Campos, em "Cruzou por mim, veio ter comigo numa rua da baixa...".
A intenção da produção deste trabalho foi incluir os quatro heterónimos mais famosos do poeta: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares, para além de poemas assinados por Fernando Pessoa — ele mesmo.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Pessoa para os mais novos








Ainda amanhã, será também lançado o livro “O Meu Primeiro Pessoa” de Manuela Júdice, ilustrado por Pedro Proença.
"O Meu Primeiro Pessoa" reúne um conjunto de poemas ilustrados e textos simples sobre os momentos fundamentais da vida de Fernando Pessoa.
A obra, que tem a chancela da editora Dom Quixote, vai ser lançada amanhã, pelas 13h30, na Bulhosa do Campo Grande, com a presença da autora, do ilustrador do livro, Pedro Proença, e um grupo de crianças da Escola do Bairro de São Miguel.
A originalidade deste livro está na junção de poemas, textos explicativos sobre o autor e ilustrações.
Já existem alguns livros com selecções da poesia de Fernando Pessoa para crianças e outros que abordam a vida do poeta, mas este reúne ambos, acrescentando-lhe as ilustrações.

Prometeu e Fausto em Goethe e Pessoa





Também amanhã, 8 de Novembro, das 11h às 23h, em diferentes espaços da Casa Fernando Pessoa, decorrerá a Segunda Jornada Luso-Alemã, subordinada ao tema "Prometeu e Fausto em Goethe e Pessoa - Cartografias dialogantes".
O programa é o seguinte:
11h00-11h30: Pequeno almoço e palavras de boas-vindas a palestrantes, moderadores, performers e público (Nuno Félix da Costa, Anabela Mendes e um elemento em representação da Casa Fernando Pessoa).
11h45–12h30: Holger Brohm (Professor Universitário, Universidade de Humboldt, Berlim) DAS PROMETHEISCHE DRAMA DER KULTUR – FORTGESETZTE VERSUCHE, EINEN MYTHOS ZU ERZÄHLEN (O drama prometaico da cultura – tentativas continuadas de contar o mito). A comunicação de Holger Brohm será apresentada em alemão e terá o apoio em interpretação de Marta Fidalgo.
12h45–13h30: António Bracinha Vieira (Psiquiatra, Prof. jubilado de Antropologia) FAUSTO E PROMETEU.
13h30–14h00: Luís Moura do Carmo e Nuno Lucas — ACÇÃO PERFORMATIVA. A sessão da manhã decorrerá no 3.º Andar da CFP e será moderada por Eugénia Vasques.
15h00–15h30: Ana Fernandes (Professora Universitária, UC, Viseu) LUST OU LA DEMOISELLE DE CRISTAL – UM FRAGMENTO DE FAUSTO.
15h45–16h15: Paula Mendes Coelho (Professora Universitária, UA, Lisboa) AS ENTRANHAS DE PROMETEU: REPRESENTAÇÕES DE UM MITO IMAGINÁRIO FINISECULAR.
16h30–17h00: Luís Moura do Carmo e Nuno Lucas — ACÇÃO PERFORMATIVA. A sessão da tarde decorrerá no Auditório da CFP e será moderada por Teresa André.
17h45-18h15: Gilda Nunes Barata (Licenciada em Direito, UCP, Mestre em Literatura Comparada, FLUL) FAUSTO-PESSOA E ALDA MERINI: O RISO DA LOUCURA NO PRANTO DO PENSAMENTO.
18h30-19h00: Raquel Nobre-Guerra (Licenciada em Filosofia, UCP, Mestranda em Estética e Filosofia da Arte, FLUL) DA CONDIÇÃO FÁUSTICA EM PESSOA E BERNARDO SOARES: INFLEXÕES BIPOLARES SÍNCRONAS.
19h15-19h45: Pedro Vistas (Licenciado em Filosofia, FCH-UCP) DE PROMETEU AO TEMPLUM: RUMOS DE UMA ONTODISSEIA EM FERNANDO PESSOA.
21h15-21h45: Nuno Félix da Costa (Professor Universitário, FML) O «PROMETEU REAGRILHOADO» NA OBRA DE FERNANDO PESSOA.
21h45-22h15: Anabela Mendes (Professora Universitária, FLUL) OTIM, O PACIENTE ENTUSIASTA - PROMETEU DERIVADO EM GOETHE, PESSOA E MÜLLER.
22h15-23h00: Luís Moura do Carmo e Nuno Lucas — ACÇÃO PERFORMATIVA. A sessão da noite decorrerá no espaço da Recepção da CFP e será moderada por Jorge Fazenda Lourenço.
A entrada é livre.

Sinal Breve










É já amanhã, 8 de Novembro, o lançamento do livro de Poesia “Sinal Breve” de Ana Viana.
Editora Vozes, 4º título da Colecção Pasárgada.
O lançamento será às 18.30h, na Casa Fernando Pessoa (Rua Coelho da Rocha, 16 – Lisboa), com a participação do pianista Fernando Severo Altube.
Os livros da Colecção Pasárgada são de tiragem limitada, numerados e autenticados pela autora.

Pode ler-se aqui uma entrevista a Ana Viana, publicada no jornal Primeiro de Janeiro.

Todos os Mares: Festival de Poesia










A Casa Fernando Pessoa, em colaboração com o Instituto Cervantes, organiza o Festival “Todos os Mares, Todos los Mares”, Festival Ibero-Americano de Poesia, que decorrerá de 8 a 10 de Novembro nestas duas instituições, com várias sessões, onde estarão presentes 4 poetas – 2 poetas portugueses e 2 poetas de língua castelhana – para lerem os seus poemas e falarem da sua poesia.
O Festival nasce com a vocação de intensificar o diálogo poético entre as línguas da península, que viajaram por todos os mares.
Programa:
8 de Novembro
18.30 – Sessão no Instituto Cervantes
Luís Quintais, Ana Luísa Amaral, Luis Alberto de Cuenca, Andrés Sánchez Robayna
9 de Novembro
18.30 – Sessão no Instituto Cervantes
Maria do Rosário Pedreira, Manuel António Pina, Eugenio Montejo, Luis Muñoz
21.30 – Sessão na Casa Fernando Pessoa
Nuno Júdice, Gastão Cruz, María Victoria Atencia, Pere Rovira
10 de Novembro
18.30 – Sessão no Instituto Cervantes
António Osório, Rosa Alice Branco, Eloy Sánchez Rosillo, Darío Jaramillo Agudelo
12 de Novembro
19.30 - Concerto: Tordo canta Nobel
Fernando Tordo, Josep Mas "Kitflus", Raimon Ferrer, David Gomez, Pablo Sastre, María Lara, Xavi Garcia, Irina Marzo
(Informações e Bilhetes: Teatro S. Luiz)
A entrada é livre. Excepto para o concerto que dia 12 assinala o fim do Festival.

Na estante de culto




«O novo estilo “expressionista”, que a si próprio se não chamava ainda assim, irrompe deste modo na Berlim de 1910, com a força e a luminosidade de uma visão cósmica e metafísica, recusando o preciosismo e os clichés simbolistas-decadentes, o subjectivismo morno do neo-romantismo, a atomização superficial dos impressionismos e, evidentemente, tudo o que soasse a mera descrição ou a resquícios de Naturalismo. Agora, “não se via, intuia-se, não se fotografava, tinham-se visões”, escreve Kasimir Edschmid num conhecido manifesto de 1918. Causalidade, positivismo, psicologia, cedem o lugar à forma essencial que rejeita o jogo das aparências, ao espírito (Geist) que tudo informa, à palavra que, com o um dardo, “penetra no interior do objecto e é animizada por ele, cristalinizando-se na própria imagem da coisa”. Cai o acessório, substancializa-se a expressão, e a arte e a literatura encaminham-se progressivamente para uma dupla via, que os anos seguintes verão desenvolver-se em paralelo: a da assimilação do sentido ético e existencial ao próprio plano estético, o que corroborará as leituras do Expressionismo como um ideário (Gesinnung) e uma visão do mundo; e a da abstracção, que se estende do “Simultaneísmo” dos poetas do grotesco ao experimentalismo proto-concretista do círculo da revista Der Sturm (A Tempestade) e que poderia legitimar, num sentido muito sui generis, as leituras do Expressionismo como um estilo (que ele, na sua globalidade, não foi). Dos muitos poetas desta primeira fase berlinense, a maior parte deu expressão visionária ao universo preferencial, por atracção ou repúdio, dos primeiros anos do Expressionismo alemão: o mundo urbano, a cidade mitificada e transfigurada.» Da Introdução.


A Alma e o Caos
100 poemas expressionistas


Selecção, tradução, introdução e notas de João Barrento
Editora Relógio D'Água, 2001



Fim do mundo

Há um chorar no mundo,
Parece que o bom Deus morreu,
E a plúmbea sombra, que cai fundo,
Pesa como mausoléu.

Vem, vamos esconder-nos mais...
A vida está em todos os corações
Como em caixões.

Ouve! Vamos beijar-nos e esquecer –
Há uma saudade que bate à porta do mundo,
E dela acabaremos por morrer.

Else Lasker-Schüller
(1905)

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Live act / poetry session











Amanhã, 7 de Novembro, às 23 horas, poesia no Bar A Barraca.

"Como é diferente o riso em Portugal" pela Oficina de Teatro de Almada.
Dois actores (Pedro Bernardino e Fernando Rebelo) começam seminus um espectáculo sobre poesia erótica.
Tudo dentro do maior respeito, garantem-nos!
Já sabem, o Bar "A Barraca" fica no Largo de Santos, 2 (em Lisboa).
E o blogue, aqui: http://bar-a-barraca.blogspot.com

Pátria

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

— Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner e Andresen

Sophia de Mello Breyner e Andresen nasceu no dia 6 de Novembro de 1919, no Porto.
Aos 3 anos teve o primeiro contacto com a poesia, quando uma criada lhe recitou “A Nau Catrineta”, que aprenderia de cor. Mesmo antes de aprender a ler, o avô ensinou-a a recitar Camões e Antero de Quental. A sua infância e adolescência passaram-se entre o Porto e Lisboa, onde frequentou o curso de Filologia Clássica.
Aos doze anos escreveu os primeiros poemas. Entre os 16 e os 23 teve uma fase excepcionalmente fértil na sua produção poética.
Em 1944 publicou o primeiro livro, "Poesia", uma edição de autor de 300 exemplares, paga pelo pai, que sairia em Coimbra por diligência de um amigo: Fernando Vale. Em 1975 seria reeditado pela Ática. Este livro, uma escolha que integrava alguns poemas escritos com 14 anos foi o início de um fulgurante percurso poético. E não só: Sophia publicaria também ficção, literatura para crianças e traduziu, nomeadamente, Dante e Shakespeare.
Sophia de Mello Breyner foi um caso ímpar na poesia portuguesa, não só pela difusa sedução dos temas ou pelos rigores de expressão, mas sobretudo por uma rara exigência de essencialidade. A voz de Sophia erguia-se com uma pureza inusitada, completamente isenta de biografismo, de expressão retórica, de teatralidade, de pitoresco e de toda aquela imediatez interjectiva, tão frequente na poesia feminina.
A obra de Sophia de Mello Breyner é dominada por um tom poético, feito da interiorização do mundo exterior pela subjectividade lírica, da redundância de certos temas, da imaginação criadora, da transfiguração do real, dum ritmo, de acentos e sonoridades muito característicos, e sobretudo da linguagem mágica própria do canto de Orfeu, mito que domina a sua obra.
Há poucos itinerários poéticos em língua portuguesa tão impregnados de positividade original como o de Sophia.
Nas últimas obras de Sophia, a presença de Pessoa surgiu também com uma insistência enigmática, como se Sophia sentisse a necessidade de integrar a sua sombra imersa ou a plenitude inversa que ela instalou na consciência poética contemporânea no seu mundo. É no Livro Sexto que Sophia esboça o primeiro retrato diálogo com Pessoa, sem que a sua escrita deva a sua música e a sua forma ao invocado "deus de quatro rostos". Mas o grande aprofundamento surge com Dual, que em si podia ser já uma homenagem ao "dividido", e é em Dual que Pessoa como Ricardo Reis é assumido e comungado pela visão de Sophia. Jamais se revisitou, por dentro, a aventura sem fim de Fernando Pessoa, poesia e vida confundidas, como no admirável poema Cíclades.
Foi a experiência da angústia política e social de Portugal, e do mundo ocidental do pós guerra, que a levaram a procurar uma linguagem directa e despojada para exprimir uma gama de múltiplos temas do quotidiano, no rasto da estética neo-realista.
Sophia rejeitava a fatalidade, a submissão aos desastres, e acreditava na força combativa da verdade que deve pertencer à "íntima estrutura do poema".
Defendia também a intervenção da poesia, do poeta e do artista, na "formação de uma consciência comum", desde que se mantivesse a procura de "rigor, de verdade e de consciência".
Tendo sido também deputada pelo partido Socialista à Assembleia Constituinte, a sua actividade político partidária não foi longa, mas ao longo da sua vida sempre foi uma lutadora empenhada pelas causas da liberdade e justiça. Antes do 25 de Abril pertenceu mesmo à Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos.
Faleceu em 2 de Julho de 2004.
As obras de Sophia de Mello Breyner Andresen encontram-se traduzidas nos seguintes países: Argentina, Brasil, Dinamarca, Espanha (Castelhano e Catalão), França, Hong-Kong, Itália, Noruega, Reino Unido, Rússia, Sérvia e Tailândia.


Obras e prémios:
Poesia, 1944 ; 1975
Dia do Mar (Poesia), 1947 ; 1974
Coral, 1950 ; 2003
No tempo dividido, 1954 ; 2003
O Rapaz de Bronze (literatura infantil), 1956 ; 1996
A Fada Oriana (literatura infantil), 1958 ; 2002
A Menina do Mar (literatura infantil), 1958 ; 2002
Cidade Nova (ensaio sobre Cecília Meireles), 1958
Mar novo, 1958 ; 2003
Noite de Natal (literatura infantil), 1960 ; 2002
Poesia e Realidade, 1960
O Cristo cigano ou a lenda do Cristo cachorro, 1961 ; 2003
Contos Exemplares (Contos), 1962 ; 2002
Livro Sexto (Poesia), 1962 ; 2003 (distinguido com o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, em 1964)
O Cavaleiro da Dinamarca (literatura infantil), 1964 ; 2001
Os três reis do Oriente, 1965 ; 1980
Geografia, 1967 ; 2004
A Floresta (literatura infantil), 1968 ; 2003
Antologia (Poesia), 1968 ; 1985 (esta 5ª edição de 1985 foi prefaciada por Eduardo Lourenço)
Grades, 1970
11 Poemas, 1971
Dual, 1972 ; 2004
O Nu na Antiguidade Clássica, 1975 (integrado em "O Nu e a Arte"); 1992
O Nome das Coisas (Poesia), 1977 ; 2004 (distinguido com o prémio Teixeira de Pascoaes)
O Tesouro (literatura infantil), 1978
Quatre poetes portugais: Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, selecção, tradução e apresentação de Sophia de Mello Breyner Andresen (Antologia Poética), 1979
A Casa do Mar (Contos), 1980
Poemas escolhidos, 1981
Navegações (Poesia), 1983 ; 2004 (distinguido com o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação de Críticos Literários em 1983, pelo conjunto da sua obra)
Histórias da Terra e do Mar (Contos), 1984 ; 2002
Árvore (Poesia infantil), 1985 ; 2002
Ilhas, 1989 ; 2004 (distinguido com os Prémios D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus e Grande Prémio de Poesia Inasset/INAPA (1990))
Obra Poética I, 1990 ; 2001 (reuniu toda a sua obra em três volumes, "Obra Poética", e foi distinguida com o Grande Prémio de Poesia Pen Clube)
Primeiro Livro de Poesia (Infanto-juvenil), 1991 ; 2003
Obra poética III, 1991 ; 2001
Obra Poética II, 1991
Em 1992 foi distinguida com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (pelo conjunto da sua obra)
Musa, 1994 ; 2004
Recebeu em 1994 o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.
Signo, escolha de poemas, 1994 (um livro/disco com poemas lidos por Luís Miguel Sintra)
Em 1995 foi agraciada com a Placa de Honra do Prémio Petrarca, em Itália
Em 1996 foi homenageada no Carrefour des Littératures, na IV Primavera Portuguesa de Bordéus e da Aquitânia
Era uma vez uma Praia Atlântica, 1997
O Búzio de Cós e outros poemas (Poesia), 1997 ; 2004 (distinguido com o Prémio da Fundação Luís Miguel Nava em 1998)
Em 1999 foi agraciada com o Prémio Camões (pelo conjunto da sua obra)
O Bojador, 2000
Em 2000 foi agraciada com o Prémio Rosalía de Castro, do Pen Club Galego
O colar (Teatro), 2001 ; 2005
Em 2001 foi agraciada com o Prémio Max Jacob Étranger
Orpheu e Eurydice, 2001
Mar (Poesia), 2001 ; 2004
O anjo de Timor (Infanto-juvenil), 2003
Em 2003 foi agraciada com o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana

Hoje nasceu...




6 de Novembro de 1919

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poetisa portuguesa



Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: Meio-dia ; Quando ; Pátria ; Ausência ; 25 de Abril ; Esta gente ;

domingo, 5 de novembro de 2006

Na estante de culto







"Poemas da Prisão e do Exílio"

de Nâzim Hikmet


Aproveitando a deixa da livraria "Da Mariquihas", que durante esta quinzena tem este belo livro em promoção, aqui fica mais um apontamento de um livro da &etc que não nos deixa indiferentes.
Nâzim Hikmet era um grande poeta e um homem lendário. Por maior sofrimento que tivesse tido na sua vida, nunca se deixou vencer, passando para a sua poesia um enorme entusiasmo e uma enorme esperança. Nâzim Hikmet conseguiu, graças ao seu génio, alcançar admiração por parte de quem o escutou e leu, pela sua coragem, solidariedade e humanidade.
O poeta turco Nâzim Hikmet nasceu em 1902 na Salónica (na altura, parte do Reino Osmânico) e morreu em Junho de 1963. Passou praticamente toda a sua vida na prisão ou no exílio e a sua poesia é lida em todo o mundo.


O espelho encantado

Praga é um espelho encantado
Ao olhar-me nele
Encontro os meus vinte anos
Sou como um salto em frente
Sou como trinta e dois dentes
sem cárie
E o mundo é uma noz
Mas não quero nada para mim
Só a mulher que amo
A tocar os meus dedos com os seus
Que abrem todos os mistérios do mundo

As minhas mãos partem o pão
pouco para mim
Muito para os meus amigos
Nas aldeias da Anatólia
beijo olhos que sofrem de tracoma
E chego algures a terra distante
Para a Revolução mundial
Trazem o meu coração num coxim de veludo
Como se fosse a ordem da bandeira vermelha
Uma fanfarra toca a marcha fúnebre
Sepultamos os nossos mortos junto de um muro
Sob a terra
Somo sementes fecundas
E as nossas canções estão escritas na terra
não em turco, russo ou francês
Mas em cançonês
Lenine está acamado numa floresta com neve
Franze as sobrancelhas
A pensar em alguém
Olha até ao fim das trevas brancas
Vê os dias que hão de vir

Sou como um salto em frente
Sou como trinta e dois dentes
sem cárie

E o mundo é uma noz
Com uma casca de aço
Mas inchada de esperança
Praga é um espelho encantado
Olho-me nele
Mostra-me no leito de morte
A testa alagada em suor
Como se a cera da vela tivesse gotejado
Os braços ao longo do corpo
A tapeçaria verde
E pela janela
Os telhados cobertos de fuligem de uma grande cidade
Esses telhados não são os de Istambul
Os meus olhos estão abertos
Ainda os não vieram fechar
Ainda ninguém sabe
Inclina-te para mim
Olha nas minhas pupilas
Verás nelas uma mulher jovem
Na paragem do eléctrico à espera à chuva
Fecha-me os olhos
E em bicos de pés
Sai do quarto, camarada.

Nâzim Hikmet
(Tradução de Rui Caeiro)

Edição & etc
(2000)

Capa de Carlos Ferreiro

Estante de Culto




4Águas:
"Ainda aqui este lugar", Pedro Afonso, 2008
"Amo Agora", Casimiro de Brito e Marina Cedro, 2009
"Os Animais da Cabeça", Rui Dias Simão, 2008
"Os Nossos Dias seguido de Os Lugares Antigos", Miguel Godinho, 2009
"Sortilégio de Silêncio", Santiago Aguaded Landero, 2009

7Letras:
"Os Acasos Persistentes", Cláudio Neves, 2009

ADFA:
"Trinta facadas de raiva", António Calvinho, 1999

Afrontamento:
"Duplo Esplendor", Gonçalo Salvado, 2008
"Máquina de Relâmpagos", Jorge Velhote, 2005

Almargem:
"Ensaio Entre Portas", Fernando Esteves Pinto, 1997

Almedina:
"Poezz - Jazz na Poesia em Língua Portuguesa", Vários autores, 2004

Âncora:
"Antologia da Poesia Húngara", Vários autores, 2002

Antígona:
"Cantigas da Inocência e da Experiência", William Blake, 2007

Apenas Livros:
"Chão de Papel", Maria Estela Guedes, 2009
"Marcas ou Memórias do Vento", Maria Paula Raposo, 2009

Arbusto:
"As Mulheres Bonitas Não Viajam de Autocarro", João Villalobos, 2007

Ardósia:
"A Cabeça de Fernando Pessoa", Luís Filipe Cristóvão, 2009
"A Recusa", Prisca Agustoni, 2009
"Páginas Despidas", Ozias Filho, 2005

Artefacto:
"Minimal Existencial", Paulo Tavares, 2010

Asa:
"Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea", Vários autores, 2004

Asociación Cultural Crecida:
"Para nada", Violeta C. Rangel, 1999

Assírio & Alvim:
"A Faca não Corta o Fogo - súmula & inédita", Herberto Helder, 2008
"Anjos Caídos", José Agostinho Baptista, 2003
"As Flores do Mal", Baudelaire, 1992
"Assinar a Pele — Antologia de Poesia Contemporânea Sobre Gatos", Vários autores, 2001
"Baladas Hebraicas", Else Lasker-Schüller, 2002
"Degredo no Sul", Al Berto, 2007
"Herbário", Jorge de Sousa Braga, 2009
"Mais Tarde", José Alberto Oliveira, 2003
"O Cardo e a Rosa - Poesia do Barroco Alemão", Vários autores, 2002
"O Cavaleiro de Bronze e outros poemas", Aleksandr Púchkin, 1999
"O Poeta Nu - Poesia Reunida", Jorge de Sousa Braga, 2007
"O Sangue Por um Fio", Sérgio Godinho, 2009
"Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo e outros poemas eróticos da Índia antiga", Vários autores, 2004
"O Tempo de Perfil", Luísa Freire, 2009
"Outono Transfigurado — Ciclos e Poemas em Prosa", Georg Trakl, 1992
"Poemas de Amor do Antigo Egipto", Vários autores, 1998
"Poemas de Mário Cesariny, ditos por Mário Cesariny", 2007
"Poesia", Rabindranath Tagore, 2004
"Poesia do Eu" Fernando Pessoa, 2006
"Poesias Completas" Alexandre O'Neill, 2000
"Previsão de Tempo para Utopia e Arredores", Charles Simic, 2002
"Quinze Poetas Aztecas", Vários autores, 2006
"Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro", Vários autores, 2001
"Todos os Poemas", Ruy Belo, 2009
"Um Mundo Estranho", Oliverio Macías Álvarez, 2003
"Um Raio de Sol", Helder Moura Pereira, 2000

Ática:
"Manifesto Anti-Dantas", José de Almada-Negreiros, 2000
"Vinte Poetas Contemporâneos", David Mourão-Ferreira, 1980

Bertrand:
"Poesia Completa", Florbela Espanca, 2005

Biblioteca Prestígio:
"O Sal da Língua precedido de Trinta Poemas", Eugénio de Andrade, 2001

Caixotim:
"ODES", António Salvado, 2009

Calendário:
"Zoo Musical", Amadeu Baptista, 2010

Caminho:
"Dois Corpos Tombando na Água", Alice Vieira, 2007
"Migrações do fogo", Manuel Gusmão, 2004
"Obra Poética I", Sophia de Mello Breyner Andresen, 2001
"O Que Dói Às Aves", Alice Vieira, 2009
"Os Poemas Possíveis", José Saramago, 1999

Campo das Letras:
"Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa - Eugénio de Andrade", Vários autores, 1999
"Antologia Poética", Nicolás Guillén, 2002
"T a Bernardim", Teresa Tudela, 2006

Cangrejo Pistolero:
"INDIGESTA", Siracusa Bravo Guerrero, 2009

Cantinho do Tareco:
"só à noite os gatos são pardos", vários autores, 2009

Canto Escuro:
"O Discurso do Método", Nuno Rebocho, 2008

Cavalo de Ferro:
"A Voz Secreta das Mulheres Afegãs — O Suicídio e o Canto", Vários autores, 2005
"O Vagabundo do Dharma", Han-Shan, 2003

Centro Bibliográfico:
"A Estrada e a Voz", Orlando da Costa, 1951

C. Estudios Ibéricos y Americanos de Salamanca:
"La abeja en el muro", Jesús Enrique León, 2009

C. M. Sintra:
"Doze Cantos do Mundo", Amadeu Baptista, 2009
"Odes de Mitilene", Orlando Neves, 1990

Colibri:
"Até amanhã", António Murteira, 2010
"A Voz Fagueira de Oan Tímor", Fernando Sylvan, 1993
"Electri-cidade", Vítor Oliveira Jorge, 2009

Conservatório de Viseu:
"Divina Música", vários autores, 2010

Cosmorama:
"A Carvão", Fernando de Castro Branco, 2009
"Escrito em osso", Claudio Daniel, 2008
"Sobre as Imagens", Amadeu Baptista, 2008
"Terra e Sangue", Miriam Reyes, 2008

Cotovia:
"A poesia andando: treze poetas no Brasil", Vários autores, 2008
"As aves que aqui gorjeiam - a poesia do romantismo ao simbolismo", Vários autores, 2005
"Bagagem", Adélia Prado, 2002
"Poesia Grega de Álcman a Teócrito", Vários autores, 2006
"Reflexões sobre o Sr. Pessoa", John Wain, 1993

Dauro:
"Outros Frutos", Luísa Ribeiro, 2005

Difel:
"Arquitectura do Silêncio", Ruy Ventura, 2000

Diferença:
"Nas Margens do Sar", Rosalía de Castro, 1999

Direcção Geral dos Assuntos Culturais - S.R.E.C.:
"Visões de Bruma", Américo Teixeira Moreira, 1987

D. Quixote:
"A Biblioteca Particular de Fernando Pessoa - Vol. I", Jerónimo Pizarro, Patricio Ferrari e Antonio Cardiello, 2010
"A Luz da Madrugada", Fernando Pinto do Amaral, 2007
"António Ramos Rosa — Antologia Poética", 2001
"João Rui de Sousa — Obra Poética 1960-2000", 2002
"Natália Correia — Antologia Poética", 2002

Ecopy:
"A Urgência das Palavras", Alexandra Malheiro, 2008

Edições do Tâmega:
"Labirinto Incendiado", Xosé Lois García, 1989

Editores Associados:
"(Des)codificações", António Salvado, 1988

Eloisa Cartonera:
"Traveseando", Ricardo Zelarayán, 2005

Escola de Mar:
"Sinfonia em Dor menor", Armando Taborda, 2007

&etc:
"César a César", Adília Lopes, 2003
"Corpos radiantes", E.M. de Melo e Castro, 1982
"ESCALPE", Amadeu Baptista, 2009
"Londres", Nuno Dempster, 2010
"Mar Largo", Vítor Nogueira, 2009
"Marthiya de Abdel Hamid", Alberto Pimenta, 2005
"Não me morras", Eduarda Chiote, 2004
"Os selos da Lituânia", Amadeu Baptista, 2009
"Poemas", Judith Teixeira, 1996
"Poemas da Prisão e do Exílio", Nâzim Hikmet, 2000

Europress:
"Estação Suspensa", António Ferra, 2009
"Olhar o Silêncio", António Ferra, 2005

Evoramons:
"Revedere", Mihai Eminescu, 2005

Fabula Urbis:
"Livro de Reclamações", António Ferra, 2010

Fundação Alentejo-Terra Mãe:
"Os Sulitários", Paulo Barriga e João Vilhena, 2006

Fundação Eugénio de Andrade:
"Poesia", Eugénio de Andrade, 2005

Gailivro:
"A Musa ao Espelho - PATHOS", Vários autores, 2006

Gatafunho:
"Ciência para meninos em poemas pequeninos", Regina Gouveia, 2009

Global:
"Os Melhores Poemas - Manuel Bandeira", 1984

Gótica:
"O Preço das Casas" Joaquim Cardoso Dias, 2002
"Retábulo das Matérias (1956-2001)" Pedro Tamen, 2001

Guimarães:
"SO2" Luna Levi, 1980

Imprensa Nacional-Casa da Moeda:
"João Lúcio - Poesias Completas", 2002
"Livro do Desasocego (volume XII da Edição Crítica de Fernando Pessoa)", Ivo Castro, 2010
"Os Silos do Silêncio", Eduíno de Jesus, 2005

Incomunidade:
"Geisers", Maria Estela Guedes, 2009

Instituto Cultural de Macau:
"Poesia escolhida de Ai Qing", 1987

Intensidez:
"Máquinas de Trovar - poética e tecnologia", E.M. de Melo e Castro, 2009

José Olimpo:
"Poemas Reunidos 1934-1953", Dylan Thomas, 2003

Junta de Andalucía:
"Ayer Vendrá - Poemas Escogidos (1935-1984)", Luis Rosales, 2010

Labirinto:
"À Descoberta das Causas No Sortilégio dos Efeitos", Manuel Madeira, 2009
"Amantes da Neblina", Maria do Sameiro Barroso, 2007
"As Vindimas da Noite", Maria do Sameiro Barroso, 2008
"Ciclo de Criação Imperfeita", Seomara da Veiga Ferreira, 2008
"Rumores para a transparência do silêncio", Daniel Gonçalves e Pepe Brix, 2009

Litexa:
"Vou-me embora de mim", Joaquim Pessoa, 2002

Livraria Amato Lusitano:
"Recôndito", António Salvado, 1972

Livrododia:
"Lábio Cortado", Rui Almeida, 2009
"Mapa", manuel a. domingos, 2008
"Quarto com Ilhas", Manuel Moya, 2008
"Só Mais Uma Vez", Uberto Stabile, 2007

Livros de Horas:
"Sombras de Reis Mendigos", Vergílio Alberto Vieira, 2009

MIC:
"Viola Delta nº XLVII", vários autores, 2010

Magna:
"Versos Nus", Tiago Nené, 2007

Ministério dos Livros:
"Os dias do Amor - Um poema para cada dia do ano", 2009

Nova Aguilar:
"Fernando Pessoa - Obra poética", 1969

Nova Vega:
"E No Fim Era a Poesia", Myriam Jubliot de Carvalho, 2007

O cão que lê:
"Espelho Íntimo", Torquato da Luz, 2010

Oceanos:
"Luz Indecisa", José Mário Silva, 2009

O Mirante:
"Poemas Ausentes", Pedro da Silveira, 1999

Palabra Ibérica (Ayuntamiento de Punta Umbría):
"Agência do medo", Santiago Aguaded Landero, 2009
"El sitio Justo", Rafael Camarasa, 2008
"O pequeno-almoço de Carla Bruni", Rui Costa, 2008
"Polishop", Tiago Nené, 2010

Palimage:
"A Geografia do Tempo", Graça Magalhães, 2009

Passage:
"Emparedada", Joana Serrado, 2009

Polvo:
"De Boas Erecções está o Inferno Cheio", Luís Graça, 2004

POPSul:
"AvRYl", Dinis H. G. Nunes, 2010
"Este Pão Que Nos Come!", Raul Veríssimo, 2010
"Pai sem Natal", Dinis H. G. Nunes, 2009

Porto Editora:
"Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI", Vários autores, 2009

Presença:
"Viagem de Inverno", Helder Macedo, 1994
"Obra Poética 1948-1988", David Mourão-Ferreira, 1988

Quasi:
"A Leve Têmpora do Vento", Carlos de Oliveira, 2001
"Dez Cartas para Al Berto. Dez Cartas de Al Berto", 2007
"Dióspiro - Poesia Reunida 1977-2007", Daniel Maia-Pinto Rodrigues, 2007
"Omertà", Vasco Gato, 2007
"Para Morrer", José Rui Teixeira, 2004
"Revólver", Rui Lage, 2006
"Três Poemas de Amor seguidos de Livro Quarto", Albano Martins, 2004

Relógio D'Água:
"A Alma e o Caos — 100 poemas expressionistas", Vários autores, 2001
"Antologia Poética — Juan Ramón Jimenez", 1992
"Ariel", Sylvia Plath, 1996
"Caras Baratas", Adília Lopes, 2004
"Folhas de Erva", Walt Whitman, 2002
"Outro Tempo", W. H. Auden, 2003
"SUD-EXPRESS - poesia francesa de hoje", Vários autores, 1993
"Vida Oculta", Pedro Mexia, 2004

Saúde em Português:
"Destino de bai - Antologia de poesia inédita caboverdiana", Vários autores, 2008

Sempre-em-Pé:
"Dispersão - Poesia Reunida", Nuno Dempster, 2009
"Instrumentos de Sopro", Ruy Ventura, 2010
"Teorias da Ordem", José María Cumbreño, 2009

Sombra do Amor:
"As Limitações do Amor São Infinitas", Rui Costa, 2009

S.P.E.C. Embaixada do Brasil:
"Poesia Concreta", Vários autores, 1962

Temas Originais:
"Área Afectada", Fernando Esteves Pinto, 2010
"Metamorfoses do corpo", Eduardo Montepuez, 2010
"Na Via do Mestre", Casimiro de Brito, 2010

Teorema:
"Antologia Poética", Gabriela Mistral, 2002

Trinta Por Uma Linha:
"Verso a Verso", Vários autores, 2009

Universitária:
"A Idade das Trovas", Inocêncio Pinga-Amor (Luís Graça), 2002

Verbum/Trilce:
"Medida del Mundo", Reynaldo Valinho Alvarez, 2009
"Outono", António Salvado, 2009

Edições de autor:
"15 Desatinónimos para Fernando Pessoa", Luís Graça, 2007
"A Festa das Letras", António Simões, 1995
"As Casas Pressentidas", Luís Serrano, 1999
"Bandeiras & Fogo", Rui Diniz, 2007
"ciclo do mar", José Oliveira, 1984
"de amor ardem os bosques", Maria Azenha, 2010
"De Boas Erecções está o Inferno Cheio - King Kong Size", Luís Graça/Dick Hard, 2007
"entre passos sobrevivem eras", José Álvaro Afonso, 20067
"Princesas Diana & Anti-Heróis", Luís Pedroso, 2009
"Um Ritmo Perdido", Ana Hatherly, 1958

Com Todas As Letras





Livros, Autores e Editores em Debate na Sociedade Portuguesa de Autores


Entre 9 de Outubro e 4 de Dezembro, quinzenalmente, os livros têm invadido o Auditório da SPA.
Sob a designação “Com Todas as Letras – Livros, Autores e Editores em Debate” reúnem-se assim os mais diversos participantes deste universo, discutindo, confrontando ideias e lançando pistas sobre as tendências, problemas e questões pertinentes do sector do livro.
A organização do evento é uma acção conjunta da revista "Os Meus Livros" (OML) e da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).
Os debates são moderados pelo director da OML e acontecem no Auditório da SPA.
A terceira sessão está agendada para o próximo dia 6 de Novembro. “Poesia e Teatro: Filhos de um Deus Menor?” é a pergunta que lança a discussão sobre duas formas de escrita tantas vezes subestimadas nas nossa editoras e livrarias. O porquê desta atitude do mercado (num país que se diz de poetas e com uma ampla dramaturgia) é algo que urge analisar.


Poesia e Teatro: Filhos de um Deus Menor?
Painel:
Jorge Reis-Sá, Edições Quasi
Eugénia Vasques, Professora-Coordenadora na Escola Superior de Teatro e Cinema, crítica de teatro
Vasco David, Assírio & Alvim
Pedro Mexia, crítico literário, poeta
Ernesto Melo e Castro, poeta, ensaísta

Para alguma informação adicional poderá contactar:
“Os Meus Livros” – João Morales – 21 380 40 10
jmorales@oml.com.pt

Sociedade Portuguesa de Autores
DRE - SACI – Maria do Carmo – 21 359 44 78
Gabinete.cultural@spautores.pt
DRE - GANA – Conceição Roberto – 21 359 44 37
gana@spautores.pt
conceicao.roberto@spautores.pt

sábado, 4 de novembro de 2006

Novidades Quasi



"As Núpcias Silenciosas"

Poesia


De Lourdes Espínola, poeta, diplomata, professora universitária, crítica literária e jornalista cultural nascida em Assunção, Paraguai.




"Livro de Estimação"

Poesia

De Jorge Reis-Sá

Poemas onde os afectos e a memória são praticados como se de um culto se tratasse.




"Amargas Cores do Tempo"

Poesia

Nuno de Figueiredo

"Amargas Cores do Tempo" foi distinguido em 2005 com o prémio Natércia Freire.





"Voz Consonante - Traduções de Poesia"

António Ramos Rosa
Prefácio e notas de Ana Paula Coutinho Mendes

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue».
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa — essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
— mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga —
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena
Lisboa, 25/6/1959

Na voz de Mário Viegas:

Jorge de Sena

Jorge Cândido de Sena nasceu em 2 de Novembro de 1919, em Lisboa.
Depois de concluir os estudos do liceu, ingressou na Escola Naval (curso que não concluiu por impedimentos vários), vindo a formar-se em Engenharia Civil na Universidade do Porto.
Ainda durante os estudos universitários, publicou sob o pseudónimo Teles de Abreu, as suas primeiras composições poéticas em periódicos como a "Presença" e foi nessa altura que travou conhecimento com um grupo de poetas que viriam a reunir-se em torno de "Cadernos de Poesia", convivendo então, com José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, Alberto Serpa e Casais Monteiro, entre outros.
Foi no âmbito das edições de "Cadernos de Poesia" que em 1942 foi publicada a sua primeira obra poética: "Peregrinação".
Ainda durante os anos 40, colaborou com "Aventura", "Litoral", "Portucale", "Seara Nova", e "Diário Popular", encetando ainda uma actividade importante na sua actividade literária como tradutor de poesia ("90 e Mais Quatro Poemas de Constantino Cavafy", "Poesia de Vinte e Seis Séculos: I de Arquiloco a Calderón, II – de Bashó a Nietzsche", "Poesia do Século XX", entre outros).
A partir de meados dos anos 40, intensificou, paralelamente à actividade profissional como engenheiro, a sua actividade de conferencista, proferindo comunicações que incidiam frequentemente sobre dois dos seus temas preferidos: Camões e Fernando Pessoa (de quem editaria, em 1947, as "Páginas de Doutrina Estética").
Durante os anos 50, afirmou-se como uma das presenças mais influentes da cultura e literatura portuguesas e foi durante essa década que publicou algumas das suas mais conhecidas obras poéticas ("Metamorfoses", "Evidências", "Fidelidades"); que publicou a sua primeira tentativa dramática, a tragédia "O Indesejado"; que colaborou com publicações como a "Gazeta Musical e de Todas as Artes", "Árvore", "Notícias do Bloqueio", "Cadernos do Meio Dia"; e que organizou a terceira série da antologia "Líricas Portuguesas".
A sua postura contra a ditadura fascista levou-o em 1959, após o envolvimento numa tentativa falhada de golpe de Estado militar contra o regime salazarista, a optar por um exílio voluntário no Brasil, onde exerceu funções de docência nos domínios da Literatura Portuguesa e da Teoria da Literatura, nas Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras de Assis e de Araraquara, em S. Paulo. Publicou então, uma série de obras ensaísticas como "Da Poesia Portuguesa" e desenvolveu uma intensa actividade como congressista, não deixando ainda de, como redactor no jornal "Portugal Democrático", participar em acções de denúncia da ditadura a partir do exterior. Em 1960 publicou o seu primeiro livro de ficção, a colectânea de contos "Andanças do Demónio".
No ano seguinte publicou o primeiro volume da sua obra poética completa. Face aos obstáculos que sistematicamente eram levantados à sua progressão na carreira académica (a sua naturalidade e a inadequação curricular entre a sua formação e o que leccionava), em 1965 transferiu-se para a Universidade do Wisconsin, Madison, nos Estados Unidos da América, em cujo departamento de Espanhol e Português seria nomeado professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira. Em 1970 transferiu-se para a Universidade de Califórnia, em Santa Bárbara, onde viria a ser nomeado dois anos depois, chefe do Departamento de Literatura Comparada e, em 1975, chefe do Departamento de Espanhol e Português. Entretanto, participou em inúmeros congressos internacionais; tornou-se membro da Modern Languages Association e da Renaissance Society of America, nunca interrompendo a edição, quer de títulos de teoria e história literária e estudos literários clássicos, modernos e contemporâneos, quer a obra poética pessoal, publicando, antes e depois da primeira visita autorizada a Portugal em nove anos de exílio, entre 1968 e 1969, os livros de poesia "Arte de Música" e "Peregrinatio ad Loca Infecta".
Após o 25 de Abril recebeu várias homenagens públicas em Portugal, tendo sido condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique e, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada.
No ano da sua morte, em 1978, vieram a público, revistos pelo autor, os volumes "Poesia II" e "Poesia III", a que se seguiriam, postumamente, os volumes "40 Anos de Servidão" e "Post Scriptum II".

Obras: "Perseguição" (1942), "Coroa da Terra" (1946), "Pedra Filosofal" (1950), "As Evidências" (1955), "Fidelidade" (1958), "Poesia I" – inclui os volumes anteriores e "Post Scriptum" (1961), "Metamorfoses" (1963), "Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena" (1963), "Arte da Música" (1968), "Peregrinatio ad Loca Infecta" (1969), "Exorcismos" (1972), "Trinta Anos de Poesia" – antologia (1972), "Poesia II" – "Fidelidades", "Metamorfoses", "Arte da Música" (1978), "Poesia III" – "Peregrinatio ad Loca Infecta", "Exorcismos", "Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos", "Conheço o Sal... e Outros Poemas", "Sobre Esta Praia" (1978), "Quarenta Anos de Servidão" (1979), "Sequências" (1980), "Visão Perpétua" (1982), "Post Scriptum II" (1985), "O Indesejado" (1951), "Amparo de Mãe e Mais Cinco Peças em Um Acto" (1974), "Andanças do Demónio" – contos (1960), "Novas Andanças do Demónio" – contos (1966), "Os Grão-Capitães" – contos (1976), "O Físico Prodigioso" – novela (1977), "Sinais de Fogo" – romance (1979), "Génesis" – contos (1983), "Uma Canção de Camões" (1966), "Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular" (1969), "A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI" (1970), "Dialécticas da Literatura" (1973), "Maquiavel e Outros Estudos" (1974), "Sobre Régio, Casais, a "Presença" e Outros Afins" (1977), "Dialécticas Aplicadas da Literatura" (1978), "Trinta Anos de Camões" – 2 vols. (1980), "Fernando Pessoa e C.ª Heterónima" (1982), "Estudos de Literatura Portuguesa I" (1982), "Estudos de Literatura Portuguesa II" (1988), "Teixeira de Pascoaes – Poesia" (1965), "Líricas Portuguesas" – 2 vols. (1975, 1983).

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02 de Novembro de 1919

Jorge de Sena

Escritor português



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