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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Os vossos poemas

Caros etéreos,
Apesar de estarmos em período de férias, a participação no último passatempo foi excelente. Em menos de 24 horas chegaram mais de quarenta poemas.
Como sabem, os primeiros 26 participantes que enviassem poemas com os temas propostos no último desafio receberiam livros.
Assim sendo, receberão os seguintes livros:

"Área Afectada" de Fernando Esteves Pinto
1. Carla Marques (Ermesinde)
2. José M. Silva (Santa Maria da Feira)
3. Mary de Oliveira (Setúbal)
4. Raquel Lacerda (Algés)
5. Nuno Xavier (Braga)
6. João Rasteiro (Coimbra)
7. Fernando Machado Silva (Portimão)




"Espelho Íntimo" de Torquato da Luz
1. Raquel Lacerda (Algés)
2. João Rasteiro (Coimbra)
3. Fernando Machado Silva (Portimão)
4. Mary de Oliveira (Setúbal)
5. Andreia Silva (Vila Nova de Famalicão)
6. Jorge Castro (Carcavelos)
7. Luísa Henriques (Estarreja)
8. Rita Pereira (Famões)



Revista "Sulscrito" n.º 3
1. anothertrickster (Coimbra)
2. Mary de Oliveira (Setúbal)
3. Eduardo Aleixo (Lisboa)
4. João Rasteiro (Coimbra)
5. Fernando Machado Silva (Portimão)
6. Gabriela Rocha Martins (Silves)





"Este pão que nos come!" de Raul Veríssimo
1. Carla Marques (Ermesinde)
2. Luís Pinto (Nazaré)
3. João Rasteiro (Coimbra)
4. Fernando Machado Silva (Portimão)
5. Fa menor







Eis os 26 poemas:

Mote "Escrita"

ESCRITA

despenteia-me as certezas
rouba esta pausa que fiz para pensar
surpreende-se não hoje, mas sempre.
baralha este jogo de cartas viciadas.

vejo a batota que fazes nesse velho truque
nenhuma emoção se repete...só os gestos
que rasgam essa máscara de indiferença
que esconde a face dorida.

vomita na escrita a amargura
dos dias sempre iguais
reinventa nas palavras a emoção
e torna especial este minuto.

Carla Marques
http://www.palavrasemdesalinho.blogspot.com

***

Pombas Brancas

Nas mãos…
duas pombas brancas.
Nos corações…
tramas e trancas!
…Nos corações.

Trancas e teias…
e zumbidos de amor!
Recordações e apneias
de um pretérito sem cor!
…Recordações e apneias.

E agora…
Nesta, feliz lembrança
que finda… afora.
Brilharemos na estrela
que reluz na esperança…
Que lá longe mora
em suma distância!
…Que lá longe mora.

Seguiremos em frente
de bocas amordaçadas.
E diremos que somos gente
de mãos amarradas!
…E diremos que somos gente.

Este poema… é o meu eleito
foi escrito pelo meu coração.
Que sangra, pelo amor guardado no peito
de uma rosa branca que seguro na mão!
…Que sangra, pelo amor guardado no peito.

José M. Silva
http://esquicospoeticos-avlisjota.blogspot.com

***

AS PALAVRAS

Mastigo-te as palavras como quem faz amor,
Sabem-me a orquídias selvagens
Acabadas de florir,
Como se a Primavera inteira fosse a fonte
Que nasce do teu corpo,
E as letras que me amanhecem, gorjeios
De água fresca
A correr dentro de mim!

Mary de Oliveira

***

Escrever é tudo

impulso,
a escrita como um baloiço,
a queda, o erguer,
desmanchar nós, cruzando-os.
A perfeição das palavras contidas, largadas,
que caminham sozinhas pelo texto, nadam no texto, morrem no texto.
Escrever é verbo, verbo é mexer, é parar, é remexer, é anestesiar. Verbo é isso é tudo.
Escrever é tudo, o pensamento no sentimento, o sentimento que pensa. É agir, ainda que na longa lassidão dos dias quietos, apagados e moribundos.
E o que é agir senão o impulso?

Raquel Lacerda
http://www.asinhasdefrango.blogspot.com

***

(para Ana S.)

Se escrevo
é porque busco ainda essa palavra
última irredutível inteira
que possa conter-te:

com ela, incendiaria a cidade
a partir das entranhas até que, no meio
do fogo, teu nome se erguesse
límpido: uma flor
prenhe de ar e sonho erecta sobre
a lenta inutilidade dos dias.

Mas não existe, essa palavra - nem
a minha escassa arte poderá
alguma vez criá-la. Ainda assim,
escrevo: é necessário dizer
que não há palavras que possam transportar
em si o teu rosto
indizível.

Nuno Xavier

***

O extremo exercício da loucura

Escrevo como no princípio
atrás do inóspito silêncio da faísca
curvado para dentro
boca fechada a que se confinam os cicios
apocalíptica e múrmur
em seus desvarios de garrote
e mastiga-se o intrínseco silêncio que corrói
esta triste e acirrada madrugada,

o silêncio circunflexo apaga os nomes
sorvendo a luz das glicínias
até que o poeta é desmascarado
pelo extremo e assombroso vocabulário – sagrado
e profano como se as palavras florissem
seiva e sangue
e rubras filigranas na beleza física de Auschwitz.

Escrevo como no princípio visceral
da explosão vulcânica dos cílios
e escrevo como se a única contrição superlativa
fosse a sílaba muda da água
porque o coração do fogo engole-nos vivos
por infinitas extensões epifânicas – aí cega a boca
na entrega híbrida do dialecto das nuas caligrafias,

agora o primórdio fôlego
surge elíptico no busto das cimitarras da alquimia
e grafará a morte como libérrima cascata
no cristalino silêncio silvestre que engoliu Elias.

João Rasteiro
http://www.nocentrodoarco.blogspot.com

***

poema sentido

escrever poesia e não
saber o que
é o que isso é
e continuar
sabendo que é
só escrita
e procurar
o poema aqui
enquanto a escrita
se faz. dizer no começo
eu sou um homem
o que é pouco o que é
muito dizê-lo e ser
sendo sem nada
para dizer ou escrever
e saber o nome
de tantos outros e outras
homens e mulheres
poetas dizendo
os seus nomes
que tanto já disseram
que tanto já escreveram
e a humanidade
os homens
as mulheres ainda
por salvar ainda
por escrever
como tantas mães
e tantos pais
que já foram
filhos e filhas
e irmãos e irmãs
de tantos mais
que nada disseram
e ainda nada
dizem e escrever
para eles e elas
construir o mundo assim
em silêncio
os carros pelas janelas
da segunda circular
até aqui ao quarto sexto andar
em silêncio
e apenas o raspar da caneta
no papel e os sons do corpo
deste aqui o meu
puxando a pele roendo
à volta das unhas
fazendo planos e promessas
e o poema
dizendo tudo
com o seu sentido
próprio que nada diz
com palavras tão pobres
porque alguma coisa
me escapa sempre
me escapou como
o teu adormecer no sul
agora e os condomínios
à volta e os prédios
de apartamentos vazios
tendo as férias já sido
já foram e Monchique
continua lá
para a esquerda vista
do terraço e nós
ignorando se ficamos
se partimos.
tudo caminha é certo
no mistério e o poema
levanta o sentido cansado
dele e por fim lido
reconhecemos os nossos
rostos o que ligava
pelos afectos os que já
se perderam. vêm
abraços de longe
no esforço de segundos
nas teclas
e esta caneta e mão
terminam o poema
pensando no teu corpo
pelo lado menos virtual
com o cão aos pés da cama.

Fernando Machado Silva
http://donnemoimachance.blogspot.com

***


Mote "Lisboa"


A minha cidade

A minha cidade é feita de janelas
e entre elas
há sempre uma alma dorida
ao som da música da vida
não vivida.

Ela é quente, é fria
e quando arrefece,
a gente toda junta se arrepia
com o fado
cantado em agonia.

Nela
o silêncio vibra,
as estátuas erguidas pelos mortos.
É feita de poetas amantes
e amantes cantores
e todos gritam
roucamente

o elogio
desse amor doente.»

Raquel Lacerda
http://www.asinhasdefrango.blogspot.com

***

O silencioso rio da minha aldeia
A Alberto Caeiro

O Tejo é um rio inseguro
sobre a profusão das águas
vulcânicas
insustentáveis
mas não é um rio imemoriável
revelado
opulento na ferocidade dos líquidos sagrados
sedentos
que correm desvairados o regaço ígneo da minha aldeia.

O Tejo tem barcos de metal sustido no ostentação das trovoadas
despojado da alma das rosáceas
dobrado contra o tempo
que multiplica as órbitas das rotas odoríficas
a velocidade
terrestre dos casulos estranhos de vozes
mapas batendo por dentro
do sangue das cosmogonias das lâminas
que se descobrem rosa no rio que se ignora labareda
no rio que se pertence aberto
às coisas mínimas
primitivas no eco surdo da palavra vulcânica
águas iniciais do rio que incendeia pelos dedos
aplainados
amores da minha aldeia.

Pelo Tejo ascende-se a desarmonia de Lisboa
das vísceras extremes
ausentes
da carne incendiada de lascas
no silêncio que oculta os girassóis – as silhuetas desnudas
que existem além do rio sagrado
da minha aldeia.

Sementes de milagres crus
porque rio
morada única que invade as margens
contra o tempo e a carne
o amor e o sangue
a rosa e o substantivo
e
nas veias que correm o rio da minha aldeia
o corpo
a eternidade
o silêncio
de se estar ao pé – a sílaba fecundando o júbilo do Mondego
que corre inócuo o verbo da minha aldeia.

João Rasteiro
http://www.nocentrodoarco.blogspot.com

***

a memória de um crime

nesse ano quase inteiro
vivendo só na companhia
de dois irmãos, enquanto
tua mãe cuidava dos seus
pais moribundos, um
velho perneta diabético e
uma velha devindo criança,
frequentavas as discussões adolescentes
de política de esquerda e amores
falhados. querias-te poeta, lias
muito e escrevias pouco
e mal, como agora, anos passados,
criança de dextra mão.
blusão da tropa, que ainda tens,
boina trocada por chapéu, projecto
de barba – finalmente concretizado –
percorrias a avenida
de roma e o king
tão cheios de intelectuais
que olhavam o miúdo de lado.
talvez por isso também essas
câmeras de segurança não viram
o movimento nervoso da tua mão
e do livro desalarmado
procurando o teu bolso:
nossa senhora das flores

Fernando Machado Silva
http://donnemoimachance.blogspot.com

***

LISBOA NOSTÁLGICA…

Foi no Metro em “hora de ponta”…
Eram os acordes arrastados e doces de uma concertina…
Num regresso ao passado
Meus olhos marejaram…
E o coração derreteu de ternura!
Era o Homem da Concertina
Arrastava consigo a saudade de uma vida
Angustias de tempos perdidos
A amargura das ausências...
… e o mote,
O mote mudava conforme as lembranças…
Cada acorde era uma lágrima
Cada música uma saudade
E ele tocava, tocava sem parar
O Homem da Concertina!…
E como tocava bem, o impiedoso…
Trouxe-me um sabor amargo-doce!...
Mas eu gostei
Gostei daquela dor…
Dor de saudade bonita
Dor dos Amores que ficaram lá atrás!...
Lembranças de Vida, vivida!
Perdido pelos recantos dessa Lisboa bela
Arrastando consigo as marcas de uma vida
Vai o Homem da Concertina
Nos degraus do Metro…
Na Praça do Rossio…
Pelas ruas do Bairro Alto…
Nas margens do Tejo…
Acordando as Tágides adormecidas…
O Homem da Consertina…
Chorando nostalgia
Pelas ruas da bela Lisboa!

Mary de Oliveira

***

Lisboa

Lisboa
Tens o Tejo a teus pés
E eu tenho a vida
Feita em pedaços de marés!

Lisboa que és nascida
E criada em colinas
Não és nada como eu
Que sou nascida
E criada em emoções felinas!

Lisboa
Tu és capital
És importante
E eu sou o quê?
Não consigo ser como tu
Sou a tal
Pessoa delirante
Entre o bem e o mal
Entre o mesmo e o igual...

Andreia Silva
http://segredos_escondidos.blogs.sapo.pt

***

LISBOA

as colinas
as varinas
oficinas
muros velhos onde urinas
nos apertos da cidade

velhos sótãos
saguões
lamentos e orações
onde moram ilusões
de que se veste a saudade

pátios
átrios
bonifrates
sejam camas
sejam catres
de mil vates cruzam ares
os versos sem ter idade

capital do quinto império
será beijo
Sebastião
personagem de mistério
colinas onde as varinas
vindas das águas do Tejo
lavraram o seu pregão
nalgum painel de azulejo

cidade quase verdade
Lisboa que permanece
junto ao Tejo
e adormece
em ânsias de liberdade

Jorge Castro
http://sete-mares.blogspot.com

***

pousou-me um pássaro sobre os ombros.
trazia cartas do exílio dos poetas
quando Lisboa era cais de luz
e uma pena de utopia
a escrever um tempo marinheiro de futuros.
numa asa breve
na têmpora delirante do vento
levou recados lúcidos do meu olhar nocturno.

Luísa Henriques

***

Gatos de Lisboa

Os gatos de Lisboa
são altos, esguios
bem falantes.
Sabem quase tudo
de história e
um pouco de geografia.

De noite caçam gatas
e de dia companhia
entre o lixo da cidade.
Não são assim tão pardos
como dizem as histórias.

Pelo contrário, andam
engravatadinhos, ar galante e
de quem não parte uma unha.
Se lhes falarem em
sardinhas levantam
altivos os bigodes -
não são desses gatos
farruscos aos pés
das varinas. Têm classe!

Mas mostrem-lhes um
banco de jardim ao sol.
E miau.

Rita Pereira

***


Mote "Sul"


apontar as agulhas ao rosto traçado riscado na pele
do braço franco ao flanco do nome
farto tamanho que tudo abarca até
aos.......................................nós
.......................................dos dedos em riste
marcamos no mapa o nosso ponto
no sul

anothertrickster
http://anothertrickster.blogspot.com

***

A TRANÇA DO SOL, NA BAÍA DO SADO!

Às vezes o silêncio envolvente faz tão bem
... completo, absoluto…
… respirar a natureza solitária, verde, profunda!
Hoje saí com sede do cheiro do rio
e do fascínio desesperante do bailado nervoso das ondas
sempre me desafiar-me!…
Debruço-me… (perigosamente – dizem…)
nas cordas de protecção, eu sei, mas…
hoje é como quem sente a atracção do abismo!…

- Reter na memória o cheiro fresco do rio…
- O valsear dos peixes ali, tão pertinho de mim…
bastava estender a mão…, um afago, num desejo!...
- E os golfinhos!...
Há quanto tempo!...
Cheguei na hora certa, acordaram agora da sesta!
- na minha frente a “ilha”, a (minha) ilha,
meu doce sabor de azuis e verdes (d’outrora…),
onde o mar abraça o rio… e beija a serra!
- E as gaivotas?!...
Hoje não há gaivotas…!!!
Queria tanto mandar-te um recado…!

Abri a mala das saudades e
saltaram-me os verdes limbos dos dedos da serra,
lembrei daquela promessa…,
darmos as mãos e subir,
subir até onde o mundo se recolhe…
ali, só tu e eu, vestidos do manto negro da noite
sob o olhar cúmplice das estrelas!...
vaguear por outras galáxias nas asas dos ventos...
e dos sonhos!...
… Desço das nuvens,
o corpo aflito não sossega, que o sol é uma brasa, hoje!
Eu sei, logo ali as sombras dos arbustos, no jardim!
Vou até lá refrescar-me um pouco na brisa que vem da serra,
ler-te de novo,
que é como quem te retém aqui,
pertinho de mim!...
……………………………………….

Olha p’ra mim…,
estou ainda aqui,
debruçada sobre esta corrente que me leva a ti…,
que o sol vai alto, ainda
e estende-me ciumento os fios dos seus cabelos!
Vou pegar neles, um a um,
entrança-los até onde o seu calor me derreta os dedos de ternura!
Olha…, e não te esqueças da pérola,
o remate que costumo usar
para prender a trança!...

Mary de Oliveira

***

Nocturno de Chopin - variações

Era esta nota, folha diáfana de choupo, arrepiando ao de leve a superfície das águas do rio, que ouvi sibilina na noite cálida de ontem, olhando a lua cheia e a estrela da manhã, já sabendo que o vento não, nem suão, as árvores paradas, como estátuas, noites do sul, do alentejo serrano, nem vivalma, nas portas e poiais,isso era antigamente:
- O astro tá parado, compadre!
- Parece que mexeram as folhas agora...
Vozes nos caminhos perdidos do tempo...
A folha. dizia eu. a nota. com voz de céu. de música, entenda-se. Nocturna. De Chopin. Fez falta ontem neste clima de escorpião, de lacrau, para quem não saiba. Doçura de piano. Vestidos de cetim. Lábios de moça com peitos de regaço. Abraços. Na noite cálida. Chopin fez falta. Ontem à noite. No deserto. Sem tâmaras.

Eduardo Aleixo

***

Arquitectura Revisitada
À Gabriela Rocha Martins

No céu
uma intempérie
como só a intempérie do amor.

Pela arquitectura da carne
a sua cicatriz era a taifa acesa
o inaudível.

Porém para me mostrar a flor
ouso pensar que o fogo de I´timad
apazigua o Sul:

- Não existes
Silves lá no remanso do rio
sem as vestes escravas do sagrado.

Diria que era I´timad
a indivisível luz
e que é o verbo primordial da aurora.

Consigo o desabrochar da sílaba
ciclos do alfabeto do tempo
cativos do alaúde:

- Incandescente, tão incandescente
como a melancolia do sémen
que outrora era lágrima
a chuva de Primavera aberta ao cio
de eternidade em eternidade
como um denso aroma, suave corpo.

João Rasteiro
http://www.nocentrodoarco.blogspot.com

***

casa do Alentejo

à entrada não reconheço nada
tudo é mourisco um princípio
que liga à minha djellaba
mas tenho de subir toda a escadaria
para reconhecer a minha casa.
poderia dizer a nossa
só que ainda não lá vivemos
não ainda embora os planos
já os tenhamos feito
mesmo se surgidos por acaso
sem qualquer vontade expressa
eles estão lá já fechados ao longo do corredor
na sua divisão de quartos.
estou portanto num
alentejo e tu noutro
o teu verdadeiro o meu de empréstimo
e tu desenhas o que chopin te diz
por mãos amigas enquanto eu
escrevo para fazer tempo
como um real alentejano
com vinho e azeitonas
numa sala cheia de azulejos e
pratos na parede com motivos
da nossa terra adoptiva.
escrevo e tu desenhas
e tu escreves e eu rabisco
para voltar de novo à escrita
porque penso assim
nesta distância toco-te
porque ao escrever estás sentada
aqui à minha frente
com os nossos pés a tocarem-se
como na tua ou na minha cama se tocam
e de caneta na mão deslizando
a tinta pelo papel passo a mão
pelo teu corpo que pouco gostas
mas eu não. do que a minha mão
viu na rara luz dos nossos quartos
só me falta o teu gosto
mais fundo de mulher
salgado como estas azeitonas
que levo à boca para enganar
a fome e húmido como este vinho
que me deu coragem e a desvergonha
por agora para te dizer
que a minha língua é curiosa
tanto ou mais que os meus olhos
ou as minhas mãos
quando se passeiam pelo teu corpo
de leoa que aos poucos e poucos
me tem consumido
as noites os sonos e os sonhos
o meu desejo apenas domado
quando o teu encosto encontra
o meu à noite se adormeces.
estás no alentejo e eu nesta casa
em lisboa. tenho um rio
e tu a chave da casa
onde agora gostaria de estar
dizendo ou fazendo
o que digo aqui escrito.

Fernando Machado Silva
http://donnemoimachance.blogspot.com

***

o calor sufoca
tudo se aquieta como se a natureza tivesse feito um pacto de não agressão
há uma suavíssima brisa que tenta transgredir
não lhe é concedido o salvo conduto

magnum mysterium

subscrevem.se os verbos numa continência de acção
nada é permitido além de um degrau de tempo que pretende apresentar.se
para que alguém o mastigue mas
ninguém se atreve a contrariar esse calor liquefeito no sangue
duma velha senhora//mulher
soterrada nos escombros de uma casa senhorial

um dia os vermes hão.de contar a sua história
estilhaçando as vidraças ressequidas e trespassar as águas que
morrem devagar por entre as pedras de um alfabeto lírico

há um silêncio abrupto e
os répteis abocanham.no senhores dum espaço a sul por
que naquele lugar onde outrora havia um poema
hoje restam as ervas presas a
o espectro da mulher//senhora de cujo braço cresce uma foice
pronta a ceifar o daninho como se de uma asa se tratasse en
quanto se tece um ruído vago no rescaldo de lonjuras ou
se busca um novo verbo que à sombra do velho há.de medrar

ousa.se o corpo

gabriela rocha martins
http://cantochao.blogspot.com

***


Mote "Pão"


Pão


come-nos os momentos
na busca incessante de alimento
dor física...múltiplos sofrimentos
amagura...na falta um tormento!

da fome que nos mata
do prazer de um aroma
textura estaladiça que nos ata
ao sabor que nos assoma.

faz-se de momentos únicos
polvilhado do fermento da vida
fruto da terra que nos convida.

na simplicidade de um nome
a complexidade de uma função
hoje e sempre nada somos sem o pão!

Carla Marques
http://www.palavrasemdesalinho.blogspot.com

***

Tabuleiros de Tomar
De beleza sem igual
Olha-os a gente a pensar
Que são pedaços de cor
Arrancados com amor
À terra de Portugal

luís pinto

***

Iniciação

A cidade dobrou-se para o rio
e o seu útero irrompeu
sobre as águas
rosa a rosa
apoiada por bilhas vivas
auríferas
sopro a sopro
prenhes.

Soube-se então que renascia violenta
entre mandíbulas alagadiças
como a inflexibilidade
da borboleta
acerba.

Em agonia precipitaram-se sobre as casas
e coseram-se com a cal
pelo coração irreconhecível da pedra.

Era uma cidade como um sismo
ininterrupto
atada às víboras do milagre
extremo
entre rosas e pão
incandescente e granítico.

A cidade meteu-se toda para dentro
o sexo descoberto
transformada em réptil de hálito branco.

João Rasteiro
http://www.nocentrodoarco.blogspot.com

***

e tu seguras o pão
nas duas mãos posto
como o coração nas nocturnas
preces de ninguém. toma-o
por exemplo e parte,
metade a tua vida, a outra
ao corpo que te partilha
a cama, de novo juntos

no lajedo esquecidas
discussões, migalhas.

Fernando Machado Silva
http://donnemoimachance.blogspot.com

***

Onde está o Pão?

Sem pão e sem amor
Sem sequer uma côdea com bolor
Que lhe caia na mão
Aos tropeções por essa vida
Sem esgar na noite entorpecida
À espera de aquecer o coração
Anda perdida qual mendigo
Muita gente em nosso mundo
Matando o ar em campo nu de trigo
Que já foi seu e que ardeu

Quem lhe roubou o seu pedaço de pão
Quem lhe sacou o coração e o pisou
Fingindo bem-fazer
Dizia que era dia e fez a noite
E continua airosamente a sussurrar
Que o pão dos outros é ateu
Que só quem o tem o mereceu
E que o dia de mais pão há-de chegar

Mas eu grito enquanto a voz não me doer
Enquanto a noite escura estiver
Enquanto eu vir ainda um pouco mais além:
Anda muito ladrão por aí com cara de gente-bem.

Fa menor
http://escritariscada.blogspot.com

***

Obrigada a todos pela entusiasta participção. Obrigada aos autores e editoras pelos livros oferecidos.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Passatempo fechado

Caros etéreos,
fechou o passatempo para os 4 motes propostos, pelo que não serão aceites mais participações.
Serão publicados aqui, brevemente, os primeiros 26 poemas que chegaram à nossa caixa de e-mail.

domingo, 29 de agosto de 2010

Mote "Sul"

Fechou, neste momento, o passatempo com o mote "Sul", uma vez que já recebemos os 6 poemas concorrentes.

(Ainda continua aberto o passatempo com o mote "Lisboa".)

Mote "Pão"

Fechou, neste momento, o passatempo com o mote "Pão", uma vez que já recebemos os 5 poemas concorrentes.

Mote "Escrita"

Fechou, neste momento, o passatempo com o mote "Escrita", uma vez que já recebemos os 7 poemas concorrentes.

Venham daí esses poemas!

Caros etéreos,
desta vez proponho-vos um passatempo múltiplo, em que serão oferecidos 26 livros de vários autores:
• 7 exemplares do livro "Área Afectada" de Fernando Esteves Pinto (oferta da editora Temas Originais): aos primeiros 7 participantes que enviarem poemas com o mote "Escrita".
• 8 exemplares do livro "Espelho Íntimo" de Torquato da Luz (oferta do autor): aos primeiros 8 participantes que enviarem poemas com o mote "Lisboa".
• 6 exemplares da revista de poesia "Sulscrito" n.º3 (oferta da editora 4Águas): aos primeiros 6 participantes que enviarem poemas com o mote "Sul".
• 5 exemplares do livro "Este pão que nos come!" de Raul Veríssimo (oferta da editora POPSul): aos primeiros 5 participantes que enviarem poemas com o mote "Pão".

Só serão aceites as primeiras participações que totalizem os 26 poemas para os 4 motes propostos. Cada participante pode enviar apenas um poema para cada mote (podendo, portanto enviar 4 poemas).
Só serão aqui publicados esses 26 poemas.
Não se esqueçam de enviar as vossas moradas (para posterior envio dos livros), mesmo que já tenham participado noutros passatempos.
O prazo de recepção dos poemas termina às 24H00 do próximo dia 5 de Setembro.
Os poemas deverão ser enviados para o e-mail: porosidade.eterea@gmail.com e deverão indicar o mote escolhido.

Boa inspiração!

sábado, 28 de agosto de 2010

Os vossos poemas

Caros etéreos,
chegaram, até hoje, ao porosidade etérea, 50 poemas para participação no último passatempo, desta vez de tema livre. Devido ao número elevado de participações, este passatempo encerra hoje, pelo que não serão aceites mais poemas.
Como sabem, os primeiros 10 participantes receberão um exemplar do livro AvRYl de Dinis H. G. Nunes.
Assim sendo, receberão o livro, pela seguinte ordem:
1. Raquel Patriarca (Matosinhos)
2. Fernando Machado Silva (Portimão)
3. Mário Rui Filipe (Lavradio)
4. Andreia Silva (Vila Nova de Famalicão)
5. Soraia Martins (Aveiro)
6. Julião Bernardes (Queluz)
7. Francisco Coimbra (Ponta Delgada)
8. João Rasteiro (Coimbra)
9. @lexis (Amadora)
10. Vicente Ferreira da Silva (Porto)

Eis todos os poemas, pela ordem que chegaram:



Eu, Inquisidor

Que faço quando tudo arde?

Eu,
Inquisidor,
única esperança
de remissão,
ardo nas chamas da salvação divina.

Eu,
Inquisidor,
convoco o homem
o herege pertinaz,

posto a tormento no suplício
vê nascer a verdadeira fé
em cima do potro ou nas cordas do polé

essa criança que ofende
o Pai
reacende as brasas do amor celeste

Eu,
Inquisidor,
nada vejo:
nem sonhos,
nem palavras,
nem a carne rosácea que perante mim se disforma

vejo a alma
o pecado e o vício
é este o meu santo ofício.

Eu,
Inquisidor,
queimo as palavras, os sonhos,
a carne cinzenta que perante mim se reforma

e, quando tudo arde,
sou eu sublime
sou eu santidade.

Raquel Patriarca (Matosinhos)
http://blankbluebook.blogspot.com

***

ocaso egoísta

prevê-se a tempestade, sob o teu olhar,
o horizonte escurece, o lápis
delineia o risco, tímido, o dia
vai caindo. atravessamos esta ruína
de ponte, ao fundo as poucas dunas
de árida vegetação, cardos
estornos, narcisos, cordeirinhos.
escolhemos a margem sossegada
da ria, longe dos viveiros,
esparso cemitério, vivo verso
de camilo pessanha.
por pouco seríamos índios da meia-praia,
pés descalços pelo lodo, perseguindo,
cada um pelo seu lado,
o cão, esta espécie de filho, louco
infatigável nas aventuras
predadoras, sem consequências,
nenhuma gaivota ou garça
se deixa apanhar por quatro patas.
pode vir a tempestade, a tormenta,
o fim do mundo, tudo isso
pouco interessa. a felicidade
é egoísta.

Fernando Machado Silva (Portimão)
http://donnemoimachance.blogspot.com

***

Chamas da Memória

E agora, que tudo começou? Em que faldas me remeto para a convulsão dos sentidos!
Sinto a pele a queimar e a estiolar-se nas cinzas dos exegetas do silêncio. Sofro na
mais nebulosa inexactidão dos olhares e dos cânticos ao luar. A labareda insone
percorre o meu limbo prenhe de lágrimas na raiva em que me encontras. Dás-me
a mão e percorremos o sopé da serra em demanda pela paz. Tal como aqueles
soldados, extenuados e inalando horas de mãos criminosas. Um horror de ser
humano, para abafar o sentimento do amor pelo mais verde pulmão que abraço.

E por fim, que palavras tenho para te dizer? A minha vergonha esconde toda a
erudição das palavras inauditas que apenas consigo sussurar. Há um sopro de vida
que ainda resta em ti, voa em direcção às estrelas e chama as nuvens para o mais
solene extinguir de fogos-fátuos da memória. O dia em que o teu sorriso abriu as
portas da capela mais isolada da Serra. Lá, depois de nacaradas as flores mais
silvestres, aprendeste a medir a altitude em que te encontras. Desces, sem pressa,
depois da tormenta inflamável que vivemos e abraças um canto dulcíssimo no meu olhar.

Mário Rui Filipe (Lavradio)
http://www.mariapernilla.blogspot.com

***

Desencontros

Quero tanto, mas tanto, não te encontrar
Quando ando pelas ruas que conheces
Não quero ver a ternura no teu olhar
Preciso sentir, em mim, que me esqueces

Ncessitamos de manter distância
Mesmo em todos os cantos da cidade
Não podemos ter, espera com ânsia
Não se esbarra com a felicidade

Mas no fundo, bem lá no fundo do sentir
Ando com passo normal sem ser a fugir
Caso eu te encontre num cruzamento

Nunca se sabe o que o destino faz
Nem se prevê de que o olhar é capaz
Quando não acabou o sentimento

Andreia Silva (Vila Nova de Famalicão)
http://segredos_escondidos.blogs.sapo.pt

***

foge-me o chão

«por tudo
abandona-me aqui
somente a terra me comerá os pés
o cansaço que derramo
será sorvido por um leito
que me aguarda
despido
quente

pudesse eu cheirar o que pensas
e tragar cada palavra
malícia de letras bem-vindas
num sopro que só o meu olhar
cuida
o amor já não se deixa abater assim
foram tempos
em que esquecer dava jeito
e fugir era bem feito
e mexer nas coisas significava
querer mesmo saber
o intuito

a essência
era comer as mãos com que se pecava
neste silêncio que não nos deixa dormir,
grita-me aos ouvidos
treme-me os lábios
pequenos bichos-do-mato
passeando-se no ruído
deste peito convalescente
um eterno volver
no cabelo que cheira a pêssego
e que de um travo
bebo
fio a fio
prendendo-me o esófago afrontado
fio a fio, por entre fios

a cor do mel
arde nos braços»

Soraia Martins (Aveiro)

***

Não tem olhos mas vejo
sem disfarce nem dúvidas
o meu interior
– deixa-me nu e só
na tranquilidade
de uma ferida seca.

Dissimula-se por dentro
como quem obtém prazer
jogando às escondidas
no desejo de vencer-nos,
com sede de ser descoberta:
matéria primordial, definitiva
por onde se afirma o percurso
de cada um de nós,
invisível, fria escuridão
que nos acende o corpo
a despertar na morte.

Julião Bernardes (Queluz)

***



como é belo
e difícil
conhecer-te

que nem sei
como dizê-lo
sem escrever

isto aplica-se
ao próprio
mundo

e temos
de o fazer
todos os dias

passar
do olhar à
própria coisa

mergulhar
na essência
do olhar

Francisco Coimbra (Ponta Delgada)

***

Poema Verde
Ao Albano Martins

I
Nada já há a pronunciar em tua defesa
sob o viço das oliveiras. Enterra o teu segredo
num verbo apócrifo e gentio.
Oculta-o de perfil por entre a língua
que nunca possuíste na boca. Agasalha-o inteiro
até clarear o musgo na fissura do chão.
Preserva-o como se só a voz queime intacta
o sulco de uma lua de enxofre.

Ó ser,
cujas alegorias foram as sombras aprazíveis
do ígneo clarão. Como é verde a raiz duma planta
que secou, o mecanismo afectuoso da barbárie
e o curso trémulo do peregrino.
Entre o odor da terra e o calor difuso do coração,
a chuva ancorada sobre a flor de lótus
equilibrando-se corpo virado para as fogueiras
da água que pugna a seiva.

II
Há-de o tempo perpetuar aquela farsa arquitectónica
de um poema perfeito. Pois ermas estão as águas,
a divina força de sua granítica soberania
em nossas condenadas elegias.
Parece um lugar para amar no escuro, o indistinto
e primordial eco do anjo no Inverno?

Tu, poeta,
que deslindaste perplexo que há lodo sob as algas,
sob a pele, como uma vã condenação.
Na verdura da sílaba, em ti, qualquer crença nua
no oficio de romeiro, íntima
na sede mais forte dos líquidos, no pranto do sol,
poderá subsistir ao ensejo dos aguaceiros.
Tu, que não perduras no cântico mágico do poema,
mas tão só ciciado nas múltiplas máscaras
do tempo anterior ao acasalamento dos besouros.

III
Em cada árvore depois do fogo, o poema
regressa nu e a morte verde, a lágrima
corre como se uma enxurrada tolhesse as palavras
em homem e bicho, em água e sangue, em eco e cântico,
em borboleta e mariposa. Para sepultar os prados.
Falo do inexplicável sopro. Aí, tudo permanece.
E tudo é teu. Tu és o sangue, o verão e a pedra sagrada.
O poema é verde. Sinto-lhe o odor materno.

João Rasteiro (Coimbra)
www.nocentrodoarco.blogspot.com

***

Relógio

Eu sou o ponteiro dos minutos
No relógio da minha existência
Passo pelo ponteiro das horas
Em momentos certos e mágicos

Quem passa pelo relógio
Que julgo vagamente ser eu
Segue depressa demais
Sem olhar a quem adianta

Talvez o ponteiro dos segundos
Trespassando os números
Fazendo constantes tangentes
Na vida assim como na morte

Seria talvez bom poder
Girar os meus ponteiros
Sempre no sentido certo
Num ritmo próprio de mim

Parar em minutos preciosos
Saltar segundos amargos
Impedir o toque da hora
Fingir que ela não passa

Parar o tempo ali mesmo
Naquele minuto de silêncio
Em que tudo se diz sem falar
Numa cúmplice troca de olhares

Acelerar o seu compasso
Quando o leito vazio chama
Supor uma noite numa hora
Na ilusão de tudo transformar

Julgar tudo um sonho cruel
Quando ao despertar
Tudo permanece igual
Até as horas no relógio...

@lexis (Amadora)
http://somesmopalavras.blogspot.com

***

Infâncias

ir além é uma necessidade imanente à condição de existir.
desde o instante em que os olhos recém-nascidos se entregam às lágrimas,
o ímpeto de conhecer o mundo impele-nos a seguir,
amparados no que nos foi anterior e nos fez.
mas ninguém olha para o horizonte à procura do antigo.
e todos os dias o portal acontece quando o Sol mergulha nas águas,
fundindo ondas laranjas nas paredes do átrio triangular da quimera.

todos sonham com a sabedoria do tempo vindouro
– esmorecendo o sabor do momento presente
e desperdiçando a energia que será necessária ao percurso a fazer –
pelo delírio na capacidade profética da alegoria ocasional.
foi na ossada da fera que o favo de mel se resguardou.
incólume! mas assim aconteceu por determinação externa.
já o discurso ecoa prazenteiro porque é dito para agradar.

reflexo duma atitude implacavelmente determinada,
este correr faz-se sem ponderação rítmica
na busca dum oráculo indiscriminadamente vaticinado.
e o mergulho que aumenta a velocidade tombada
escoa a amplitude da perspectiva num breve ponto afunilado,
que transfigura a beleza da paisagem num vórtice intemporal,
onde se encontram os algodões doces mais sumptuosos.

ah! perante a omnipresença da execução mímica,
a ilusão é uma candura em si mesma
estranhamente ligada à falta de açúcar.
eis a pertinácia pelos carrosséis!
os adultos regressam ao mel da infância,
reforçando os tendões da mão que cria redemoinhos antagónicos,
ao alcance do anseio na chávena de café arrefecido.
e não antevêem a cegueira, nem a redundante contumácia.

o tempo não recua se os movimentos forem contrários aos ponteiros.
contudo, todos os dias, na esperança da entrega, o portal acontece.

Vicente Ferreira da Silva (Porto)
http://inatingivel.wordpress.com

***

AMOR QUE É MEU

A ti agora eu confesso meu amigo
tens em teu poder algo que é meu
um eterno e esquivo amor antigo
que ao meu amor não respondeu

o meu grande amor vive contigo
tu conquistaste-o e agora sou eu
que sem amor na vida vivo e sigo
na saudade desse amor, agora teu

perdi esse amor que me faz falta
sem ele sou apenas um solitário
cuja alma, por amor, não exalta

ganhaste tu um amor para a vida
porque foste bem mais temerário
de mim a coragem andou fugida

Emanuel Lomelino (Camarate)
http://amadordoverso.blogspot.com

***

TROVA DO MEU CORPO

Para ti
A minha cor púrpura da vida,
deleite de te ter longínquo ou não, o teu toque

De ti
O raiar das estranhas noites onde as sílabas que os meus lábios desenham,
rubram no espelho o vácuo da tua imagem

Para ti
Os meus seios de camélias amarelas, e a trova do meu corpo nu

De ti
Rasgo de vontade que te conheço,
de segurar os meus cabelos
e arrastá-los até onde o meu rosto se possa deitar

Para ti
A génese do amor mais profeta,
na linguagem libertina do desejo
e da entrega do teu olhar vencido

De ti
Os afectos obscenos que ondeiam a minha libido
e o teu sorriso narcísico de perdão,
quando me lanças na culpa,
fazendo de mim pérfida mas sempre amante

Para ti
Não cesso o sonho de alarmos o cosmos de mãos dadas

De ti
A rendição, sem condição,
para que te sorva no ímpeto da madrugada
desvirginando o meu ventre

Para ti
O estremecer das palavras
que as nossas bocas emudecem!

Ausenda Hilário (Faro)
http://poemas76.blogs.sapo.pt

***

Não se força um verso
nem um passo
na calçada húmida
nem um beijo
no impulso do desejo
que dois corações sedentos
anseiam
sem nada pedirem
calados.

Amando-se em silêncio
perdidamente apaixonados
ao prazer solitário
abandonados
de cada alma
que se quer fundir
na outra
num espasmo cósmico

Fernando de Jesus Ferreira (Queluz)

***

Cleópatra Dançarina

Só, vejo-me ante a página branca:
A mão engelhada, inerte e exangue
Da tinta vermelha e do negro sangue
Que o noctívago solilóquio estanca.
As luzes das estrelas são sudários
Encobrindo-me as palavras – crisálidas
Manifestações lívidas e pálidas
De débeis e abortados poemários.
Mas ei-la: aparição na brancura,
P’la noite adentro e p’la noite afora,
Almiscarando a alvorada madura...
Descubro-a na veste alva que a esconde
(Trémula doce arauta da aurora),
Amante milenar de um país onde

Das lúbricas areias se erigia
A dissoluta Rainha Cleópatra
Que bebeu o sangue dos faraós,
Dos deuses favorita fantasia...
Tresloucada, viajava pelo Nilo,
Como fosse montada num trenó
Feito de luzes e raios de sol,
Buscando marcoantoniano asilo.
Mas em vão: os musculados e fortes
Braços do romano gladiador
Estavam agrilhoados pela Morte...
Nunca mais veria o seu amor,
O Destino levara-lhe o consorte...
Só restava-lhe um deserto de dor...

Foi assim que a Bela Egípcia virou
As costas ao mundo e à própria vida
E que, numa velha língua esquecida,
Aos deuses e aos homens renunciou,
Pondo-se a caminho do sol poente.
Nos meus versos, as mal acentuadas
Sílabas tónicas são as pegadas
Que os seus pés deixaram na areia quente.
Se eu fechar as pálpebras, ouço e espreito
O sussurrar das folhas no desértico
Coração do poema cujo peito
Atravesso para me alimentar
Do leite de Cleópatra, profético
Vislumbre do seu berço tumular.

E quando ela alcança o topo dos céus,
Vira-se para baixo, de olhar líquido,
Serpenteante foz do fluir nílico,
Deusa que reúne crentes e incréus;
Todo o Cosmos ao Egipto se junta
Como para ver um prodígio bíblico
Que obedece a regras do tempo cíclico
Materializado na bela defunta.
E quem não lhe percorre as esguias
Pernas (que parecem auto-estradas
Onde caravanas de emoções, dias
Após dias, seriam transportadas)
Ainda que, de mortas, sejam frias?
E as unhas quando na carne cravadas

Sabem ao toque dos escorpiões...
Os seus cabelos, longos e escorridos,
São negro chocolate derretido
Por lume sustentado por paixões...
Com o corpo projectado nas dunas,
Onde o vento quente os seios lhe beija,
Perfila-se quem o mundo deseja,
Tatuada de hieróglifos e runas:
A inventora de todos os sentidos,
Sob a pele cor de aroma de café,
Acena-me de dedos estendidos
Do alto da Grande Pirâmide de Gizé,
Masturbando-me em lentos passos de ballet...

Alexandre Homem Dual (Faro)
http://amendual.blogspot.com

***

Poema livre

Havia, há muito, muito tempo,
No tempo em que as fábulas ensinavam,
E as cigarras eram apenas preguiçosas
E não artistas,
Até porque os poetas que as condenavam com elas não se identificavam,
Havia,
Dizia,
Uma poesia que não era livre.
Pobre, coitada, presa, a ritmos agrilhoada
A sílabas longas e curtas,
A rimas cruzadas, emparelhadas...
E eram odes e sonetos,
E rimas terças em italiano ou toscano antigo.
Havia, nesses dias, um só poema que,
Antes do fantasma do poeta maldito, era dito,
Bendito e cantado num só grito (que fôlego, que fôlego...) por aedos,
Cegos, no seu posto, palco, quedos,
E elevado nos seus falsos credos a religião.
Que, já nessa altura, eram os poetas fingidores.
Falsos, mentirosos, mas simpáticos, subservientes com quem os alimentava.
Havia mecenas pasteleiros, cozinheiros, padeiros,
E paneleiros, de grandes panelas, cheias de pitéus,
Que abriam os céus da fartura aos famélicos profetas
Da semente das palavras.
Hoje, os poetas morrem à fome.
Hoje, os poetas morrem. À fome.
Há fome nos versos dos poetas.
Os pasteleiros, cozinheiros e padeiros
Não dão pão a malucos...
E se algum dos paneleiros se atreve a armar aos cucos
Sendo mecenas,
É por amor, por tesão, por coração,
Não interessa. Não faz regra.
Amará o poeta, Não a criação.
E amando-a, tanto podia ser paneleiro, como não.
Até porque a poesia já não é sáfica nem seráfica
Nem épica nem profética
Nem lírica nem empírica
Nem redondo cagalhão.
Hoje, já não há rimas nem forma,
Nem pontuação. Nada guia a locução.
Hoje, a poesia é livre.
Os estômagos calaram-se, mortos, e a eloquência do espírito,
Faminto,
Floresceu em poemas
Sem rima
Sem forma
Sem métrica
Nados de uma besta tétrica
Ai, uma rima,
Que julga criar, em prima e dolce preguiça,
O fulgor de um novo stil
Disfarçado de poética
Morta, cosmética, senil.
Mas não patética.
Pateta, sim. Indigesta. E vil.
Como esta.

Manuel Anastácio (Guimarães)
http://literaturas.blogs.sapo.pt

***

escrevo sobre as mãos
que prometem o primeiro dia dos frutos
e casulos de horas afiadas

vejo-as engolir a chuva do que dizes

seguro nos dedos
a tua asa mais cansada

as mulheres saem à rua
no primeiro crepúsculo do mês
e entregam as suas feridas ao rio

outras paisagens singulares
feitas de mãos e ossos
e feras nocturnas mordem-te
por dentro

aguardas que o relógio pare

memorizas a hora exacta
em que anoitece no teu corpo

o tempo morde agora
as quentes arestas
das fotografias

deflagra no coração delas
um incêndio cíclico
como se a morte
se tivesse alastrado também
à memória

sinto recomeçar em ti
a inevitável metamorfose
do mundo

sobrevivemos durante décadas
com as mãos frias, dizias

penso em ti como quem mergulha no mar

uma vertigem nocturna
soletra as horas
e propaga-se agora pelas ruas
um medo absolutamente nefasto
de morrer sem que ninguém me impeça

sei agora
que algures a caminho de ti
abandonei o meu próprio corpo

João Paulo Coelho (Évora)

***

AMOR E FUGA EM AUSCHWITZ

Um amor numa esquina furtiva
de arame farpado, um delírio
que liga o amor apenas trocado
entre as mãos e os olhos
no rumo da noite, no bosque do céu
ramos de estrelas
cobrirão nosso rasto.

João Tomaz Parreira (Aveiro)
http:// www.poetasalutor.blogspot.com

***

AINDA

O helicóptero rasga a noite
com o seu som de guerra
e passa na janela, iluminado.
Os mortos despertaram
e vestem camuflados,
os mesmos que traziam, cheios
de gritos e de sangue.
Falta o escarrar das armas
e as lágrimas das mães,
enquanto na cidade alguém não dorme,
à espera de vingança. São
os que sobreviveram, loucos,
e existem como mortos em combate.

Nuno Dempster (Viseu)
http://esquerda-da-virgula.blogspot.com

***

Seguia as luzes ao passar

Seguia as luzes ao passar
chutava pedras e rodava sobre si
os braços que erguia no ar
como mastros inacessíveis.
As margens extenuavam o silêncio,
as águas gélidas e douradas
do rio resplandeciam.
Havia a pureza inicial das fontes,
o deslizar das sombras
e o mistério dos deuses ao passar.

José M. Silva (Santa Maria da Feira)
http://esquicospoeticos-avlisjota.blogspot.com

***

a revolução dos cravos era exótica por proceder à toma de imagens em reportagens de Adelino Gomes. Exorcizava quadrantes da sociedade até então escondidos na mente de Cunhal e presos em Peniche como os desenhos. Dos penedos que via da prisão até ao mar como dos tanques rolando nos paralelipípedos do Carmo lhe chegavam odores maciços das flores espezinhadas no chão.

Paulo Lima (Lisboa)

***

O Tempo, como medidor de existências

O Tempo: que dúbio e errático conceito!
O Tempo: dúvida e procura; busca e desencontro.
O Tempo que eu perco a defini-lo,
Esse, sim, é o tempo inútil.

O demais é o que me resta,
Simplesmente o que me resta,
Para contemplar-te…

Emílio Miranda

***

o poema carrega na voz de dentro
o devir das mãos ainda ausentes
como se não houvesse [nem pudesse
haver] uma extensão máxima entre
o corpo e o mundo

o poema surge na voz de dentro
num ritmo sigiloso de deuses cinestésicos
olhando, admirando, mas sentindo
medo que o corpo se quebre
no olhar das mãos

o poema foge da voz de dentro
dizendo à palavra que se afaste
e abrindo o corpo ao mundo,
numa ânsia frenética de
ritmos e silêncios

[animais rondando o génito
sagrado].

Jorge Vicente (Mem Martins)
http://jorgevicente.blogspot.com

***

SOVACO DE COBRA

o sovaco da cobra resguarda o saco dos segredos
à mistura com a mentira dos medos: guarda o que pode
e o que sobra sacode juntamente com os dedos.
é preciso dizer que a cobra engorda aos solavancos
da ira desfeita (olá cobra imprudente -
que como o ponche se ajeita) e à espreita
espoja-se no pó da terra branca. plasma-a a luz
que na acácia se espanta.

mas os segredos – meu deus quantos enredos
se burilam no canto do lobo e eu fico
pasmado como os rochedos resistem à dor
do mar. e eu fico especado perante a tarde
que se deixa cobrar. só a cobra engrena
os desvelos de ficar por aqui preso
pelos cabelos e ser a vontade guardada
na calma tempestade da achada.

salva-me o sovaco: o suor e a canseira
de ser outra ilha de outra maneira.
de ser barco ou ser vento ou ainda avião
numa viagem carpida por dentro. ou não

ou sim. ou talvez assim

Nuno Rebocho (Cidade da Praia, Cabo Verde)

***

Amores de Infância

Mal-me-quer, Bem-me-quer, Mal-me-quer!
Esta não valeu escapou-me uma pétala,
desta vez começo por bem-me-quer.
Bem-me-quer, Mal-me-quer, Bem-me-quer!
Tenho de ter a certeza que ela gosta de mim,
mais uma vez.
Bem-me-quer, mal,bem,mal,bem, Mal-me-quer!
A primeira não contou, melhor de três,
Bem-me-quer, mal,bem, Mal-ups caiu,
deixa cá ver, qual vou escolher:
este está murcho, este é complicado é muito florido,
este pelos bichos foi carcomido.

Um malmequer perfeito,
tenho que encontrar,
mais formoso que um Serafim,.
Um malmequer que faça jus à beleza
da minha princesa.

Cada pétala é uma cega lança
No seu desfolhar reside a esperança,
do meu sonho não ser desfeito:
de vir a ser o príncipe encantado
desse ser alado.

Bem-me-quer, mal-me-quer, Bem-me-quer!

Como diferente eu seria
se o meu infantil frondoso caminho
fosse feito sozinho
sem a companhia
da minha donzela
e o justo malmequer
para o seu amor testar.

Carlos Oliveira (Seixal)

***

ESTRELAS

Gosto muito mais
De olhar as estrelas
que de assinar uma sentença de morte
Velemir Khlebnikov


Gosto muito mais
de olhar as estrelas

o meu olhar bem sabe
onde se quer perder

na pontinha do céu, no lustro dos astros
que de assinar uma sentença de morte

a minha mão bem sabe
o que escolheu,
com que lustrar
e pontilhar a folha branca

se estou só, se o ódio
acomete com a sua asa de pedra
não cedo

que murmure
que impetre a ofídia morte
ao meu semelhante

viro-lhe as costas
da mão e da face

a mão não pode escrever outra coisa
senão o que os olhos vêem
é assim que é

como poderia suportar a perda
de uma das estrelas
do meu firmamento?

de uma só, por mais fosca que seja
a sua luz
vê-la cadente seria matá-la

e isso eu não faço!

Rui Miguel Duarte (Herserange, França)

***

Sou o que sou

Sou o que sou:
vagueio na luz intermitente
de uma descoberta.
Sou a voz emotiva
das palavras.
Letra a letra, já não sei
soletrar-te.
Um dia – agora – sei que
encontraremos a resposta.
As dúvidas dirão de nós
tudo aquilo que nos afastou.
Falaremos de amor
e de magia."

Paula Raposo (Estoril)
http://romasdapaula.blogspot.com

***

A Noite do Rio das Cores

O recorte desta transparência deixa-se tocar: agora que te levou obliterando o sorriso solto pela portada vermelha, que em cascata insistia abraçá-lo: ao rio que te encontrou e não te traz.

Espelha a serra depois de declinar o movimento irrepetível: não o omite: não esqueço a noite.

A calçada ilumina-se ao adivinhar teus passos: mordidos de forma ténue por bocas insubmissas à voracidade do silêncio.
Nem ai surge a ousadia de o interromper: não é o rio que todos julgam ver.
As correntes que lhe sulcam o percurso, parecem torcer-lhe a génese: muito poucos: num só: afloram a percepção do que verdadeiramente significam as convulsões que o esmagam: do mesmo modo que o regeneram.

Porque me entrego à força que me engole e não expludo os braços: os meus e os dele?
Rio das cores?
- Rio das canções: as que se escutam quando impera o silêncio.
Rio que desce?
- Rio que cresce!
Aprende, quando consome quem por ele é tocado.
Rio das cores?
- De todas: do verde: límpido lento: vertiginoso barrento.
Rio negro onde mergulha o manto branco.
Rio alvo que dança incluído nas canções que não se conseguem desenhar.

Relembro a fotografia enrugada pelas marcas do tempo e da acção dos demónios que a sonhavam perdida: o que ele agregava na sua descida quando imaginavam divisão: o que aproximava o que julgavam perdido!

Respira branco; move-se único: serpenteia de alma negra: pescadores de almas de dedos marcados pelos cortes explodem no coro que o enaltece: o cântico lânguido pela espera de quem não volta: branco: o canto que abandona os peitos em chamas e que escuto ao percorrer o relevo desta imagem com os olhos agora cerrados na recusa mais legítima: porque tens os montes iluminados nas tuas costas?
O que celebras?

Caminho para ti só para tocar o que definiste como o teu limite: o esbater do brilho que afinal nunca possuí: aquele que restituíste.

Estas margens nascem quando respiras na passagem em ciclos: voltas quando te supunham sem regresso: a doce dança da saudade: branca: dilacerante negra: caleidoscópio a preto-e-branco: para quê o superlativo das cores bastardas?

Como tantos mergulham e não vêm o que se move nesse fundo tão alcançável?
Para quê tantos artefactos, se não necessitar de respirar é o todo: branco: e desejar que seja perene o nada negro: círculo em arco do espectro solar genuíno: branco na imensidão: negro no que cobre: a canção não afaga como o negro Sol: a inatingível sobreposição da cor que é única.

Os raios ecoam agora: quem por eles será atingido: quem os procurará?
Continuas a olhar para mim?
Vens escutar as canções que te atiro?
O que espalhas sobre mim, desse teu encantamento?

Esculpi estes jardins para que os banhasses no teu movimento: suspendo-os depois para que os busques: iças a vastidão dessa massa branca para que roube, simbiótica, o negro?

Há sereias que largam os mares para em ti florirem: querem beber desse negro: dormir sobre esse branco: como se reflectem nesses espelhos que inventam a simetria das cores: a dança das quantidades discretas: o domínio da matéria e da luz inventado para os Deuses, que repletos pela sabedoria concedida: não sabem como usar as mãos agora desfeitas: membranas de sangue: negro no vento: branco no galope: “branconegro” no mergulho para a conseguir aflorar.

Afinal esses seres são descendentes de luz: encantadas pelo som: com trocas desejadas.
Por todos passas rio: nesta noite branca que convoca a noite negra para a pugna das cores que se abraçam.
Os pássaros que se beijam sentirão que o voo suspenso os leva aos mais distantes e escondidos destinos da migração das cores?
O silêncio subdivide-se na dimensão da criação dos processos naturais: porque sorriem nessa dor quente?
A pergunta desiste: porque trocaram os mares?

Outra nação se alcança na tua travessia: todas as outras por ti são alcançadas e recolhem as suas bandeiras: as torres choram agora, brancas sobre as pedras negras.

O fogo branco invade agora o céu negro: nunca a magnitude das cores universais esteve tão perto de gerar os passos cósmicos com que de mim te aproximas: como a ti estou tão entregue: apenas me vejo em ti na mais imponente das escalas atómicas: negro simples: branco inteiro: a ocupação do espaço pelo objecto da tua dança nem se escuta: estes braços já não são meus.

Nuno Fonseca
http://omarsuperior.blogspot.com

***

Gosto de ler poemas

Gosto de ler poemas
Na rua em pé e nu
Como sempre estamos quando lemos poemas
Aos outros
Se bem que há poemas que nos vestem

Gosto de ler poemas
Com folhas escritas à mão
Como antigamente, lembram-se
Tirados de livros impressos em papel
Lembram-se
Mas nunca tive coragem de o fazer
Sem as roupas do Inverno
Que por vezes habitam a fronteira do poema

Gosto de ler poemas
Fechado e preso numa torre de masmorras continuas
Subindo e descendo
Entre caves vinhateiras
E varandas para o Tejo
Ou o Ganjes

Gosto de ler poemas
Desolados e tão negros
Que envergonham o caos e a desordem
Dos vagabundos
Imaginem uma cidade onde todos são homeless
E apenas poucos habitariam algumas casas
Envergonhadamente
Imaginem Lisboa ou Porto
Londres ou Tulsa
Em que todos os homens e mulheres
Abandonariam as suas casas
E viveriam no olho da rua como se diz
Juntos e aquecidos
Para se sentirem humanos
Interessante pensar que largariam os seus automóveis
E se recusariam a abastecê-los
Até a poluição desaparecer
E a calma dos sábios chegar
Imaginem só…
Estão a fazê-lo?

Gosto de ler poemas
Em voz alta
Recuso os romances
Leio só os que são poemas envergonhados
Dos poetas que têm de os escrever
Para matar a fome
Seja Bolaño ou Lobo Antunes

Gosto de ler poemas
Completamente nu e rouco
Se bem que com roupa e com voz
Gosto desses poemas
Concebidos pela lição de Cage
Escutam-se de olhos fechados
E são de graça
A música da cidade
A música da industria
A música dos cães
A música das telefonias esquecidas
A música das crianças
E a música dos corpos
Claro que de olhos fechados
E braços abertos
A polícia manda-me circular
E manda-me identificar
Não saciada com a poesia
Que afirmo me legitimar
Manda-me fazer testes ao sangue
E pergunta-me que substância uso
Digo-lhes: Camões
E eles percebem o que percebem
E passo a sorrir na prisão
Com a acusação de falta de respeito
À autoridade
Eu que nunca desrespeitei
Nem Pessoa
Muito menos Ramos Rosa

Gosto de ler poemas
Em voz alta e de os gritar
Se o poema o exigir
O mesmo poema que na rua é loucura
No atelier de produção de declamações
Uma honraria
Mas é o mesmo poema
O mesmo poema na voz do poeta televisivo
É um acto genial
Mas na voz do homem desgrenhado
É um acto de demência
Mas é o mesmo poema…

Gosto de ler poemas
De Sebastião Alba
Dum livro que me custou 8 euros
Se fosse vivo
Dar-lhes-ia os 8 euros
E ele mataria a fome
Numa série de dias felizes
Pobre vagabundo-Grandioso poeta
Tenho saudades tuas
E nunca te conheci
Quantas vezes se varreu este poeta,
Como cão com sarna?

Gosto de ler poemas
Escritos em palavras doces e desenhadas
Como as lindas mãos do poeta envelhecido
Os seus desenhos são rosas
E as suas rosas são rostos e sorrisos

Gosto de ler poemas
Em que se esqueça das virgulas e pontos
Como este
E agora faz-se tarde
E o poema está terminado.

Carlos Teixeira Luis (Lisboa)
http://carlosteixeiraluis.blogspot.com

***

EMBRIÃO DE PAZ

Subi a serra em busca de sol.
Lancei-me nas profundezas dos lagos
Ao encontro do silêncio
E mastiguei papoilas enfeitiçadas
Que me ofereceram alucinações gloriosas

Foi aqui, neste divino lugar
Onde as estrelas são colares brilhantes;
A sombra e o ar que respiro
São dádivas benéficas.
Foi aqui que tudo se iniciou.

Jorge Barroso (Borba)
www.explosao-de-cores.blogspot.com

***

QUANDO VOEI DE MIM

Quando voei de mim pra te encontrar
o tempo estava frio
e nem sabia se era longe ou perto...
A chuva ela era densa, copiosa
O vento sibilava nas janelas
na sua voz tenebrosa
como um intenso grito
dado em silêncio num deserto
Mas era ao mesmo tempo um desafio
romper com velhas telas
e te achar
quer fosse longe ou perto
Traçara o teu perfil... a tua imagem...
Será que existirias... mesmo? assim?
De quanto era a extensão dessa viagem
quando voei de mim?
E atrás dos vários rostos
que cruzaram
comigo na distância do caminho,
por entre as várias almas que mostraram
o muito da essência do carinho,
achei-te sob a luz dum céu infindo
num dia que foi lindo
e que eternizo!
Ao pé de ti o tempo vai florindo...
e eu, sorrindo,
não voo mais de mim
que achei o Paraíso.

Joaquim Sustelo (Odivelas)
http://tardesdeoutono.blogs.sapo.pt

***

Estou farta de ser palhaço

Estou farta de ser palhaço
De me fecharem no circo
De me apertarem o cerco
E me taparem o sol

Estou farta de ser palhaço
De me sentir constrangida
De me saber ignorada
De me ter por mal-amada

Estou farta de ser palhaço
Estou farta de me ferir
Farta de fazer rir
E de por dentro chorar

Estou farta de ser palhaço
De riscar o céu de luar
E as nuvens de cor-de-rosa
E na volta nada trazer

Estou farta de ser palhaço
De tudo dar sem receber
Da paga sem merecer
Na noite que me fornecem

Estou farta de ser palhaço
Farta de me inventar
Farta de ser e me dar
Quando logo a seguir me esquecem

Estou farta de ser palhaço
Farta de ser mal olhada
Farta estou de ser pisada
Como boneco barato

Estou farta de ser palhaço
Palhaço de palha e cartão
A quem sacam o coração
Para assar e fritar no lume

Estou farta de ser palhaço
De afugentar os pardais
Com as roupas desbotadas
Em cima de um monte de estrume

Estou farta de ser palhaço
Das cores com que me pintam
Das dores que me provocam
Estou farta de ser palhaço

Fa menor
http://escritariscada.blogspot.com

***

Borbulhar compulsivo...

Há um barco quase a partir
Na enseada do éden
Onde viaja uma flor...e um almejar
Prisão de uma declaração de amor
Veredicto de um acordão a dois
Borbulhar compulsivo de desejo
Labirinto código de destino!

Despeço-me da falésia rasgada
Refresco-me nas ondas atrevidas
Fecho os olhos beijados pelo sal
E agarro-te a cintura provocante
Num passo de dança beijo!

Perguntas-me segredos do amanhã
Respondo-te ...presente ...hoje
Brinco-te anel vaidade bonançoso
E sorrio na cócega do teu exigir
Como página nua de um edital
A rogo do amanhã ...amor!

No aperto comum de corpos nossos
Balbucias metáforas picardia carícia
E ...eu fico invisível no esconde esconde
De um enleio atrevido...mas consentido
Onde fazes cheque mate de afectos
E temperas o ritmo sabor lingual
Ao som da nossa clave lábio!

José Luís Outono (Queijas)

***

A voz que me inventou

Ai, se pudesses chegar aqui,
E resgatar do meu peito,
As tristes e gastas palavras
Que ele silencia,
Far-te-ia de seguida um poema,
Belo,
Perfeito,
Feliz,
Porque me aliviaste a alma,
Do peso de velhos arquétipos que nela trazia.

Ai, se pudesses chegar aqui,
E emprestar-me a tua voz,
Eu usaria novos sons e temas,
Neologismos audazes, tentaria,
Para recriar os sentimentos,
Que há tanto tempo tento observar,
E que no modo deste viver, eu já esqueci.

Ai, se chegasses agora,
Por certo,
Não morria a minha poesia…

Beatriz Barroso (Lisboa)

***

trôpegos os passos em meio das urtigas agrestes.
como uma paisagem desconstruída na tela
onde os rios riem das searas desgrenhadas
e os abutres caminham pausados os vales
despidos da madrugada nas paredes das casas.

uma penitência em tão inóspito lugar
soa a espirais de vento na rota do corpo,
a penumbra no labirinto que sustém as horas.

Maria Manuel Rocha (Aveiro)
http://blogcompalavrasaofundo.blogspot.com

***

Campos de estrofes

O poema ergue-se, expectante,
desafiando o mundo do alto dos
seus versos mais secretos
e contidos. Não espera nada da
verdade, nem das pessoas, mesmo
as que ainda o lêem;
Sabe intimamente que só precisa
de palavras para se compor, e de
coragem para sobreviver à
fragilidade das suas pétalas.

Rita Pereira (Famões)
http://papoilasnachuva.blogspot.com

***

POESIAS FREE

Viva vida ,viva a carne intensa
e vívida e não pasteurizada
por uma infinidade de projetos,
planejamentos, metas,
o vazio do papel matador de florestas!

Ternura
Numa estrutura sem ternura
resta alguma gostosura?

Nas praças cinzas
ou artificialmente coloridas
há alguém verdadeiramente amante?

Folhas soltas lambem o mundo dos cooperados,
conglomerados.

Antonio Carlos Altheman (S. Paulo, Brasil)

***

ESQUECI

o meu
caminho de casa

o sono úmido
útero

o nome dos sentimentos

as mãos
dadas às praças

as flores
as estações, esqueci
o rosto de minha mãe

Eunice Arruda (S. Paulo, Brasil)

***

Ary dos Santos revisitado – acróstico

Abril não se faz no mês de Agosto
Raramente está o tempo a tal disposto
Yes! – grita o burguês indisposto

Depois de lamber beiços balneares
Onde vogam mariscos e lupanares
Só de quem anda na vida dando-se ares

Sabei mais que de Abril – filhos das mães
Andam tantos ansiosos ou medrosos
Nesta terra de saudosos capitães
Todos quantos dão os ditos por não ditos
Ou dão só argumentos pavorosos
Semelhantes aos seus ares… mais aflitos.

Jorge Castro (Carcavelos)
http://sete-mares.blogspot.com

***

A hera

A noite, e a infância.

A R. da Fonte, o seu traçado irregular, o empedrado
rugoso. Antiga. Estreita, só dava para carros de bestas. A casa do
Cândido Guerreiro, misteriosa, donde só entrevíamos o jardim
andalus através da portinhola entreaberta do grande portão
verde, e as altas paredes forradas de heras, com a sua verde
folhagem, a eternidade, e
a fama, a celebridade
imortal

Volto lá, muitas vezes. Intensas vezes.

Uma vez, chego no dia em que estavam a demolir a casa onde vivi.
Tão tosca, mas a mais bela. A ilusão do
conforto envolvente dos ninhos amorosos.
E eu lanço-me de braços abertos, à frente das picaretas – Não
façam isso, Não façam
isso! Essa casa é minha, essa casa é minha
Mas ninguém me ouviu.

Muito mais tarde, visitei Alte. E a casa estava a cair. Em ruínas,
e eu desatei num choro compulsivo.

Mas eu sei que os meus sonhos não me enganam, antenas
entre mim – a realidade –, e o passado, e o futuro.

Há tanto tempo que não escrevo...
Serei assim tão inútil? Uma fraude?
Onde me morreu o Desejo, esse único amante de todas as horas?

Esta noite voltei lá.
As paredes da casa, forradas de heras,
a rua, atapetada de heras. Heras subindo nas casas em frente, subindo
e crescendo
por todo o lado

Myriam Jubilot de Carvalho (Monte da Caparica)
http://myriamdecarvalho.com/blog

***

DOMINGO

Hoje liguei o rádio no máximo.
Para abafar não sei bem o quê.
É Domingo e a rua está vazia.
Talvez tenha sido isso que me tenha assustado.
Acordei cheia de ideias,
mas agora estou parada sem saber o que fazer.
Não posso culpar o silêncio e a paz do Domingo de manhã...
Até gosto do silêncio e da paz que se respira
na manhã de Domingo.
Mas continuo inquieta,
o corpo consciente de si,
dos seus desejos.
Não te suplica,
provoca-te descarado,
ardente.
E o rádio abafa o grito de prazer
com que finalmente se identifica....

Marta Vinhais (Porto)
http://www.amartaeeu.blogspot.com

***
poema in-visual


Heduardo Kiesse (Queluz)
paradoxosdoedu.blogspot.com

***

chegas-chagas

chegas ao pé de mim quase a chorar
como um rio que as margens não conseguem abraçar
as tuas águas vêm de um incerto lugar
chegas sempre com medo de secar
chegas ao pé de mim com uma aliança no anelar
os teus dedos tensos só querem apertar
chegas no calor dos dias sempre a acabar
no vazio das vidas a apartar
quase a tremer quase a tocar
nos meus lábios que te sabem arrancar
o calor da vida o sangue da ferida
que aumenta e fende que tarda em sarar
vens para o meu lado para te encontrares
na margem do leito que em fundo sei carpir
o tapete que sob os teus pés vejo sempre fugir
chegas ao pé de mim quase a dançar
como um louco cujos membros não consegue integrar
as tuas veias convergem para um incerto sangrar
chegas com vontade de me penetrar
os teus dedos galgam as margens da aliança anelar
da minha pele densa fazes tapete para apartar
a ferida aberta que trazes a fugir
quase a cair quase a dormir
chegas como um cão que tem medo de olhar
chagas ao alto num coração por amar

Joaquim Palulo (Carcavelos)

***

VERDADE/MENTIRA

Deveras te procuro
Nos escombros da minha memória
No derradeiro cais alem mar
Da minha desventurada glória

E como num fado
Numa dessas quaisquer ruelas
Iço meu pranto ao vento
Da nau sonho-me as velas

Enegrecidas pelas intempéries
Enegrecidas pela vida
Deveras te procuro
Algures perdida

Num desses mares imensos
E não fora a doce incerteza
Nenhum mar me tragaria
Nem me moldaria a tristeza

Deveras te procuro
Por entre o impenetrável escuro
Da noite que te abomina

Deveras recuso
Do universo o impulso
Que nos domina

Acho-te nem que seja no fim
No fim do que chamam vida
Acho-te, verdade
Nem que te chames mentira

jorge du val
www.poetik4ever.blogspot.com

***

Flash

Edifico-me em versos fundidos nas palavras de uma imagem
renasçendo desta morte de vazio num parto de poema.
Transponho os sentidos de mão dada ao teu rosto tranquilo
Sou outra dimensão.
Na página que abro para te ver, olho o infinito onde te encontro
Mas há regresso
e uma lágrima quente, abruptamente escancara a porta que não se fechará

Sei existir-me remotamente em qualquer canto de ti
num olhar de Maio crepuscular a caminhos do Verbo.

Alebana

***

a casa

É uma casa antiga no fim da aldeia
robusta construída a pedra talhada,
deste lado outro escrevo a memória
dos dias preenchidos:

Não é um poema é uma história
ou uma história-poema
que transporta gestos olhares
odores dos corredores infinitamente
iluminados. Na cal das paredes nascem
gestos em torno dos quadros
e esculturas de bronze com olhar
vítreo que a poalha das janelas escancaradas
à luz diurna deixam adivinhar
no ritmo lento do olhar atento.
Avanço de encontro à luz os objectos
vivem a sua inanidade nas memórias
da casa falam gesticulam
anseiam o toque retraiem-se no seu silêncio,
avançam no mistério
das paredes cálidas figuras
de outro tempo.

Do tempo Al-Andaluz
existe um pátio ladeado
de flores do amor onde o branco iluminado
das paredes repõe o olhar atento
no odor adocicado da atenção redobrada
pelo cuidado interior dos gestos calorosos,
é um pátio para noites de verão:
noites longas de amor intenso
que incendeia de odores etéreos a vasta planície.

Neste gesto calculado da escrita
regresso à casa preenchida:
dos passos lentos no chão esculpido
pelo tempo avanço de espaço a espaço,
do rendilhado abrupto das janelas
a luz da lua deixa antever o teu rosto
esculpido de encontro às paredes:
moves-te num silêncio que é só teu,
demoradamente iluminado
até à penumbra dos cabelos enxameados:
silhueta nocturna que alimenta
a casa antiga.

Manuel Nunes

***

Ideias

Passam velozes por mim as ideias
De onde vêm para onde vão não sei
São repentinos flashes de luz que sobressaltam
E trazem ao olhar mais profundo realidades ignoradas.

As ideias por vezes instalam-se
Insistem martirizam insinuam-se nos sonhos
São as obsessões de todos os dias
Disfarçadas numa luz que veio e ficou.

Outras vezes as ideias partem velozes
Deixam o espírito inquieto num sobressalto de dúvida
Um flash de luz que logo desapareceu
Permitiu entrever outra coisa que era diferente.

As ideias atordoam o espírito
Como chuva de estrelas a desabar sobre nós
Vêm de longe cheias de segredos
Desfazem-se no instante em que as abraçamos.

João Caldas (Lisboa)

***


1º de dezembro


pedro jubilot
http://canalsonora.blogs.sapo.pt

***

à Carolina Prazeres com muito amor

Foi numa motivação divina,
Em tempos de menino e menina,
Que todos nós, sedentos e febris
De amor, deixámos tudo por um triz.

Exangues de uma luta,
Em que a vitória era a queda abrupta,
Hasteamos as bandeiras.
E em vales inexistentes,
Martelamos as madeiras
E fizemos-nos gentes!

Quisemos arquear
Os rectos ângulos,
Que estavam ao dobrar
De uma unanimidade. E misturá-mo-los!,
Com afinco e a preceito!
Sem qualquer resquício de objecto ou sujeito!

Foi uma perfeita loucura
Feita sob uma luz densa e escura.

Foi um arder,
E um ver,
E um ter!
Foi um segundo sem te sentir.
Um barco chorão que, no horizonte, ambos vimos partir.

Zarpava de âncora não recolhida.
Âncora ferrugenta com fado de gente sentida.
Âncora escondida numa serventude de gente vivida.

Senti eu,
E tu, e todos os no céu!
Choraram as estrelas e a partida do coração teu.

Mas tu, meu amor,
Choraste o medo que te evidenciei!
Mutilando-me por dentro sem dor!
Sabes tu e, bem, eu também sei.

João Villalobos (Algés)

***

OS NOVOS AMORES

Dias de viuvez e chuva
O odor da cera e do mogno numa casa fechada
A luz morta das janelas quase cerradas e o pó dos reposteiros
O silêncio da casa e o espaço todo que fora de gatos
Na cozinha ainda entra a luz, branca como os azulejos, em alguns dias escura como os dias feios
Que Deus permita aceitação da quietude
Que nunca a revolta ou a indignação estorvem a morte da casa
Nem a naftalina dos armários, para matar as traças dos vestidos negros
O soalho corrido ainda tapado pelos pesados tapetes
Os candeeiros apagados e as paredes de encardido solene
Nem os tímidos ratos surgem furtivos
O vazio e a memória dos gatos
Viuvez austera. Morte amorosa
Fantasma vivo
Não deixo que o amor maior me permita amores novos.

João Barbosa (Lisboa)
http://infotocopiavel.blogspot.com

***

GERÚNDIO

Reivindicando farpas descontínuas
palavras que assassinam de repente
delírios que sucedem sem sentirmos
montanhas que se viram para a gente

onde as coisas que sim onde os palácios
os amanhãs que nunca mais emergem
onde os lilases da atlântida esquecida
os desejados que não são mas parecem

semelhanças eléctricas guardadas
nos violentos armários de nogueira
espaços alternativos para o nada
silêncio e folhas e sombras e poeira

onde os metros de verde onde a coragem
as tintas como laços como nós
onde os espelhos sem o outro lado
partidos requebrados como a voz

Afugentando espécies magoadas
nocturnos afogados nas barcaças
corrimãos secos curvos agarrados
vestígios de janelas onde passas

onde as canções com claves de cristal
os paraísos vulgares essenciais
onde a sirene a sereia a sensação
de ser crepuscular ou estar a mais

comboios sem família nem destino
em movimento verde-azul visível
rasgões no espaço-tempo onde termino
a busca elementar do impossível

onde o sépia nas caixas de memórias
os ossos triturados pela espera
onde os cavalos de várias cores que não
o fantástico segredo da quimera

Reinventando sonhos ao quadrado
Componentes de casas interditas
Gestos ocultos no mar do meu telhado
Mapas de estradas-ondas infinitas

Mário Domingos (Cascais)
http://www.facebook.com/pages/Mario-Domingos-Poesia-e-Prosa/144132402279544?ref=sgm


***

Finalmente, o poema que foi escolhido para ser gravado em audio pelo locutor/diseur Luís Gaspar:

SOVACO DE COBRA

o sovaco da cobra resguarda o saco dos segredos
à mistura com a mentira dos medos: guarda o que pode
e o que sobra sacode juntamente com os dedos.
é preciso dizer que a cobra engorda aos solavancos
da ira desfeita (olá cobra imprudente -
que como o ponche se ajeita) e à espreita
espoja-se no pó da terra branca. plasma-a a luz
que na acácia se espanta.

mas os segredos – meu deus quantos enredos
se burilam no canto do lobo e eu fico
pasmado como os rochedos resistem à dor
do mar. e eu fico especado perante a tarde
que se deixa cobrar. só a cobra engrena
os desvelos de ficar por aqui preso
pelos cabelos e ser a vontade guardada
na calma tempestade da achada.

salva-me o sovaco: o suor e a canseira
de ser outra ilha de outra maneira.
de ser barco ou ser vento ou ainda avião
numa viagem carpida por dentro. ou não

ou sim. ou talvez assim

Nuno Rebocho


Obrigada a todos pela participação e obrigada ao Luís Gaspar.

Entretanto estejam atentos porque... já amanhã, haverá novo passatempo!