segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Requiem de Mozart


Ouço-te, ó música, subir aguda
à convergente solidão gelada.
Ouço-te, ó música, chegar desnuda
ao vácuo centro, aonde, sustentada
e da esférica treva rodeada,
tu resplandeces e cintilas muda
como o silente gesto, a mão espalmada
por sobre a solidão que amante exsuda
e lacrimosa corre pelo espaço
além de que só luz grita o pavor.
Ouço-te lá pousada, equidistante
desse clarão cuja doçura é de aço
como do frágil mas potente amor
que em teu ouvir-te queda esvoaçante.

Ó música da morte, ó vozes tantas
e tão agudas que o estertor se cala.
Ó música da carne amargurada
de tanto ter perdido que ora esquece.
Ó música da morte, ah quantas, quantas
mortes gritaram no que em ti não fala.
Ó música da mente espedaçada
de tanto ter sonhado o que entretece,
sem cor e sem sentido, no fervor
de sublimar-se nesse além que és tu.
Ó vida feita uma detida morte.
Ó morte feita um inocente amor.
Amor que as asas sobre o corpo nu
fecha tranquilas no possuir da sorte.

(...)

Jorge de Sena

Interpretado pela Andante:

Voz: Cristina Paiva
Música: W. A. Mozart (Requiem em ré menor, KV.626; Lacrimosa. Konzertvereinigung Wiener Staatsopernchor, dir. Norbert Balatsch. Wiener Philharmoniker, dir. Karl Bohm)
Sonoplastia: Fernando Ladeira

2 comentários:

R.L. disse...

"Ó música da morte, ah quantas, quantas
mortes gritaram no que em ti não fala."
Arrepiei-me... *

Alfredo Pereira disse...

Não poderia concordar mais com Jorge de Sena quando ele escreve "Ouço-te, ó música, subir aguda/ à convergente solidão gelada" em seu Requiem de Mozart. É um pouco isso que eu sinto quando ouço música clássica, sério!! Se tem dúvidas, experimente ouvir essa rádio e ler o poema:
http://cotonete.clix.pt/ouvir/radios/tematica.aspx?id=5