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terça-feira, 28 de maio de 2013

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Muchas veces me sucede olvidar quien soy
Luís Ene
Edição bilingue (português/espanhol)
Tradução para o espanhol de Uberto Stabile
Colección PALABRA IBÉRICA
Ayuntamiento de Punta Umbría, 2006




Hoje aconteceu-me uma coisa extraordinária, acordei a sonhar, ou talvez tenha adormecido acordado, não sei, a vida é muita complicada, sobretudo quando se procura uma explicação para tudo e não se aceita o mundo tal e qual como ele é. O problema é que o mundo não se explica com facilidade (a relação causa e efeito está caduca e a teoria das catástrofes não passa de uma ferramenta) e, por outro lado, a vida, essa, limita-se a acontecer e nada mais. No meio de tudo isto não se admirem que eu avance, com cautela, entre o sonho e a realidade.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



ARDENTIA
Gonçalo Salvado
Ilustrações de Ambrósio Ferreira
Editorial Tágide, 2011








Fulgor

Oh, amar um corpo
como uma chama na água!
Um corpo não morre
se flui como lava,
se o desejo o percorre,
se feliz o devasta.
Teu corpo me queima,
tua pele me abrasa.
Quem diz que o amor se extingue
e com um beijo se apaga?
Não vês a fogueira
que de nós desponta
ébria e molhada?
Serão cinzas
estas rosas por ti ateadas?
Sobre os teus lábios, amada,
que sede de amoras,
de seiva de prata!
Que febre de ouro,
que ramagens ardidas
por labaredas suadas!
Oh, o odor do linho
em teus ombros,
o perfume das altas madrugadas!
A relva sossegada
que tuas nascentes
submergem e invadem!
Não há tréguas para quem ama,
para quem afaga
o fulgor de um corpo que arde na água.
Que furor despertas na fonte do fogo
que sinto tremer toda a minha folhagem?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



Duplo Poço
Nuno Brito
Hariemuj, 2012








Animais que brilham

Amar é perder a cara para ganhar a do outro
a de todos os outros, múltiplo: o espasmo
Na linha das zebras que se espalha até à loucura
Perde-se, entra nos teus olhos, procura um fio condutor
Feito só de energia quente, até à elegia última
Ao mais perfeito abraço, ao beijo mais puro,

Procurar é ter sede, gastar todas as línguas, entrelaçá-las
Até à loucura, ganhar uma nova e única, em tudo fluorescente
sobe pela medula a febre dos girassóis, o seu caule
Cheio de leite quente e gordo de baleia, cheio de espera condensada e marítima;
Só o amor permite ver mais longe:
cão guia cego que procura uma vontade nova
Os olhos são o espelho da alma e os amigos são o espelho de deus

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


A Viagem
Tchalé Figueira
Edição do autor, 2012








II

Nas suas naus arribaram; ilhas vulcânicas, em paleolítico
repouso, a primeira missa, com répteis e pássaros,
baptizaram-lhes com nomes que não advém de Deus,
mas sim dos homens, da sua memória...

Bíblia e espada, pólvora e grilhetas, espelhos e
missangas, gente esbelta, negros e negras, belos como a
noite...

Nocturno azeviche, reténs e chicotes, úlceras e ultrajes,
negreiros malditos, homens marcados, a ferro e fogo;
nasce o Novo Mundo: The Blues, el merengue, e
el uáuánko, quatro por oito, kumba lele, Xango,
Ogum, Yemanjá, outro lado do mar, algodão em
rama, Coton Clube negro, crioulo é o jazz, que vai
libertando-nos, para renascermos...

Com o destino, aqui ficamos!...

Dermes brancas, rosas negras, melaço nos lábios, cor
de mulato, peixe, feijão, milho e pilão, cavaquinho nos
dedos, divinas mornas, este mar imenso, que nos
rodeia, festa das águas, se Deus quiser, penedo de
Tântalo, sede secular, fonte amputada, língua
murchada, morremos e ressuscitamos, nosso
desespero, teimosamente aqui estamos...
Daqui zarparam, naus e veleiros, braços de pedra,
arpoadores de cetáceos, ondas gigantes, gentes
remotas, filhos do fogo, dez ilhas secas, sede sem
fim... Xango, Uatanka, Cristo, Schalom, sou negro,
índio, lusitano, hebreu, marinheiro das ilhas, num
norte sul, cheiro a goiaba, delicioso carpo, orgasmo
forte, fruto colonial, carrego em mim, continentes e
mundos,

querer ficar e ter de partir!

Penélope acena, com seu lenço de pedra, lágrimas
secas, dias rasgados, membros calcinados, exiladas
almas, cartas que chegam, modas e moedas, epístolas
de luto, luto e amor, matrimónios por fotos,
procirações... bodas em Lisboa, Roterdão, Bostom,
Paris... visto de entrada, carta de chamada,
convocações...

Censuradas cartas, Salazar voraz, Tarrafal farpado,
frigideira queima, pulmões rasgados, ratazanas e
rondas, camaradas delidos, carne de canhão,
chumbo de indecência, irremediável loucura, círculo
craniano, réptil milenar, nocturna demência,
navalhas loucas, baionetas frias, fresca é a carne,
heróis na peleja, mortos e medalhas, matam e morrem,
anos sem fim,
há tempo para tudo, aqui neste Mundo...

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



O Relógio Avariado de Deus
Ozias Filho
Edições Pasárgada, 2011








Chagas

Chagas emasculou quarenta e dois meninos
Chagas desmentiu o laudo pericial
que indiciava pancadas na cabeça
Chagas disse que não extirpou os órgãos sexuais
nem fez uso do sangue dos meninos
Chagas seguiu com um dos garotos
para colher o fruto do açaí
de seguida lhe retirou as roupas
e as colocou em um buraco
a cinco metros do local do crime
Chagas não escolhia vítimas
mas oportunidades para fazer o mal
Chagas, está preso
nunca mais vai arrancar
pedaço de mãe
que não pode ser reposto

terça-feira, 24 de abril de 2012

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



Uma mulher não é de ferro
Joaquim António Emídio
Edições O Mirante, 1999








XXIV

Com o pingo no nariz
disse-me palavras cortantes e amargas

depois assoou-se e com cara de infeliz
cuspiu-me para dentro um resto de palavras.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo
Nuno Dempster
Edições Sempre-em-pé, 2011








O corpo, a força, o fôlego, essa urgência
em dobrar Inês onde quer que calhe
e em penetrá-la, duro, a descobrir
os músculos secretos, o calor húmido
que nunca se conhece em pormenor
enquanto o amor investe enfurecido.
Assim Pedro cumpriu a Criação,
pese a quem faz da lenda nuvens altas
pois sexo e sono e tudo que é humano
e pode ser gozado é do universo,
livre e total, e não sei porque as figuras
da história não haviam de fazê-lo,
a não ser por receio do ridículo,
quando os corações castos se imaginam
de calças atiradas para o chão
e os saiotes de Inês tão pouco práticos.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



Do outro lado do espelho
Maria João de Carvalho Martins
Lua de Marfim, 2011








Na circunferência da terra, grande é a vinha e nela se contorcem as cepas, amparadas pela espera dos cachos.
Oiço-lhes os carpidos, dissolvidos no assobio do vento e ajeito-lhes as parras de luz e de sombra.
Generosas, pedem-me que beba do bago, a transparência do sangue que lhes adoça a grainha e eu sinto em mim, o calor do néctar que nos une em pertença.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia




"Esboços Pessoanos"

de Joaquim Evónio

Bilingue

Desenhos de José Jorge Soares








1. Extractos de solidão


Uma garrafa, um copo,

meu amigo:

Apenas o tinteiro.


De olhos mudos,

molho a minha pena

(as minhas penas,
tristezas de ocasião)

para poder trocar contigo

fragmentos de solidão!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



Sopro da voz
Paulo José Costa
Textiverso, 2011








Do outro lado da noite

Conheces o silêncio do amor
na feroz agitação

das asas?

Do outro lado da noite,
serei uma espada impiedosa
ou um cavaleiro solitário

agravando o ardor do espinho
e a tormenta amarga

da rosa.

domingo, 15 de abril de 2012

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



pequenos elogios
Joaquim António Emídio
Terra Branca Editora, 2007








15

Cada um tem o que merece

a puta na cama
o gatuno em casa
a fama na rua

e os credores à porta
a pedirem a conta

no meio de tanto infortúnio
quem é que também não merece
o sonho de um dia mudar o mundo?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



O Segundo Aceno
Rui Tinoco
Edições Sempre-em-Pé, 2011








gostei muito de te conhecer,
de não te conhecer, de
qualquer coisa, desde que
fosse contigo. o pôr do sol
acontece a um canto
da minha janela, enquanto
tento descobrir o outro nome
do branco. percebo que o dia
é algo que arde sempre
de modo diferente: o laranja
deita-se ao lado das palavras.
era inevitável. vejo-o
a morrer e também a esperança
me morre: dizes que
o meu rosto era apenas um pretexto
para o verão se rir.
eu sei demasiado bem como o outono
se debruça, friamente, sobre o tempo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Éclats de vivre

Raymond Farina
Dumerchez, 2006







II

Que faire maintenant
de tous ces graffiti
des adieux encombrants des choses
des oiseaux des hasards
désormais interdits
dans cette cruauté d'horloge

& à l'enfant seul comme une île
-à son effroi & à sa soif-
quel sésame quel schiboleth
quelle chose apaisante & douce
quel bienveillant symbole
laisser

si l'on n'a plus que l'art
de questionner l'écho
de voler au reflet
ce qu'il sait du parfait
aux maisons envolées
le secret d'habiter
& à la nostalgie
la vérité d'ici

comme un vieux ciel dément
cherchant parmi ses bleus
celui vif & vital
perdu dans son fouillis d'oiseaux
dans son trouble passé d'orages


***


II

E agora que fazer
de todos os graffiti
dos adeuses incómodos das coisas
das aves dos acasos
desde hoje proibidos
nesta crueldade de relógio

& à criança só como uma ilha
ao seu terror & à sua sede
que sésamo que schiboleth
que coisa calma & doce
que símbolo benévolo
deixar

se apenas resta a arte
de interrogar o eco
de roubar ao reflexo
o que sabe do perfeito
às casas que voaram
o segredo de habitar
& à nostalgia
a verdade daqui

como um velho céu demente
procurando entre os seus azuis
o que é vivo & vital
perdido na sua confusão de aves
no seu turvo e tempestivo passado


(Tradução de José Augusto Seabra)

domingo, 23 de outubro de 2011

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



Douze poèmes de Saudade
Fernando Cabrita
Edição bilingue (português/francês)
Tradução e prefácio de François-Luis Blanc

L'Harmattan, 2011






2. NAS ÁGUAS O MÊS DE MAIO

Florido vai nas águas o mês de maio
Fogo vago e terra onde já a lua
Branca expende um branco raio
confundido na minha língua a tua

Junho pode ser o que outrora fora?
Éramos então só um, apesar de dois...
A ténue luz os nossos corpos doura;
Somos a luz das sombras de depois.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



Palinopsia
Pedro S. Martins
Edições 50Kg, Setembro 2011






Visitam-me as netas.
Trazem
os olhos em vida
a ferver
e humildemente
pergunto-lhes quem são

aqueles rapazes
bonitos.

Desaparecem
repousando-me
a certeza
escancarada
do abismo.

domingo, 16 de outubro de 2011

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



As Junções

Hugo Milhanas Machado
Artefacto, 2010






O amor é português

Depois bate fundo o mar
ali onde as pedras encostam
e há anos sobravam as pedras
pedras redondas ao sol

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia



Marias Pardas
António Ferra
&etc, 2011






3.

Abre os braços, Marlene, deixa-me ver o interior da tua boca, que a cidade está tolhida
por dentro, encharcada de mensagens enganosas, de notícias à venda nos classificados, ésse éme ésses e a puta que os pariu, e só tu és a verdade, ó santa, presa no quarto de um hotel, à mercê de um mini-bar com ginger ale e água tónica,
ah, Marlene, se te pudesse contar tudo!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Poèmes au secret
Bruno Doucey
Prefácio de René Depestre
Le nouvel Athanor, Paris, 2008






Chemins du vent
Carnets nomads

Dans l’attente
de l’éblouissante splendeur minérale
face aux rivages de la nuit
je pense à vous
et me rejoins

Calligraphie du vent
sur la page des dunes

Je ne connais de l’autre
que l’étendue du soir
et le peu de sa nuit
mais l’autre me regarde et me parle
à travers une forêt de gestes et de larmes
que le vent de l aplaine assèche

Dans l’échancrure des lointains
avant le sable
si proche enfin de la lumière

Traces de l’autre
trace des larmes
dans la poussière des lendemains

Calligraphie des dunes
Sur la page du vent

Que
Le serpente
Des mots
S’enroule
Dans le sable
Et s’y dévore

***

Caminhos do vento
Cadernos nómadas

Na espera
do ofuscante esplendor mineral
diante das margens da noite
eu penso em vós
e junto-me convosco


Caligrafia do vento
Sobre a página das dunas

Eu não conheço outra coisa
que a extensão da tarde
e o pouco da sua noite
mas o outro olha-me e fala-me
através de uma floresta de gestos e de lágrimas
que o vento da planície seca

Na baía do longínquo
antes da areia
tão próximo enfim da luz

Vestígios do outro
Vestígio das lágrimas
Na poeira dos amanhãs

Caligrafia das dunas
Sobre a página do vento

Que
A serpente
Das palavras
Se enrole
Na areia
E aí se devore

(Tradução de Maria João Cantinho)

domingo, 25 de setembro de 2011

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Bio grafia
António Ferra
Europress, 2010







6.

Em certos sábados, atirava a bola contra a parede e esperava o ricochete para lhe acertar de novo com o pé esquerdo. Mas ao fim de três ou quatro toques, desistia desse jogo repetido.
Preferia interrogar as aves, soltar o cão do cadeado e correr com ele para aprisionar o arvoredo, nas mãos pequenas onde guardava o segredo de um ninho violado.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


As Raízes Diferentes
Fernando Guimarães
Relógio d'Água, 2011 








JARDIM DO MUSEU PEGGY GUGGENHEIM EM VENEZA

Refiro-me à tranquilidade que existe nos jardins. Sem pressa,
principiamos agora a caminhar pelos passeios que separam
os tufos das plantas, os arbustos. Podíamos dizer que eles se tornaram
semelhantes ao tempo, à água que corre perto. Sentíamos
mais o seu movimento que o nosso, porque estamos cansados,
e, próximos de um portão de ferro, tínhamos ao entrar recebido
o seu peso. Depois seguimos pelos corredores, atravessamos
as salas. As paredes eram como fendas, delicadamente cercadas
por molduras. Dentro delas cabiam as imagens
que passavam a ser como os nossos olhos. Era assim que a luz
vinha ter connosco só para ensinar-nos que a sua origem
estava lá fora, misturada com as flores entreabertas, as folhas
caídas, os arbustos que foram tocados levemente pelo vento
ou o que podia ser ali uma recordação: os cães. Eles tinham percorrido
outrora as mesmas salas, as escadarias, os caminhos com saibro,
as lajes. Era aí que esperavam pacientemente que a sua dona
os viesse alagar. Agora já não existem. Mas à volta há-de sentir-se ainda
os odores que eles conheciam, a maneira como o espaço se tornou
mais vazio. Estão nos canteiros espalhadas as suas cinzas.