segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Na estante de culto




João Lúcio
Poesias Completas

Edição organizada e prefaciada por António Cândido Franco
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002
Biblioteca de Autores Portugueses


João Lúcio (1880-1918) publicou em vida três livros de poesia “Descendo” (1901), “O Meu Algarve” (1905) e “Na Asa do Sonho” (1913), livros estes que nunca foram reeditados.
Colaborou na segunda série da revista “A Águia” (1913) onde germinou a poesia saudosista entre 1912 e 1915. A poesia de João Lúcio tornou-se também, a par da de Pascoaes, um expoente da poesia saudosista.
Nesta edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, é reunida toda a poesia de João Lúcio, o que constitui uma excelente oportunidade para descobrirmos a sua obra quase desconhecida.
João Lúcio foi o poeta que Teixeira de Pascoaes, no fim da vida, escolheu como o seu único contemporâneo. E neste livro reproduz-se uma conferência de Pascoaes sobre João Lúcio publicada integralmente pela primeira vez na revista “Brotéria” em Dezembro de 1973 (já antes tinha sido publicado um excerto na revista “Vértice” em 1953). O texto foi depois publicado na íntegra nas Obras de Teixeira de Pascoaes - vol. 7 A Saudade e o Saudosismo pela Assírio & Alvim.
Esta edição contém os poemas dos livros “Descendo” (1901), “O Meu Algarve” (1905), “Na Asa do Sonho” (1913), “Espalhando Fantasmas” (1921) (póstumo) e ainda poemas inéditos, cartas e artigos publicados na imprensa. No final, uma marginália crítica com textos de autores portugueses sobre este poeta algarvio.


Tarde de leite e rosas, ouvindo a floresta

Tarde de leite e rosas. Cada aresta,
Tinha um rubi tremente:
Fomos ouvir o canto da floresta,
O seu canto de amor, ao sol poente.

Tu querias sorver os poderosos
Lamentos de saudade e comoção
Que, as raízes, dos fundos tenebrosos,
Mandavam, pelo ramo, pra o clarão.

Opalescera já, o ar. O vento,
Correndo atrás da sombra, murmurou...
Sentiu-se um fechar de asas. Num momento,
A floresta, cantou.

Em cada ramo, um violino havia:
Cada folha vibrava, ágil, sonora,
Par'cendo que escondia uma harmonia,
Nas sombras das ramagens, a Aurora.

Como a floresta, meu amor, eu tento,
Atirar o meu canto pra a altura:
Para a fazer cantar, toca-lhe o vento,
Pra me fazer cantar, no pensamento,
Passa o sopro da tua formosura.

João Lúcio


"E eis o verdadeiro Algarve! O Algarve, depois da Escola de Sagres, é o poema de João Lúcio."
Teixeira de Pascoaes

Província onde nasci, amada do luar
E o sol ruidoso, ardente, imorredoiro…
Lírio fresco e azul deitado à beira-mar,
Com o cálix gentil a orvalhar-se em oiro…

Nesse canto imortal de todo o Universo,
De florestas, de sóis, mares e cordilheiras,
Tu és, unicamente, um perfumado verso,
Feito em luar dormente, azul e laranjeiras.

Lindo verso, porém, dessa lira suprema,
Com hinos triunfais, auroreais, fecundos,
Que abrange a Vida toda e faz o seu poema,
Rimando montes, céus, oceanos e mundos.

Tens o rir jovial e a bonomia calma,
O dulcíssimo aspecto ingénuo das crianças;
O sol doira-te o corpo; a fantasia a alma;
Fala-te o céu de amor; fala-te o mar d'esp'ranças.

Que este livro te diga, oh terra aventureira,
Como o meu coração a voz te sabe ouvir:
Ele é singelamente uma canção ligeira,
Que tu lhe tens cantado e tenta repetir.

Quando os astros de noite, errantes e dispersos,
Vierem mergulhar nas águas do teu mar,
Vai ler-lhes mansamente estes humildes versos
Pra que digam a Deus como te sei amar.

João Lúcio
O Meu Algarve (1905)

2 comentários:

Vieira Calado disse...

Pouco conheço deste meu conterrâneo algarvio. Ainda bem que alguém o dá a conhcer.

Anónimo disse...

Já conhecia e recomendo.

leonorgomes.blogspot.com