domingo, 26 de julho de 2009

Na estante de culto

Acaba de sair o livro de poesia de Rui Almeida, Lábio Cortado, editado pela LivrodoDia, obra que ganhou (por unanimidade) o Prémio Manuel Alegre 2008.

Acerca deste livro de Rui Almeida, escreveu Paulo Sucena:

A qualidade da língua literária do autor e a sua pertinente e despojada reflexão sobre o tempo presente e a(s) circunstância(s) em que o sujeito poético expressa a sua voz, evocadas com amarga e estreme lucidez, quer dizer que falo de uma razão não contaminada por excesso de sentimento, foram factores fundamentais para o júri sustentar a sua decisão.

Estamos perante uma poética que estabelece uma subtil conjugação entre a palavra e o mundo, assumida numa apresentação do poema como produto da linguagem. Rui Miguel Leal de Almeida oferece-nos uma poesia em que, como Paul Valéry escreveu, “o poeta consagra-se e consome-se a definir e a construir uma linguagem na linguagem”. E ao fazê-lo com evidente qualidade reflexiva e uma sólida austeridade formal, a poesia de Leal de Almeida ganhou uma inegável e singular identidade entre mais de uma centena de concorrentes ao prémio Manuel Alegre. Diria mesmo que o poeta de LÁBIO CORTADO se abeira da poesia como sendo ela um modo “de descoberta, de criação e de alargamento do conhecimento” (Nelson Goodman).

O contexto histórico-social europeu em que vivemos, a que alguém há uns anos atrás chamou a “era do vazio”, tem traços mais preocupantes, porventura definidores de uma crise civilizacional, do que aqueles com que Roman Rolland caracterizou, um ano antes da grande depressão de 1929, o nosso continente: “A velha Europa está entorpecida numa atmosfera pesada, viciada (…). O mundo morre de asfixia, num egoísmo prudente e vil”.

O título do livro de Rui Miguel Leal de Almeida é por si só uma terrível marca do tempo presente – Lábio Cortado permite-nos, num livre jogo de sinédoques e metonímias, falar de uma voz cortada, de um ser imperfeito, de uma vida que sangra. O próprio poeta nos diz que “é o lábio cortado que molha o ventre”.

LÁBIO CORTADO fala-nos de um tempo devastado, repassado de inacção e abulia, em que o poeta se mostra “de pernas dormentes por não caminharem” e batido pela aridez dos afectos: “o peito está vazio e abandonei-o”, num mundo onde os seres “perderam a consciência do riso”. Convocando os sujeitos da enunciação de alguns poemas de LÁBIO CORTADO, eles constroem sob os nossos olhos um edifício poético caracterizado por espaços disfóricos e tempos disfóricos, onde se vive sob uma acre disforia de sentimentos: “é no meio da podridão que reproduzimos a tristeza”.

Perscrutamos um universo poético que por si mesmo gera um forte sentimento de incerteza, uma palavra-chave do discurso neoliberal, que o poeta traduz assim: “Não sei do sentido de ir ou se vamos chegar”. Por isso ele se resguarda até ao limite de ninguém o conhecer, porque se vela “para cá do visível”. Eis-nos perante um poeta reduzido à substância do seu nome, talvez só possível de ler nas letras do poema. Porém, o poeta sabe que “triste é permanecer”, existir somente “depois de ler a sombra”. Assim, podemos dizer que triste é o lugar onde a luz se não dá a ler. Mas, mesmo na adversidade, é imperioso caminhar sem esperas nem medos, mesmo não sabendo aonde ir num mundo precário onde a plenitude se desvanece, corroída no centro por inúmeras falhas ou cortes, se preferirem. O poeta sabe, portanto, que a vida é uma viagem atravessada pela secura e, por isso, às vezes, é necessário parar para se ouvir o passado, em silêncio, porque o poeta não entende o que lhe diz o lugar onde parou. Porém, dentro de si, sabe a sua história e ouve-a “enquanto recebe a chuva do final de verão”, com a certeza de que a vida é uma viagem para a morte e de que o tempo é o grande estatuário da morte ao começar por “modelar-lhe a velhice no rosto”, No rosto de um poeta que sabe que o sonho do homem vive entranhado nas unhas com que, sem esperança, escava a terra enquanto na estrada do tempo apenas fica a rasura das letras de uma escrita que não deixa vestígios, porque foi produzida com tinta simpática. Há, na verdade, neste livro, para além de uma superlativação da dor, plasmada em oxímoros como “o afecto da dor”, uma vertigem alucinante, impulsionada pelo movimento do poema para o nada, que tange “o voo mortal do poema” de que falava a grande poetisa soviética Anna Akhmátova.
No entanto, também deste livro se levanta um ser que voa mas não é pássaro nem anjo, tão-só sombra visível que se ausenta, ateando subitamente uma luz no seu olhar. Ouçamos o poeta:

Quando se projecta no vidro a sombra
de um ser que voa e voando surge
nunca pássaro, nunca anjo, sempre sombra
que se ausenta sendo visível e certo

então de luz o olho de repente arde


alimentado, quem sabe, por algumas pequenas coisas naturais e pelo calor de estar vivo, que no livro nos surgem nestes dois versos:

uma flor silvestre, um arbusto, uma avenida
dois pedaços de lenha atirados ao fogo.


Então diria que o poeta de LÁBIO CORTADO não assume a ácida pergunta e a implícita resposta formulada por Nuno Guimarães, um talento poético precocemente desaparecido e um virtuoso guitarrista de Coimbra, no seu livro “Os Campos Visuais”: “Constrói, em coerência, uma paisagem acre e sem verdura?”

Rui Miguel Leal de Almeida não chega a uma tão grande desolação, porque descobre no pouco que resta, neste tempo avaro, sinais que se traduzem, positivamente, num movimento da “secura” para a “frescura”, para usar substantivos seus.

Do mesmo modo, assumo uma leitura outra da herança de Rimbaud na poesia de Rui Miguel Leal de Almeida que não a do amargo cepticismo traduzido no último poema do livro, numa alusão ao poeta de “Iluminações” que gastou o seu fulgurante génio dos 17 aos 19 anos e, depois de revolucionar a poesia europeia, partiu para a Abissínia onde, entre outras coisas, teria traficado armas, abandonando definitivamente a poesia.

Uma herança de Rimbaud

Qualquer poeta
se pode transformar
em traficante de armas


Mas antes disso ter acontecido, Jean-Arthur Rimbaud escreveu: “uma noite sentei a Beleza nos meus joelhos – E vi que era amarga”. Esta parece-me ser uma fonte muito mais genuína da herança que Rimbaud transmitiu a Rui Miguel Leal de Almeida. Senhor dela e das suas implicações, o autor de LÁBIO CORTADO produziu uma poesia de razão e de paixão ou, talvez melhor, de razão apaixonada.


Deixo-vos um poema do livro:

O brilho da névoa
uma febre luminosa arrastada adiante
todos os pés de quem passa sem ruído
sempre longe o mínimo tremor
e o vento, uma toalha solta agitada
há os que dizem coisas por não as saberem
e os que olham passam suspensos
os dias são sinais, são tardes inteiras
corrosão que pode ser dita
actualizada a cada momento
tentativas sem sucesso para avançar
a destreza dos barcos nos dias de chuva
ou a lentidão observada à distância.

Rui Almeida


Vinte linhas de José do Carmo Francisco sobre este livro aqui.

2 comentários:

Luís F. Nunes disse...

Um abraço ao Rui

rui disse...

Um abraço, Luís.