sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos, beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz e são de noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade


Na voz de Luís Gaspar:

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade


Na voz de Luís Gaspar:

Novidades da Caminho




A Editorial Caminho vai reeditar este mês de Janeiro “Poesia” de Sophia de Mello Breyner Andresen. Esta reedição integra-se num novo plano de publicação da Caminho, da Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Para além da fixação definitiva do texto, a cargo de Luis Manuel Gaspar, regressa-se à edição autónoma de cada um dos livros de poemas da autora, de acordo com critérios definidos em Nota incluída no final de cada volume.

"Poesia", primeiro livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, teve três publicações autónomas (1.ª ed., Coimbra, Edição da Autora, 1944; 2.ª ed., com variantes, Lisboa, Edições Ática, 1959; 3.ª ed., com o título Poesia I, Lisboa, Edições Ática, 1975). Foi incluído, com novas variantes, em Obra Poética I, Lisboa, Editorial Caminho, 1990.
A presente edição definitiva respeita as emendas da autora a esta última versão e inclui um poema (Atlântico) que nela não figurava, tendo sido publicado pela primeira vez em Mar, Lisboa, Editorial Caminho, 2001.

Índice de conteúdos:

I
Apesar das ruínas e da morte,
Noite Luar Atlântico Mar Meio-Dia O Jardim e a Noite Evohé Bakkhos Apolo Musageta
Espero sempre por ti o dia inteiro,
Às vezes julgo ver nos meus olhos
Noite das coisas, terror e medo
Cidade
Noites sem nome, do tempo desligadas,
Cidade suja, restos de vozes e ruídos,
Ir beber-te num navio de altos mastros
Casa Branca

II
Pudesse eu não ter laços nem limites
Primavera
Tudo me é uma dansa em que procuro
Se tanto me dói que as coisas passem
Mais do que tudo, odeio
Senhor Noite de Abril
Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Aquelas que exaltadas e secretas
Paisagem Como Uma Flor Vermelha O Jardim e a Casa Jardim Perdido Jardim No Alto Mar Fundo do Mar
Nunca mais
Níobe Transformada em Fonte
Céu, terra, eternidade das paisagens,

III
Lutaram corpo a corpo com o frio
Em Todos os Jardins
Se todo o ser ao vento abandonamos
As Fontes A Hora da Partida
Que poderei de mim mais arrancar
Ó noite, flor acesa, quem te colhe?
Há cidades acesas na distância,
Sinto os mortos no frio das violetas
Quando brilhou a aurora, dissolveram-se
Senti que estava às portas do meu reino,
Homens à Beira-Mar Sinal de Ti O Vidente
Que o Teu gládio me fira mortalmente.
No ponto onde o silêncio e a solidão

Nota

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Pessoa, O Grande Português





O programa da RTP
"Os Grandes Portugueses" chegou a uma etapa em que foram definidos os 10 finalistas. Entre eles figura Fernando Pessoa. A partir daqui (e até Março) o público vai votar em quem acha que foi o Grande Português.
Independentemente da qualidade informativa ou cultural deste programa da RTP (e de, inacreditavelmente, Salazar também figurar na lista dos dez mais votados), votemos no Poeta.

“O Guardador de Rebanhos” em CD






Vai ser apresentado amanhã, 19 de Janeiro, às 21h30, na Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner, em Loulé, o III Vol. da Colecção Selecta "O Guardador de Rebanhos" de Alberto Caeiro em CD Multimédia, organizado e apresentado por Afonso Dias.
Uma iniciativa da responsabilidade da Música XXI - Associação Cultural.

Camilo Pessanha na Bulhosa de Entrecampos










A Bulhosa de Entrecampo dedica este mês de Janeiro a Camilo Pessanha na sua programação cultural.
Assim, podemos assistir hoje, 18 de Janeiro, pelas 18.30h a mais umas "Conversas na Bulhosa" sobre Camilo Pessanha, moderadas por António Osório e António Carlos Cortez.
No próximo dia 30 de Janeiro terá lugar o evento "Palavras na Bulhosa", pelo Teatro Maizum, com direcção de Silvina Pereira, onde será apresentada a "Clepsidra" de Camilo Pessanha.

Livraria Bulhosa, Campo Grande, 10-B (Metro: Entre Campos)
Telf.: 217 994 194

Encerramento da Livraria da Praça




É com tristeza que vos dou a notícia de que a Livraria da Praça (em Viseu) vai encerrar.
Uma livraria que, com dois anos de história, realizou tantos eventos (perto de 150)! Exposições, tertúlias sobre os mais diversos temas, concertos, conversas (com muitos e bons convidados), workshops, cursos de vinho, lançamentos de livros, feiras de comércio justo, etc., mais de um por semana. Essa frequência de eventos acabou por destacar a livraria num artigo da Visão:










Até ao encerramento definitivo (no próximo mês de Março) o horário manter-se-á, bem como as actividades já agendadas.
E a partir de hoje a Livraria da Praça fará promoções de livros, CDs e filmes.
Enfim... menos um espaço cultural no país...
Um abraço solidário aos responsáveis e funcionários da Livraria da Praça. E um obrigada em nome da cultura.
Espero que um dia destes possam reabrir.

O blogue da Livraria da Praça fica aqui.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Hoje nasceu...






15 de Janeiro de 1850

Mihai Eminescu

Poeta romeno







Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: O amanhã aumenta os dias

Mihai Eminescu

Mihai Eminescu nasceu em Botosani, no norte da Moldávia, em 1850.
Sexto de dez filhos, passou a infância na aldeia de Ipotesti, onde o seu pai era fazendeiro. O pai fê-lo ingressar num grande colégio, de onde fugiu várias vezes.
Publicou as suas primeiras poesias com 16 anos, conquistando logo notoriedade entre os escritores romenos. Depois, foram os anos de vagabundagem pelo país que lhe deram um profundo conhecimento da língua e do espírito popular romeno. Ouviu assim centenas de histórias, lendas e baladas, e tomou nota de tudo, coleccionando com fervor velhos manuscritos, locuções antigas, palavras raras. Viveu sempre modestamente, contentando-se com muito pouco, e guardando religiosamente uma caixa de livros, sua única fortuna que nunca abandonou. Frequentou vários cursos nas Universidades de Viena (entre 1869 e 1872) e de Berlim (entre 1872 e 1874), sem o menor empenho em fazer exames ou conseguir diplomas. Interessava-se por tudo: egiptologia, direito romano, ciências financeiras, anatomia, filologia comparativa, ocultismo... mas a sua paixão seria sempre a filosofia. Em Bucareste, foi de tal maneira admirado por alguns escritores e críticos, que pensaram em oferecer-lhe uma cadeira na Universidade, mas Eminescu não se mostrou interessado.
Grande perfeccionista, trabalhou os seus poemas durante anos e anos, sempre insatisfeito com a forma. Voltou para a Roménia, trabalhando como bibliotecário, depois inspector do ensino primário e, por fim, a troco de um magro salário, aceitou redigir um jornal político de Bucareste, o "Timpul". Porém, esgotou-se num trabalho devorador, escrevendo sozinho os artigos de fundo, as crónicas e os comentários políticos, traduzindo os telegramas das agências e ainda revendo, pelas noites fora, as provas inteiras do jornal.
Foi célebre, estimado e admirado. Teve ilustres protectores, mas a sua timidez e o seu orgulho impediram-no de viver uma vida humana. A partir de 1883, de hospital em hospital, com alternativas de lucidez e de desvario, Eminescu deixou que as suas forças o abandonassem e faleceu em 1889, com 39 anos.
O escritor Alexandru Vlahuta descreve uma visita que lhe fez numa casa de saúde: "Com uma alegria de criador, tirou da algibeira um bocado de papel amarrotado e pôs-se a ler uma longa série de estrofes de uma sonoridade e de um efeito rítmico maravilhosos. Mas no bocado de papel só havia três palavras. Eminescu improvisara!..."
Durante a sua doença, os amigos mandaram imprimir o seu primeiro (e último) volume de "Poesias". O êxito foi enorme. Eminescu tornara-se o poeta nacional da Roménia...

O amanhã aumenta os dias

O amanhã aumenta os dias,
O ontem diminui a vida
Perante nós temos, contudo,
O dia de hoje, para sempre.

Se morre um ser, logo vem outro
Para segui-lo neste mundo,
Tal como o sol, quando se põe,
Ressurge logo em qualquer parte.

Dir-se-ia que outras ondas passam
Descendo sempre o mesmo rio;
Dir-se-ia que é um outro outono
Mas caem sempre as mesmas folhas.

A nossa noite é precedida
Pela suave madrugada;
A própria morte é ilusão,
Um mealheiro de existências:

De cada efémero momento
Eu depreendo que este axioma
Sustenta toda a eternidade
E faz girar o mundo inteiro.

Pode voar, portanto, este ano
E no passado mergulhar,
Pois conservamos o tesouro
Que desde sempre temos n'alma.

O amanhã aumenta os dias,
O ontem diminui a vida
Contudo, temos ante nós
O dia de hoje, para sempre.

As cintilantes aparências,
Que velozmente se sucedem,
Repousam sob a irradiação
Do sempiterno pensamento.

Mihai Eminescu


(Versão de Carlos Queiroz, sobre tradução de Victor Buescu e Rogério Claro)

Minerva procura novos autores







A Editorial Minerva procura novos autores para a próxima antologia “Poiesis” (volume XV).
Os trabalhos (poesia ou prosa poética) deverão ser entregues até ao dia 30 de Março de 2007.
Mais informações (e o regulamento) no site da Minerva, aqui.

domingo, 14 de janeiro de 2007

Poemas em voz alta

Estou cansado, é claro.
Porque, a certa altura, a gente tem de estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa

24/6/1935

Álvaro de Campos

Na voz de Luís Gaspar:

Pessoa cantado

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada.
Uns por verem rir os outros
E outros sem ser por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
De Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão

Fernando Pessoa

Na voz de Zeca Afonso:

sábado, 13 de janeiro de 2007

Homenagem de Luís Graça ao pai do seu amigo Paulo Cunha Porto

O que te posso dizer, Paulo?

Estou no piso inferior do Monumental. À minha frente tenho duas Super Bock Abadia. Não havia Super Bock Stout. Talvez tenha ficado com a cerveja preta associada à memória de um grande amigo: Fernando Alves Serra. O Fernando adorava Guiness e a Comunidade de Leitores da Culturgest saiu do velório do Fernando para beber uma Guiness num bar irlandês do Cais do Sodré.
Eu a conter as lágrimas, a beber a Guiness e a Marisa a dizer:
— Deixa cair, Luís, deixa cair....
Deixei cair.
E agora choro.
À minha frente, na mesa, tenho um exemplar do PÚBLICO, com quatro versos rabiscados nas margens, pelo medo de os perder até chegar ao Monumental e comprar um bloco Firmo A5 para as escrever.

Porque estes são os versos que tenho para deixar ao pai de um grande amigo meu: Paulo Cunha Porto.
E choro, sem vergonha, de cabeça apoiada no braço, em público, por quem não cheguei a conhecer. Não imagino os traços do rosto, a estatura, não sei nada, para além daquilo que o Paulo escreveu e sofreu nos últimos dias no seu blogue Misantropo Enjaulado.

Não sei nada. Mas choro por ele. Com orgulho.

Normalmente, as lágrimas não me correm fáceis. Ficam aprisionadas num Château D’If sem Abade Garcia ou Conde de Monte Cristo. Mas com os sonos todos trocados não consigo esconder o que me vai na alma.
Nem quero.

São lágrimas bem gastas.

Estava no Metro em S. Sebastião. Tocou o telemóvel. Saí.
Vinha feliz da FNAC do Chiado, com os livros para a Comunidade de Leitores da Culturgest.
Com o corpo na ressaca da hidroginástica e a concentração afectada pelas últimas noites brancas.

E veio a voz do Paulo. Simplesmente a voz que eu esperava ouvir, mas com as notícias que eu não queria ouvir. Uma voz cheia de dignidade perante a morte do seu pai.

Agora acalmo. Já escrevi o poema que tinha prometido ao Paulo à saída do Metropolitano, para o pai dele. Já o li à Inês, que o vai publicar no blogue dela.
E solucei a ler o poema e tive muitas dificuldades em chegar ao final. As palavras cortaram-se-me. Ninguém no Monumental pareceu aperceber-se de que as lágrimas me escorriam pela face e que a voz vacilava.

A morte é tão estranha aos que estão vivos.

Peço mais uma Abadia. Chega a Inês, em meu socorro, com a Alexandra e a pequena princesa Catarina, filha da Inês. É quase meia-noite.


E DO ESTORIL SOPROU A BRISA FÚNEBRE

Mais um pássaro
a voar
direito ao Céu

Mais um voo
que foi
e já não é

Mais um Porto
que fica
órfão de um cais

Mais um abismo
a queimar
como braseiro

Mais um amigo
a pensar
se vale a pena


Mais uma alma
atracada
no deserto

Assim ficamos
prostrados, ofendidos
incrédulos, tementes

Como quem não sabe
ou finge não saber
a meta à vista

E do Estoril
soprou
a brisa fúnebre

E depois da brisa fúnebre
virá o vento
e depois do vento

Ainda mais vento
sempre mais vento
até ao fim do vento

E a brisa fúnebre
tão fúnebre de fúnebre
que só fúnebre sabe ser

Dissolve-se no Guincho
em gritos de gaivota
e desfaz-se nas ondas

À procura da lágrima certa
para saudar a partida
de quem nos gerou

A dor fica
mas a Paz
há-de chegar

Luís Graça, 12/1/2006, 22h45m, R.I.P. em memória do pai do Paulo.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

t


Realiza-se amanhã, 13 de Janeiro, das 15h30 às 18h30, mais uma Tertúlia Poética organizada pela Associação Portuguesa de Poetas no Restaurante “Vá Vá” (Av. Estados Unidos da América, 100 C - Lisboa).

Livros em saldo na Ler Devagar





A livraria "Ler Devagar", que durante seis anos foi um dos mais conceituados espaços de animação cultural do Bairro Alto, em Lisboa, vai reabrir brevemente.
Entretanto, até 20 de Janeiro de 2007, a "Ler Devagar" vai saldar o seu stock nas instalações da ZDB (Galeria Zé dos Bois), situada também no Bairro Alto.
De quarta a sábado, das 18 às 24 horas.
São mais de dez mil livros, a preços que variam entre os 50 cêntimos e os dez euros, mas há também discos e outros artigos.
A "Ler Devagar" - uma das raras livrarias de Lisboa abertas até de madrugada - fechou em 2005, quando os proprietários do edifício onde estava instalada decidiram fazer obras e transformá-lo num condomínio.
Durante seis anos, a livraria acolheu centenas de debates, lançamentos de livros, encontros com artistas, recitais de poesia, sessões de música e exposições.
A nova "Ler Devagar" irá funcionar também no Bairro Alto, num edifício da Rua da Rosa.

Mais informações, aqui.

Biblioteca do Cadaval expõe último poeta amador

O ciclo de exposições de poesia amadora que decorre desde o dia 2 de Outubro, na Biblioteca Municipal do Cadaval, apresenta, até 19 de Janeiro, o último poeta amador a expôr o seu trabalho: Alda Silvestre, oriunda de Vale Côvo (Bombarral).
Recorde-se que esta iniciativa culminará com a publicação, pela CMC, de uma antologia de poesia com textos de todos os participantes no referido ciclo.

Um total de oito autores amadores de poesia, na sua maioria oriundos do concelho cadavalense, tiveram a oportunidade de mostrar e, posteriormente, editar uma selecção dos seus escritos.

Os trabalhos podem ser visitados, na biblioteca do Cadaval, de segunda a sexta-feira, entre as 8.30 e as 18 horas.
No final do ciclo de poesia, serão escolhidos os melhores poemas de cada autor, para uma antologia de poesia amadora, a editar pela Câmara Municipal do Cadaval.


Para mais informações, aqui ficam os contactos da Biblioteca Municipal do Cadaval:
Av. dos Bombeiros, 2550-103 Cadaval;
Tel.: 262 696 155,
E-mail: biblioteca@cm-cadaval.pt;
Blog:www.bibliotecamcadaval.blogspot.com

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Poemas em voz alta

Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a-horas próprio, hoje morto.

Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena, etc.

Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.

Álvaro de Campos


Na voz de Luís Gaspar:

Al Berto na Casa Fernando Pessoa


As Quasi Edições e a Casa Fernando Pessoa convidam-nos para o lançamento dos livros "Eis-me Acordado Muito Tempo Depois de Mim" (uma biografia de Al Berto) de Golgona Anghel, e, "O Último Coração do Sonho" de Al Berto, que se realizará no próximo dia 11 de Janeiro, às 18:30, com apresentação de Fernando Pinto do Amaral.


Conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
Víamos — pelo lado menos sombrio do pensamento — todo o sistema
planetário.
Víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos
dedos. O latejar do tempo na humidade dos lábios.
E a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos.
As estrelas mortas das cidades imaginadas.
Os ossos [tristes] das palavras.

A noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça
transparente.
Em redor dele chove.
Podemos adivinhar uma chuva espessa, negra, plúmbea.

Depois, o homem abre a mão, uma laranja surge, esvoaça.
As cidades (como em todos os livros que li) ardem. Incêndios que
destroem o último coração do sonho.
(...)


Al Berto

Hoje nasceu...





8 de Janeiro de 1863

Paul Scheerbart

Poeta alemão





Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: Sons nocturnos

Paul Scheerbart

Paul Scheerbart (pseudónimo de Bruno Küfer), um dos vultos do expressionismo alemão, nasceu em 1863 em Danzig.
A partir de 1887 estabeleceu-se em Berlim, como escritor.
Em 1889 fundou a editora Phantasten, onde publicou os seus primeiros trabalhos.
Escreveu fantásticos contos e romances.
Em 1909, o jovem editor Ernst Rowohlt publicou a primeira colectânea poética de Sheerbart, "Katerpoesie".
Scheerbart esteve ligado a Herwarth Walden e à revista "Der Sturm".
Morreu em 1915, com 52 anos.
Foi um percursor da nova poesia da época, que acompanhou sempre.

Sons nocturnos

Pela velha porta
Rangendo que é um gosto,
Entra o carvoeiro
Com muitas canecas pretas
Tão tristes como cartas pretas.
Hm – que quererá o carvoeiro?
Virá ele oferecer
As últimas gotas aos velhos beberrões?
O carvoeiro tem pernitas curtas;
O seu corpo é uma grande pedrinha quadrada.
E sobre a pedrinha assenta uma cabeça de cera –
Que naturalmente se desfaz toda,
Porque o fogão está quente.
E as canecas pretas caem
Das mãos pretas e velhas
Deste velho carvoeiro
Sobre o soalho branco e mudo.
E o vinho molha as tábuas.
Os velhos beberrões acham muita graça.
As pernitas do carvoeiro
Partem-se ao meio.
E o fogão
Continua encostado à parede – como sempre.

Paul Scheerbart
(1909)
(tradução de João Barrento)

Um livro

Apenas uma coisa entre outras coisas
Mas também uma arma. Foi forjada
Na Inglaterra, em 1604,
E carregada com um sonho. Encerra
O som, a fúria, a noite e o escarlate.
A minha mão sopesa-a. Quem diria
Que contém o inferno: essas barbudas
Bruxas que são as parcas, os punhais
Que executam as duras leis da sombra,
O delicado ar desse castelo
Que te verá morrer, a delicada
Mão que é capaz de ensanguentar os mares,
O clamor e a espada da batalha.

Esse tumulto silencioso dorme
No espaço de um só livro, na tranquila
Prateleira da estante. Dorme e espera.

Jorge Luis Borges



Interpretado pela Andante:


Voz: Cristina Paiva; Música: Clint Mansell; Sonoplastia - Fernando Ladeira.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007





Já saiu mais uma antologia da Associação Portuguesa de Poetas, com a coordenação de Carlos Teles Gomes.
Este número (XIII Volume) tem poemas de 53 autores.
Agradeço à A.P.P. a gentileza de me ter enviado um exemplar, do qual escolhi um poema que aqui vos deixo.


Olhos secos de dor

Pequenas coisas, banais
mágoas de orgulho ferido
traição de alguém conhecido
(um amigo nunca trai)
ódios de gente vulgar
fazem meus olhos chorar.

Se não estivessem toldados
por lágrimas sem razão
de auto-comiseração
e para o outro voltados
vendo olhos secos de dor
inundados de pavor

meus olhos feitos nascentes
de caudais desesperados
no mar da dor mergulhados
sentindo o medo pungente
de quem sofre nesta terra
perseguição, fome, guerra

secos de dor ficariam
e nunca mais chorariam.

Maria Ivone Vairinho


A Associação Portuguesa de Poetas existe como associação cultural desde 1985 e tem por objectivo difundir a Poesia em língua portuguesa, proporcionar o convívio, o diálogo e a interajuda entre os seus associados e informá-los de toda a actividade poética existente.
A Associação realiza dois Encontros Poéticos mensais: um no Palácio Galveias (com uma palestra sobre o Poeta do Mês) e outro no Restaurante Vá-Vá (dedicado à poesia dos associados). Realiza também palestras culturais na Livraria-Galeria Verney, em Oeiras, edita um Boletim trimestral gratuito e uma Antologia Poética anual com poemas dos associados, organiza Jogos Florais e tem um Grupo de Jograis que, gratuitamente, actua em diversos eventos. Realiza, ainda, anualmente, uma homenagem a Luís de Camões no Mosteiro dos Jerónimos no dia 10 de Junho.
A Associação tem associados em Espanha, Luxemburgo, Alemanha, Angola, Brasil, EUA e Canadá.
Mais informações, aqui.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Na estante de culto









Há muitos e muitos milhares de anos, a poesia aproximou-se do homem e tão próximos ficaram, que ela se instalou no seu coração.
«Rosa do Mundo - 2001 Poemas Para o Futuro» é uma obra colectiva feita por muitas dezenas de pessoas com sensibilidades diferentes, mas tendo em comum o grande amor pela poesia. Trata-se de uma obra ambiciosa, procurando abarcar a poesia conhecida ao longo da História, desde as civilizações mais remotas até aos autores nascidos em 1945.
Como o leitor constatará ao longo do livro a rosa atravessa a poesia universal de todas as épocas. E Rosa do Mundo foi a expressão que propositada e silenciosamente veio ter connosco para dizer Poesia.»
(Manuel Hermínio Monteiro, Abril de 2001)

Ao editor da Assírio & Alvim Manuel Hermínio Monteiro falecido em Junho de 2001 — que tinha a arte de falar de livros e o desejo de editá-los — se deve a publicação de "Rosa do Mundo - 2001 Poemas Para o Futuro".

A Rosa do Mundo é o Mundo num livro. 2001 poemas em 1920 páginas. É um livro para abrir de vez em quando e partir à descoberta das palavras dos outros. Um livro que se levaria para uma ilha deserta.

Uma edição da Assírio & Alvim, numa iniciativa conjunta com a Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura.
Um livro universal e imprescindível. Ainda disponível nalgumas livrarias.

Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro
Direcção editorial: Manuel Hermínio Monteiro
Organização: Manuela Correia
Coordenação editorial: Sara Oliveira, com a colaboração de: Gil de Carvalho e José Alberto Oliveira
Colaborações principais:
Adalberto Alves (poesia árabe contemporânea)
Ana Paula Guimarães (poesia portuguesa de tradição oral)
Cecília Rego Pinheiro (poesia inglesa)
Doina Zugravescu (poesia árabe pré-clássica e clássica, romena e turca)
Ernesto Rodrigues (poesia húngara)
Ernesto Sampaio (poesia italiana)
Filipe Jarro (poesia francesa)
Gil de Carvalho (poesia chinesa)
Halima Naimova (poesia persa)
Irene Freire Nunes (poesia provençal)
João Barrento (poesia de língua alemã)
Jorge Henrique Bastos (poesia brasileira e latino americana)
José Alberto Oliveira (poesia norte-americana)
José Bento (poesia de língua espanhola)
José Domingos Morais (poesia da cultura celta)
José Tolentino Mendonça (textos bíblicos)
Manuel Hermínio Monteiro (poesia portuguesa)
Manuel João Magalhães (cosmogonias)
Manuel João Ramos (cosmogonias)
Maria Aliete Galhoz (Cancioneiro e Romanceiro Português)
Maria Helena da Rocha Pereira (clássicos gregos e latinos)
Nina Guerra e Filipe Guerra (poesia russa)
Stephen Reckert (poesia japonesa)
Teresa Amado (poesia galaico-portuguesa)

Edição Assírio & Alvim, 2001


A ROSA DO MUNDO

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas, que se agitam e quebram
Como as pálidas águas em seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.

W. B. Yeats
(tradução de José Agostinho Baptista)
(pág. 1163)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Prémio Municipal de Poesia Nuno Júdice







A Câmara Municipal de Aveiro apresentou hoje o Prémio Municipal de Poesia Nuno Júdice, um prémio no valor de 2.500 euros, que será entregue no dia 21 de Março, Dia Mundial da Poesia.
Os candidatos podem apresentar os trabalhos concorrentes entre 4 de Janeiro e 16 Fevereiro de 2007.
Organizado pela Câmara Municipal de Aveiro, o Prémio Municipal de Poesia Nuno Júdice conta com a parceria da Universidade de Aveiro e do Grupo Poético de Aveiro.
O prémio pretende contribuir para a reafirmação da poesia como género maior da literatura portuguesa, estimular a criação literária, em particular a poética, incentivando os participantes a ousar formas narrativas modernas e de vanguarda na esteira das referências de contemporaneidade da obra de Nuno Júdice, e favorecer o aparecimento de novos autores portugueses.
Fazem parte do júri o vereador dos Assuntos Culturais, Miguel Capão Filipe (presidente), Fátima Pombo, Luís Serrano, Alberto Serra e Rosa Maria Oliveira, representante do Grupo Poético de Aveiro.
Mais informações, aqui.
O regulamento do Prémio Municipal de Poesia Nuno Júdice estará disponível on-line no site da Câmara Municipal de Aveiro, em: www.cm-aveiro.pt.

Lisboa à Letra 2006/2007








(Até 31 de Janeiro de 2007)

O concurso literário "Lisboa à Letra" é uma iniciativa do Pelouro da Juventude da Câmara Municipal de Lisboa e destina-se a jovens entre os 15 aos 30 anos que residam, estudem ou trabalhem no Concelho de Lisboa.

Os textos, nas categorias de prosa e poesia, são obrigatoriamente inéditos e têm como temática de fundo a cidade de Lisboa, interpretada livremente pelos concorrentes.

O júri do Concurso será composto por um representante do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e dois escritores de renome.

A entrega de trabalhos vai decorrer até ao dia 31 de Janeiro de 2007, nos espaços Juventude @Lisboa.

Para cada uma das categorias, os três primeiros classificados recebem, respectivamente, 750, 500 e 250 euros. Os trabalhos vencedores serão posteriormente publicados e distribuídos gratuitamente nos espaços Juventude@Lisboa, bibliotecas municipais e Rede Nacional de Bibliotecas Públicas.

Para mais informações: lisboaaletra@cm-lisboa.pt

Vejam as Normas de Participação em www.lxjovem.pt/lisboaaletra.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Do Luís Graça para o Luís Carlos

"As tradições constroem-se. Todos os anos, eu e o meu amigo Luís Carlos almoçávamos no restaurante “Hexágono +” a 31 de Dezembro. A 15 de Julho de 2005 o Luís Carlos partiu.
Ficou a saudade. E a vontade de ter sempre algo escrito para ele a 31 de Dezembro.
Luís Graça"


POEMA DO NOSSO DIA

Lá no alto, do teu lugar
tens a paz toda
a dançar borboletas
na brisa dos teus olhos

Aqui por baixo, do meu lugar
rói-me o coração
essa coisa portuguesa
chamada saudade

Na despedida de mais um ano
sonho que tens todo o sol do mundo
para aquecer as mãos
na lareira da Eternidade

Aquele sol todo de Julho
que te banhou na hora do adeus
quando desceste à terra
mergulhado num mar de flores

E lágrimas
aquelas lágrimas minhas e tuas
que não fiz esforço
para deixar de chorar

Luís Graça, 31/12/2006

sábado, 30 de dezembro de 2006

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Na voz de Luís Gaspar:

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Morreu Pierre Delanoë




Morreu ontem Pierre Delanoë, autor das letras de muitos sucessos da canção francesa.
Pierre Delanoë, pseudónimo de Pierre Leroyer, escreveu mais de 4000 letras para canções, entre as quais: para Gilbert Bécaud: Mes mains, Le jour où la pluie viendra, Nathalie, Je t'appartiens, Et maintenant, L'Orange, ou La Solitude, para Édith Piaf: La Goualante du pauvre Jean, Je Vois La Vie en Rose, para Tino Rossi: Deux amants, para Hugues Aufray: Le rossignol anglais, L'épervier, Les crayons de couleur, Stewball, para Michel Fugain: Je n'aurai pas le temps, Une belle histoire, para Nicoletta: Il est mort le soleil, para Nana Mouskouri: Que c'est bon la vie, Adieu Angelina, para Michel Polnareff: Le bal des Laze, para Gérard Lenorman: La Ballade des gens heureux, para Joe Dassin: L'Été indien, Champs-Elysées, Et si tu n'existais pas, para Nicole Rieu: Et bonjour à toi l'artiste, para Michel Sardou: Les Vieux Mariés, Le France, e também para Charles Aznavour, Claude François, Serge Reggiani, Dalida, entre muitos outros.



Et maintenant, que vais-je faire
De tout ce temps que sera ma vie

De tous ces gens qui m'indiffèrent
Maintenant que tu es partie

Toutes ces nuits, pourquoi, pour qui
Et ce matin qui revient pour rien

Ce coeur qui bat, pour qui, pourquoi
Qui bat trop fort, trop fort

Et maintenant, que vais-je faire
Vers quel néant glissera ma vie

Tu m'as laissé la terre entière
Mais la terre, sans toi c'est petit

Vous, mes amis, soyez gentils
Vous savez bien que l'on n'y peut rien

Même Paris crève d'ennui
Toutes ses rues me tuent

Et maintenant, que vais-je faire
Je vais en rire pour ne plus pleurer

Je vais brûler des nuits entières
Au matin, je te haïrai

Et puis un soir, dans mon miroir
Je verrai bien la fin du chemin

Pas une fleur et pas de pleurs
Au moment de l'adieu

Je n'ai vraiment plus rien à faire
Je n'ai vraiment plus rien...

Pierre Delanoë



Aqui, na excelente interpretação de Gilbert Bécaud:

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

4.º número da "Boca de Incêndio"




Hoje, 27 de Dezembro, pelas 18.00 horas, é apresentada no Café-Concerto do Teatro Municipal da Guarda, a quarta edição da revista “Boca de Incêndio”, editada pelo “Aquilo” Teatro.
A revista será apresentada por Pedro Dias de Almeida, colaborador da "Boca de Incêndio" e Editor de Cultura da Revista Visão.
A “Boca de Incêndio” é dirigida por António Godinho, Américo Rodrigues e por Maria Lino. Nesta quarta edição colaboram: António Bento, António Godinho, Barbara Spielmann, Barbara Assis Pacheco, Claire Moreau, Edmundo Cordeiro, Carlos Alberto Machado, Doris Cordes-Vollert, E. M. de Melo e Castro, Joan Lazeanu, João Camilo, José Oliveira, Jorge dos Reis, José Manuel Gomes Pinto, Kerstin Franke-Gneuss, Susann Becker, Tiago Rodrigues e Vítor Pomar.
“Boca de Incêndio” é uma revista semestral de âmbito literário e artístico, cujo número inaugural saiu em Maio de 2004. Aí são incluídos pequenos textos literários, necessariamente inéditos (conto, poesia), recensões, ensaios, artigos de opinião, trabalhos de investigação, desenhos, gravuras, banda desenhada. O leque de colaboradores tem um âmbito internacional e compreende escritores, poetas, artistas plásticos e investigadores.
Mais informações aqui.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Que fazer logo à noite?




Pode dar um pulinho ao Bar B.Leza (que fica no Largo do Conde Barão, 50-2º, em Lisboa), para assistir ao espectáculo de música e poesia "Farrópe d' Poesia".
Palavras escritas de Angola, Cabo Verde, São Tomé, Moçambique, Brasil e Guiné-Bissau são ditas por actores de diversas nacionalidades, acompanhadas por música improvisada e tradicional de cada um dos países representados no espectáculo.
Hoje, ouvir-se-ão poemas do Brasil e de Guiné-Bissau.
Actores: Luanda Cozetti; Vera Mantero; Sofia Marques.
Músicos: Norton, baixo; Galissá, kora.



Outra opção é o Bar A Barraca. Nas terças-feiras de Dezembro o palco do Bar A Barraca está aberto a todos os que queiram declamar... a partir das 23 horas.
O Bar A Barraca fica no Teatro Cinearte - Largo de Santos, n.º 2, em Lisboa.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Conforme prometido, aqui ficam todos os poemas recebidos.
Prometo repetir este "espaço aberto".
Obrigada a todos e um Bom Ano Novo com muita Poesia.



Prece de Natal de 2006

Embora o frio aperte mais e mais,
Renasce em mim de novo a ilusão,
Que sempre agasalhou os meus Natais,
Enchendo de amor meu coração.

De novo em mim ressoa aquele brado
De Paz e Amor, qual Hino de Esperança,
Que pode transformar nosso passado
Num futuro de Paz e de Bonança.

E ante o Deus Menino que contemplo,
Que foi para todos nós, sublime exemplo,
De um Amor Fraterno, sem igual,

Eu peço: “Terminai com tanta dor.
Fazei em nós viver o vosso amor,
Que o Mundo viva em Paz Vosso Natal”.

Carlos Teles Gomes

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Natal...
época de Paz e Amor...
Jesus menino nasceu já Senhor.
Três Reis...
Trazendo veneração...
E ouro e outras merdas na mão!

POIS SIM! MERDA!
E se estiver errado...
seguro eu desta vez o cajado!

O Natal...
é quando o Sol representado
por um tal de Jesus oleado,
após três dias na "morte"
ressuscita para o norte!

O Natal...
essa época invernal...
repleta de pastores e ovelhas,
mas já não da Era de Peixes com orelhas
mas da Era do Capital!

Capital... Social!
Ahah! Sim! Social!
É fun-da-men-tal ser Social!
Que outra maneira teríamos de ser escravos
senão no Social?
...Escravos de Natal...

Não me levem a mal;
não sou demónio nem Satanás,
sou apenas um homem que faz
a pergunta fun-da-men-tal:

Porquê?

Porque no Natal,
pro-gra-mamos;
o materialismo nos infantes,
o despesismo nos adultos,
a inveja nos Amantes
e a ignorância nos incultos...

É que no fim,
quando o Pai Natal regressa ao caseiro,
quando os doces já estão no lixo,
é quando os débitos de Janeiro
finalmente são um bicho!
...E enquanto houver banqueiro
haverá frio em Janeiro!

Natal, Natal...
não me leves a mal;
não sou anjo nem querubim,
sou apenas um homem assim,

este escravo anormal...

Rui Diniz

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aperta-me
com mais força ainda
o natal chegou
e sinto tanto frio

esquece as palavras
não as quero ouvir
mentir em Dezembro é pecado
aperta-me em silêncio

não digas que me gostas
sinto tanto frio
basta que me apertes
porque é natal

esqueço as palavras
não as quero dizer
dizer a verdade em Dezembro é milagre
aperto-te em silêncio

não quero dizer que te gosto
basta que te aperte
sinto tanto calor já
agora que é capaz de ser natal

a. gil

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Natal 98

Uma estrela voou breve
e cintilante pairou
sobre as águas em tumulto
do manso Rio de Prata

Veio lembrar aos poetas
o sempiterno retorno
de mais um simples Natal

Joaquim Evónio

(in "Florilégio de Natal - Pelos escritores da Tertúlia Rio de Prata", Universitária Ed., 1998)

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Mas quais Natal, qual carapuça!

“Está mal posta, essa bolinha”
disse o Menino Jesus
viu a árvore de Natal
qu’era um pinheiro de truz

“Então põe tu, és tão bom”
disse então o Pai Natal
e a seguir pediu logo
para baixarem o som

AC/DC não é coisa
assim muito natalícia
vale mais comprar flores
uma rosa, uma estrelícia

Pai Natal foi à janela
e viu o trenó bloqueado
as duas renas sem trela
com um ar muito enjoado

“Quem bloqueou o trenó?”
perguntou o Pai Natal
e responderam-lhe as renas
“Vão ali no Chaparral”

No Chaparral branquinho
da cor da neve e do vinho
(bem, pelo menos algum
e também latas de atum)

fugiam os Três Reis Magros
avençados pela EMEL
bebiam leite da Agros
comiam bolos de mel

O Pai Natal foi-se a eles
e com maus modos gritou
“Seus palhaços de Belém,
querem a mal ou a bem?”

O Belchior ficou fulo
E disse prò Pai Natal
“Ó meu, eu não tenho culpa
que sejas um anormal”

“Mete o talão no focinho
nas tuas renas, visível
ou levas murro na tromba
e desligo-te um fusível”

Menino Jesus chegou
Numa vaquinha montado
ajudando à confusão
par de cornos embolado

“Não sejam assim, ó reis
estais tão magros de maldade

as multas pelo Natal
são enorme crueldade”

O Gaspar saiu do carro
olhou Jesus bem nos olhos
espetou-lhe na testa escarro
agarrou-o pelos folhos

“Ó meu puto atrevidão
isto são coisas d’adultos
levas já um estaladão
e não sonhes com indultos”

Menino Jesus chorou
e pensou rapidamente
se Natal é quando um homem quiser
eu estou urgentemente, mas é que é mesmo urgentemente
a necessitar completamente de uma cerveja da Unicer


Uma Santa Páscoa a todos os frequentadores (voluntários e involuntários) da Viscosidade-Eterna.blogspot.com
Luís Graça

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Um quase poema de Natal

em vez de um menino com incenso e mirra
e uma estrela no caminho
nasceu um Pai Natal com telemóveis e MP3
num trenó bem carregadinho
a vaca e o burro voltaram para o curral
e do estrangeiro importaram-se renas
porque nem sequer existem em Portugal

Carlos Vaz

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Natal com Luz

Estrelas brilhantes, no ar
De beleza sem igual
Olha-as a gente a pensar
Que são pedaços de cor
Arrancados com amor
À magia do Natal.



Natal sem Luz

Nos olhos desta criança
Em noite fria, cinzenta,
Cresce a vida, brota a esperança
E pensa;
"Nasci como outro igual
Sem jumento, sem rei mago,
Neste país Portugal
De presépio sofismado.
Para a esmola estendo a mão
Reflexo de mim, na montra iluminada.
Fria moeda que recebo para pão
Deus te ajude, benfeitora abençoada,
Seara ao vento, terra seca, rosnar do cão
No portal da casa, aldeia afastada
Que guardo em mim, recordação
Da foice, da enxada, desfolhada,
Do pai, da mãe, de meu irmão,
Aroma da pedra enfarinhada
Velas brancas do moinho. Meu pião
Brinquedo mais bonito na minha consoada,
Cristalina lágrima a cair no chão.
E o celebrante de voz engordurada,
Palavras de pecado, absolvição,
Deixai vir a mim as criancinhas
Anjos brancos, asas de renda,
Respeitar o jejum e as alminhas,
Nos céus ordena o Senhor enorme,
Primeiro Jesus
Depois a fome."

Luís Pinto
Dezembro/06


Este poema do Luís Pinto pode ser ouvido na voz do Luís Gaspar, na sua rúbrica "Lugar aos Outros" do Estúdio Raposa. Acesso directo, aqui.
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NATAL

NA TAL praça
Onde ergueram a árvore
Dormem homens
Que perderam os sonhos.

NA TAL árvore
Brilham estrelas
Que faltam nos olhos
Dos homens que dormem na praça.


Há uma praça
Onde ergueram uma árvore
E onde dormem homens
Que não têm NATAL.

José Luís Garcês

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Eram dias de plena Luz
Quando eu nasci...

Eram!!!!

O meu rosto
era como o Sol...

Era!!!

Eram
Sorrisos
entusiasmos
Sortilégios e magias
E um vale de utopias

Eram!!!

Natal:
Venha o diabo e escolha!!!

Venha!!!!

Joaquim Cascais

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Neve


hoje, a neve que cai é quente.

há uma brisa serena que desce mansamente sobre a mão.
há uma luz incandescente de dentro dos olhos,
que nos dias, tantas vezes esquecemos de acender,
e que é tão fácil de encontrar dentro do coração.

pessoas passam. as crianças correm, felizes.
luzes e enfeites dourados pendem sobre a rua.
acendem e apagam. acendem e apagam.
como a noite, maior, que acende e apaga no rosto da lua.


olho para dentro dos teus olhos,
e eles brilham mais que o normal.
pela janela do quarto vejo a neve quente a descer.
pego na tua mão como se pegasse no teu coração e digo:
— Esqueci-me de te dizer, Feliz Natal!


— Hoje não quero mais presentes — disse.
olhei para junto da árvore, e reparei que estava vazia.
a lareira ardia. incandescente.
mas não me importei. com os olhos rasos de água,
tornei a dizer: — O teu coração, é o meu maior presente!


continuou a nevar. a noite inteira nevou, e eu sonhei,
que a luz incandescente de dentro dos olhos,
seria sempre assim…

Pedro Lucas

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Natal és tu
Natal sou eu
Natal somos nós
E eles, e eles…
Natal é sempre que dás a mão
Natal é perdão
É Amor, alegria, sofrimento e dor...
Natal é sempre que ajudas alguém
aquele com um andar oscilante,
com uma lágrima constante,
por um caminho diferente…
Natal foi ontem
Natal é hoje
E, será amanhã…

Poesia Portuguesa

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Deixo-vos ainda um poema de David-Mourão Ferreira, na voz de Luís Gaspar:


Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido...

Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.


Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave...

Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Venham daí os poemas natalícios!













Ao receber um poema de Natal que um visitante cá da casa gentilmente me enviou, tive uma ideia: enviem-me os vossos poemas de Natal.
Prometo publicá-los TODOS (sem nenhuma espécie de censura) no dia 25 de Dezembro.
Faremos assim a nossa "Festa de Natal blogueira" partilhando entre todos aquilo que mais gostamos: a Poesia.
Podem enviar por e-mail para: inesramos.designer@gmail.com
Até lá, Feliz Natal e Boas Inspirações!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

1.º Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura para José Bento





O poeta e tradutor português José Bento venceu no passado dia 11 de Dezembro o 1º Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura. Este Prémio, no valor de 75 mil euros, é atribuído pela primeira vez e pretende distinguir um autor, pensador, criador ou intérprete que tenha contribuído significativamente para o reforço dos laços entre os dois países.

José Saramago, Álvaro Siza Vieira e José Adriano de Carvalho (por Portugal) e Clara Janês, José Luís Borao e Carlos Hernandéz Pezzi (por Espanha) formaram o júri.


José Bento nasceu no litoral da zona de Aveiro, em 1932. Estudou no Porto e em Lisboa.
Nos anos 50, revelou-se como poeta em revistas de poesia como Árvore, Eros, Cadernos do Meio-Dia e Cassiopeia, de que foi um dos directores. É autor de vários livros de poesia, entre os quais «Sequência de Bilbau» (1978), «O enterro do senhor de Orgaz» (1986), «Silabário» (1992) e «Um sossegado silêncio» (2002).
Poucas vezes se preocupou em reunir os seus poemas em livro, pelo que o seu nome é normalmente citado como excelente tradutor de numerosos poetas de língua espanhola, clássicos ou actuais (S. Juan de la Cruz, Pablo Neruda, Cernuda, Quevedo, Jorge Manrique, Lorca, Vicente Aleixandre, César Vallejo). Traduziu também para português «Dom Quixote», de Miguel de Cervantes, editado pela Relógio d’Água e com a qual venceu o Grande Prémio de Tradução do Pen Clube Português, igualmente com Miguel Serras Pereira, também tradutor de uma outra obra de Cervantes.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Na estante de culto







A Musa ao Espelho

PATHOS
Pequena antologia quase inédita de poesia contemporânea portuguesa

“A eternidade alcança-se quando, espreitando sobre o ombro, vislumbramos o nosso próprio rasto, os traços imperecíveis da nossa existência, sem qualquer deus como tutor. As marcas da nossa passagem, acentuam-se com os sentidos; eles são a matéria-prima de que se constitui A Musa ao Espelho. Os laços que cimentam os seus elementos e os múltiplos convidados, neste caso, os catorze dos quinze poetas que construíram a ossatura antológica, definem, por si só, o Amor, Mágico Amor de que fala A. M. Lisboa. E é nessa ambiência genuinamente construída que edificamos o nosso projecto sem ambiguidades ou cedências. Numa portugalidade preconceituosa, mesquinha, de gostos sinuosos e por vezes atávica, subimos tranquilamente os degraus de uma longa escadaria, buscando o patamar onde reside um público atento, crítico, permeável à escrita poética e musical. Não almejamos o sucesso gratuito e, muito menos, a apoteose cega e efémera; procuramos simplesmente, partilhar afectos.”
(da Nota Introdutória de José Carlos Tinoco)

Pois foi partilhando afectos que o poeta (e meu amigo) Luís Graça adquiriu, para me oferecer, este belo livro/cd/dvd no espectáculo que A Musa ao Espelho realizou recentemente na Casa Fernando Pessoa e, continuando na partilha de afectos, vos ofereço aqui um dos poemas nele incluso.
Escolhi este de Eduarda Chiote porque veio (surpresa!) autografado pela própria poetisa com uma dedicatória à minha pessoa — que deste já agradeço.
A ambos.


Cantiga de Amor

Ó rosa dos sete ventos, por sete ventos
rodada,
defende-me
dos ladrões,
dos espantos doidos,
dos ventos,
e de mim. De mim também
e dos meus ventos
chorados.

Ó rosa dos sete espinhos
e no rochedo
cravados,
limpa o mar de todo o sangue, limpa a praia marinheira
das ondas do meu
pecado.

Limpa o coração deserto e a inocência do menino
trespassada pelo vidro da garrafa
arremessada
por veleiro sobre areia
adormecida,
por soltos cabelos
de água.

Ó rosa dos sete espinhos, por sete espinhos
rodada, traz-me o frio do céu limpo,
as nuvens da trovoada,
nos olhos do meu amor
e nas ruínas
abertas
de uma casa destelhada
ó rosa dos sete estrelos, por sete estrelos
rodada,
traz contigo todo o luto
desta música
inventada
no seu boné de marujo
ou no corpo não impresso de uma nota
descuidada.

Ó rosa dos sete estrelos, ó silêncio enevoado,
leva contigo
o Poema, leva contigo
a palavra.
Leva contigo
o Poeta
numa pérola de neve
e pela dor
fustigada
ó rosa clara de morte
ó nome do meu
amado.

Eduarda Chiote

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A Musa ao Espelho é um espectáculo intenso e eclético. Os poemas são interpretados por José Carlos Tinoco, acompanhado por Juca Rocha (piano), Ianina Khmélik (violino), Vanessa Pires (violoncelo) e Fátima Santos (acordeão). Os temas compostos ou adaptados para cada um dos poemas acentuam a ambiência do texto, transportando o espectador (ou ouvinte do cd) através da uma viagem imaginária, visitando diferentes espaços físicos e emocionais.
O CD e o DVD são o resultado da gravação ao vivo do espectáculo que A Musa ao Espelho apresentou no passado dia 24 de Julho de 2006 na Casa da Música no Porto.
Muito sucesso para este belíssimo projecto, é o que desejo.

Os poetas:
Ana Luísa Amaral
António Maria Lisboa
Bénédicte Houart
Carlos Poças Falcão
Daniel Jonas
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Eduarda Chiote
Filipa Leal
Helga Moreira
Humberto R.
João Luís Barreto Guimarães
João Rios
Manuel António Pina
Rosa Alice Branco
Rui Lage

Uma edição da Gailivro, de Novembro de 2006.

domingo, 10 de dezembro de 2006

Biblio Clube 24

Esta notícia foi-me enviada pelo Joaquim Cascais, assíduo aqui da casa.
Tal como ele, eu acho a ideia interessantíssima.
Ora vejam:




Chama-se "Biblio Clube 24" e o seu conceito inovador assenta no serviço de empréstimo autónomo de livros 24 horas por dia, 365 dias por ano. O projecto, submetido à Fundação Calouste Gulbenkian, foi um dos 16 escolhidos a nível nacional por este organismo, não se conhecendo no nosso país ou fora dele, semelhante equipamento. O "Biblio Clube 24" tem como objectivo potenciar a promoção da leitura, funcionando como complemento de um serviço tradicional de biblioteca, perspectivado para satisfazer as necessidades de uma população dispersa e com horários nem sempre compatíveis com os de uma Biblioteca convencional.
Para a utilização desta máquina, os utentes têm que possuir um cartão magnético, cedido gratuitamente pela Biblioteca da Batalha, por forma a serem "reconhecidos" pelo sistema.
Uma vez nessa situação, os utilizadores poderão proceder à requisição dos livros, divididos por diversos géneros, tendo para tal um timming para a leitura do livro e sua respectiva devolução. Caso contrário, o sistema bloqueia o empréstimo ao utilizador em causa e os seus dados são enviados aos Serviços da Biblioteca.

Quem teve esta ideia foi uma senhora chamada Carla Valente (bibliotecária), quando um dia foi tomar uma bebida a uma daquelas máquinas onde se põe o dinheiro, se carrega num botão para escolher a bebida e a máquina nos dá a bebida.
Esta máquina (a Biblio Clube 24) permitirá escolher 160 títulos diferentes distribuídos por oito temáticas (esperamos que a Poesia seja a mais solicitada!).

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Hoje nasceu...




7 de Dezembro de 1937

Ary dos Santos

Poeta português










Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: A Cidade ; Meu amor meu amor... ; Cantiga de Amigo

Ary dos Santos

José Carlos Ary dos Santos nasceu em Lisboa no dia 7 de Dezembro de 1937.
Aos catorze anos a sua família publicou-lhe alguns poemas (que ele próprio considerava maus).
Mas Ary revelaria verdadeiramente as suas qualidades poéticas em 1954, com dezasseis anos. É nessa altura que vê os seus poemas serem seleccionados para a Antologia do Prémio Almeida Garrett. E em 1963 dar-se-ia a sua estreia com a publicação do livro de poemas "A Liturgia do Sangue". Em 1969 iniciou-se nas actividades políticas, integrando a campanha da CDE e filiando-se mais tarde no Partido Comunista Português, participando de forma activa nas sessões de poesia do então intitulado "Canto Livre Perseguido". Foi principalmente através da sua poesia que contribuiu para a política nacional, numa altura em que a livre expressão havia sido anulada pela ditadura salazarista e em que urgia gritar pela liberdade, embora esse grito fosse, na maior parte das vezes, calado pelo regime.
Entretanto concorreu, sob pseudónimo, ao Festival da Canção da RTP com os poemas "Desfolhada" e "Tourada", obtendo os primeiros prémios. Foi, aliás, através da música que o poeta se tornou mais conhecido entre o grande público. O poema "Desfolhada", cantado por Simone de Oliveira, com música de Nuno Nazareth Fernandes, ganhou em 1969 o primeiro lugar do Concurso da Canção RTP. Também em 1972 o primeiro lugar pertenceu a Ary dos Santos e Nuno Nazareth Fernandes com "Menina", interpretado por Tonicha. No ano seguinte a vitória seria novamente de Ary dos Santos, desta vez em parceria com Fernando Tordo, com "Tourada" (uma rasteira à censura), interpretado por Fernando Tordo. Além destes êxitos, também o poema "Meu Amor, Meu Amor", escrito em 1968, com música de Alain Oulman e interpretação de Amália Rodrigues, obteve em 1971 o Grande Prémio da Canção Discográfica.
Autor de mais de seiscentos poemas para canções para os mais variados artistas entre os quais Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Fernando Tordo, José Afonso, Paulo de Carvalho e Simone de Oliveira, entre muitos outros, Ary dos Santos fez no meio muitos amigos. Gravou, ele próprio, textos ou poemas de e com muitos outros autores e intérpretes e ainda um duplo álbum contendo "O Sermão de Santo António aos Peixes" do Padre António Vieira. À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado "As Palavras das Cantigas", onde era seu propósito reunir os melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado "Estrada da Luz Rua da Saudade", que pretendia que fosse uma autobiografia romanceada.
Ary dos Santos faleceu em 1984. Nesse ano, logo após a sua morte, foi lançada a obra "VIII Sonetos de Ary dos Santos" de Manuel Gusmão no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro.
Ary dos Santos, para além de ter sido um grande criativo publicitário e um grande declamador, foi um dos mais talentosos poetas da sua geração, conhecido pela sua linguagem irreverente e ágil e que muito contribuiu para a viragem da música popular portuguesa. Como ele próprio dizia, a poesia era a maneira que ele tinha de falar com o povo porque ser poeta é escolher as palavras que o povo merece.

Recordamos com saudade:

“(...) Serei tudo o que disserem
Por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
Falso médico ladrão
Prostituta proxeneta
Espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!”

1953 "Asas";
1963 "A Liturgia do Sangue";
1964 "Tempo da Lenda das Amendoeiras";
1965 "Adereços, Endereços";
1968 "Insofrimento In Sofrimento";
1970 "Fotos-Grafias"; "Ary por Si Próprio";
1973 "Resumo";
1974 "Poesia Política";
1975 "Llanto para Afonso Sastre y Todos"; "As Portas que Abril Abriu";
1977 "Bandeira Comunista";
1979 "Ary por Ary"; "O Sangue das Palavras";
1980 "Ary 80";
1983 "Vinte Anos de Poesia";
1984 "As Palavras das Cantigas"; "Estrada da Luz Rua da Saudade"

Teatro:
"Azul Existe" (1964);
"Os Macacões" (em colaboração com Augusto Sobral);
"O Caso da Mãozinha Misteriosa" (em colaboração com Augusto Sobral).

A Cidade




Um vídeo de Ana Morais com a interpretação de Diogo Santos (entre outros).
Um achado que eu encontrei no YouTube!


A Cidade

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos
Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a crescer
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu pássaro cinzento
A chorar a lonjura do nosso afastamento

Meu amor meu amor
meu nó de sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

Este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.


José Carlos Ary dos Santos

Na voz de Vítor de Sousa:

Cantiga de Amigo

Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões, Virgílio, Shelley, Dante
o meu amigo está longe e a distância é bastante.
Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões, Virgílio, Shelley, Dante!
o meu amigo está longe e a tristeza é bastante.
Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões, Virgílio, Shelley, Dante:
meu amigo está longe e a saudade é bastante!

José Carlos Ary dos Santos


Na voz de Luís Gaspar:

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

"Matéria de Poesia" em Coimbra







Hoje, 5 de Dezembro, pelas 18 horas, a Escola da Noite vai apresentar no Café-Teatro do Teatro Académico de Gil Vicente, “Matéria de Poesia” — espectáculo-recital construído a partir de poemas dos autores de língua portuguesa: Adélia Prado, Manoel de Barros, Carlos de Oliveira e Alexandre O’Neill.
As origens deste espectáculo — a 39ª produção d'A Escola da Noite — remontam à Oficina de Leitura de Poesia dinamizada pela companhia em parceria com o Instituto de Língua e Literatura Portuguesas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra no passado mês de Março.
Mantendo o conjunto essencial dos poemas trabalhados com os alunos nessa ocasião, A Escola da Noite dá-lhes agora forma de espectáculo.
O destaque conferido aos poemas de Adélia Prado e Manoel de Barros, autores pouco divulgados em Portugal, proporciona ao espectador um percurso por passagens seleccionadas da poesia brasileira contemporânea.
"Matéria de Poesia" adopta um registo que experimenta os “deslimites da palavra” e as suas múltiplas inscrições no corpo e no espaço e que procura valorizar, pela voz dos actores, a sensibilidade e a subtileza da palavra escrita, mas também a dimensão lúdica que os autores associam, nos textos escolhidos, ao próprio acto de criação poética/artística.

Os poemas:
Colagem (Carlos de Oliveira)
Papel (Carlos de Oliveira)
Impressionista (Adélia Prado)
Anímico (Adélia Prado)
Antes do nome (Adélia Prado)
Grande Desejo (Adélia Prado)
Janela (Adélia Prado)
Dona Doida (Adélia Prado)
Sedução (Adélia Prado)
Matéria de Poesia (Manoel de Barros)
O Céu estrelado (Adélia Prado)
A Arte (Adélia Prado)
Na língua dos pássaros (Manoel de Barros)
Línguas (Manoel de Barros)
Introdução a um Caderno de Apontamentos (Manoel de Barros)
O Fotógrafo (Manoel de Barros)
A menina apareceu grávida de um gavião (Manoel de Barros)
Palavras (Manoel de Barros)
O Chapéu de Tchekov (Alexandre O’Neill)

Direcção: António Augusto Barros
Elenco: Carlos Marques, Maria João Robalo, Ricardo Correia, Sílvia Brito e Sofia Lobo
Produção: A Escola da Noite

O Teatro Académico Gil Vicente fica na Praça da República, em Coimbra.

Na estante de culto




Gabriela Mistral
(pseudónimo escolhido por Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, numa homenagem aos seus poetas preferidos: Gabriele D'Annunzio e Frédéric Mistral) nasceu no Chile em 1889.
Poetisa, professora e diplomata, foi a primeira escritora latino-americana a ganhar o Prémio Nobel da Literatura, em 1945.

Ganhou nome como poetisa em 1914, depois de ter sido premiada nuns Jogos Florais pelos seus "Sonetos sobre a morte", inspirados no suicídio do noivo, facto que a marcaria para toda a vida. Nesses Jogos Florais apresentou-se com o pseudónimo que dali em diante a acompanharia para sempre.
Ao seu primeiro livro de poemas, Desolación (1922), seguiram-se Lecturas para Mujeres, (1923), Ternura, (1924), Nubes Blancas y Breve Descripción de Chile, (1934), Tala, (1938), Antología, (1941), Lagar, (1954) e Recados Contando a Chile, (1957), entre outros.
O Prémio Nobel transformou-a numa figura de destaque da literatura internacional e levou-a a viajar por todo o mundo (também viveu em Portugal) e representar o seu país em comissões culturais das Nações Unidas, até falecer em Nova York em 1957.

Antes desta “Antologia Poética” (organizada e traduzida por Fernando Pinto do Amaral), Gabriela Mistral ainda não tinha sido publicada em Portugal. A Editora Teorema veio assim preencher essa lacuna com este livro, que, nas palavras de Fernando Pinto do Amaral (e que subscrevo) nos mostra as palavras de Gabriela “muito perto das suas raízes terrestres, mas que parecem de vez em quando ganhar asas e voar ao longo do tempo e do espaço, projectando-se nessa dimensão aérea ou musical que corresponde, afinal, à essência disso a que, melhor ou pior, continuamos a chamar poesia.”


Montanhas Minhas

Em montanhas me criei,
mais de três dúzias se erguiam.
Parece que nunca, nunca,
embora escute os meus passos,
as perdi, nem quando é dia,
nem quando é noite estrelada,
e embora veja nas fontes
a cabeleira nevada,
não fugi nem me deixaram
como filha mal lembrada.

E embora sempre me chamem
uma ausente e renegada,
possuí-as e ainda as tenho,
persegue-me o seu olhar
ao longo da minha estrada.



Primeiro Soneto da Morte

Desse gelado nicho onde homens te puseram
hei-de tirar-te e pôr-te em terreno soalheiro.
Que nela hei-de dormir os homens não souberam
e havemos de sonhar no mesmo travesseiro.

Hei-de deitar-te então no terreno soalheiro
com a doçura da mãe prò filho adormecido,
e a terra há-de ser suave como um berço inteiro
ao receber-te o corpo de menino ferido.

Depois vou esfarelar a terra, o pó das rosas,
e ao luar, na poalha azulada e futura,
irão ficando presos os leves destroços.

Vou-me afastar cantando vinganças gloriosas,
porque nenhuma outra mão nessa fundura
poderá disputar-me o teu punhado de ossos!



“Antologia Poética”
Selecção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral
Editorial Teorema
2002

Recomendo.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Boca – Palavras que alimentam









Recentemente criada, a “Boca” é uma editora de audiolivros (como há noutras línguas, mas que ainda não se tinha feito em Portugal, de raiz).
Segundo eles, a ideia de fazer livros falados vem de uma vontade de despertar para a leitura outros sentidos. Quando lemos em voz alta, despertamos a fala, os ouvidos e próprio texto, que ganha outras nuances, tonalidades.
Não quer a “Boca” com os audiolivros suplantar a leitura visual, mas resgatar esta forma de ler ouvindo, que pode dar ao leitor uma experiência completamente diferente do texto.
O site da “Boca” tem apenas uma semana, mas a editora já tinha sido legalmente criada em Janeiro. Estão a inaugurá-la agora com o primeiro título já produzido, “A Alegria de Gostar” — Poemas de Amor para Crianças, de Jairo Aníbal Niño.
Os audiolivros da “Boca” poderão ser comprados em formato mp3 no site deles, ou em CD nas livrarias.
O site fica aqui.
E o blogue, aqui.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Hoje nasceu...





3 de Dezembro de 1871

Cândido Guerreiro

Poeta português



Artigos relacionados:
Poemas e Biografia

Cândido Guerreiro

Francisco Xavier Cândido Guerreiro nasceu em Alte no dia 3 de Dezembro de 1871.
Saiu de Alte com nove anos de idade, quando o seu pai foi nomeado Juiz de Paz em Estói, para onde foram viver. Frequentou a escola primária de S. Brás de Alportel e mais tarde entrou para o liceu de Faro onde não finalizou o curso, pois em 1889, os pais obrigaram-no a abandonar o liceu de Faro para se matricular no seminário Diocesano de Faro.
Em 1891 morreu o seu pai e Cândido Guerreiro, por não sentir vocação, abandonou o seminário e voltou para Alte com a sua mãe, (onde tinham uma pequena propriedade) para a casa da sua professora.
Em 1892 atingia a maioridade e, não tendo condições materiais para ficar em Alte, foi para Loulé. Foi escrivão do Juiz de Paz em Estói e presidente do posto meteorológico de Faro.
Em 1899 foi dirigir a Casa Pia de Beja. Teve um filho que também se distinguiu no mundo das letras: Cândido Xavier Guerreiro da Franca.
Em 1900 foi fiscal de impostos em Faro e, mais tarde, aconselhado pelo poeta João Lúcio, foi para Coimbra tirar o curso de Direito.
Em 1909 casou com Margarida Sousa Costa que conheceu em Coimbra.
Concluído o curso de Direito, em 1910 foi nomeado notário da Comarca de Loulé. Entre 1912 e 1918 presidiu à Comissão Administrativa da Comarca de Loulé.
Em 1921 foi nomeado adido da delegação de Portugal em Haia, mas não aceitou o cargo.
Em 1935, a Casa do Algarve convidou-o a publicar uma monografia e um cancioneiro sobre o Algarve, que também recusou.
Cândido Guerreiro faleceu em 1953, com 82 anos, deixando uma vasta obra literária. Cultivou todos os géneros poéticos mas foi, sobretudo, um mestre do soneto. É também considerado um grande paisagista literário com uma atitude particularmente dramática.



Incêndio

Daqui, desta falésia, cor de lava
Dum amarelo, rútilo e sangrento
Outrora debruçava-se um convento
Sobre a maré tumultuosa e brava…

E, à noite, quando no clamor do vento,
Ao largo, o temporal, se anunciava
E a voz das águas, soluçante e cava
Punha um trovão nas furnas, agoirento

Logo piedosamente, cada monge
Suspendia uma lâmpada à janela
E tangia a sineta para o coro…

E, no mar alto, o navegante, ao longe
Via um farol luzir em cada cela
E cada rocha a arder em sangue e ouro!

Cândido Guerreiro

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Prémio Cervantes 2006




O poeta espanhol Antonio Gamoneda ganhou o Prémio Cervantes 2006 (o Nobel das letras de língua castelhana), concedido pelo Ministério da Cultura em reconhecimento do conjunto da obra de um escritor.

O prémio, no valor de 90.430 euros, foi atribuído por um júri presidido pelo director da Real Academia Espanhola, Victor Garcia de la Concha.

No grupo de favoritos para a atribuição deste prémio, para além de Antonio Gamoneda, estavam os seus compatriotas Juan Marsé, Juan Goytisolo e Ana María Matute, o uruguaio Mario Benedetti e o peruano Alfredo Bryce Echenique.

Antonio Gamoneda, de 75 anos, natural de Oviedo e uma das vozes mais singulares da poesia castelhana, vive em Leon onde dirige há muitos anos a Fundação Sierra-Pambley criada em 1887, e recebeu ao longo da sua vida vários galardões, incluindo o Prémio Nacional de Poesia (1988), o Prémio Castela e Leão das Letras e o Prémio Rainha Sofia de Poesia ibero-americana (2006).
Começou a publicar as suas obras em Espanha em 1960, com a colecção de poemas “Sublevacion inmovil” (1960). A esta obra seguiram-se “Descripcion de la mentira” (1977), “León de la mirada” (1979), “Blues Castellano” (1982), "Lápidas" (1987), “Edad” (1987) (Prémio Nacional de Poesia), “Libro del frio” (1992), e "Sólo Luz" (2000) entre outros. Também publicou estudos monográficos de escultores como "José Luis Sánchez" (1981) e "Júlio Hernández" (1981) e dos pintores "Francisco Echanz" (1978) e Juan Barjola" (1980).

O Prémio Cervantes foi instituído em 1974 com o propósito de distinguir uma obra literária completa, e na lista de poetas galardoados estão:
1976: Jorge Guillén (Espanha, 1893-1984)
1978: Dámaso Alonso (Espanha, 1898-1990)
1979: Jorge Luis Borges (Argentina, 1899-1986) em «ex aequo» com Gerardo Diego (Espanha, 1896-1987)
1981: Octavio Paz (México, 1914-1998)
1982: Luis Rosales (Espanha, 1910-1992)
1983: Rafael Alberti (Espanha, 1902-1999)
1992: Dulce María Loynaz (Cuba, 1903-1997)
1996: José García Nieto (Espanha, 1914-2001)
1998: José Hierro (Espanha, 1922-2002)
2003: Gonzalo Rojas (Chile, 1917)

O prémio será entregue pelo Rei de Espanha numa cerimónia solene que se realizará na Universidade de Alcalá de Henares, em Madrid, e que tem sempre lugar a 23 de Abril de cada ano, data da morte de Cervantes.

Na estante de Culto






Alguns dos mais conhecidos e mais belos poemas de Sylvia Plath, escritos entre 1960 e 1963, na sua maioria escritos nos últimos meses antes do seu suicídio.
Uma espécie de "crónica" do seu suplício, que foi publicada pela primeira vez em 1965 pela Faber & Faber (dois anos depois da sua morte), organizada por Ted Hughes.
Poemas destrutivos e desesperados, mas também ternos, inteligentes e irónicos, onde Sylvia mostra de forma categórica a maturidade do seu génio poético.


Ovelhas no nevoeiro

As colinas descem sobre a brancura.
Pessoas ou estrelas
Olham-me tristemente, desaponto-as.

O comboio deixa o traço da sua respiração.
Oh lento
Cavalo cor da ferrugem,

Cascos, guizos de dor —
Toda a manhã a
Manhã tem vindo a escurecer,

Uma flor posta de lado.
Os meus ossos ganham imobilidade. Campos
Distantes suavizam o meu coração.

Ameaçam
Deixar-me entrar para um paraíso
Onde não há estrelas, não há pais, secreta água.


“Ariel”
Sylvia Plath
Tradução de Fernanda Borges
Relógio D’Água
1996
Bilingue

Recomendo.