domingo, 5 de novembro de 2006

Com Todas As Letras





Livros, Autores e Editores em Debate na Sociedade Portuguesa de Autores


Entre 9 de Outubro e 4 de Dezembro, quinzenalmente, os livros têm invadido o Auditório da SPA.
Sob a designação “Com Todas as Letras – Livros, Autores e Editores em Debate” reúnem-se assim os mais diversos participantes deste universo, discutindo, confrontando ideias e lançando pistas sobre as tendências, problemas e questões pertinentes do sector do livro.
A organização do evento é uma acção conjunta da revista "Os Meus Livros" (OML) e da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).
Os debates são moderados pelo director da OML e acontecem no Auditório da SPA.
A terceira sessão está agendada para o próximo dia 6 de Novembro. “Poesia e Teatro: Filhos de um Deus Menor?” é a pergunta que lança a discussão sobre duas formas de escrita tantas vezes subestimadas nas nossa editoras e livrarias. O porquê desta atitude do mercado (num país que se diz de poetas e com uma ampla dramaturgia) é algo que urge analisar.


Poesia e Teatro: Filhos de um Deus Menor?
Painel:
Jorge Reis-Sá, Edições Quasi
Eugénia Vasques, Professora-Coordenadora na Escola Superior de Teatro e Cinema, crítica de teatro
Vasco David, Assírio & Alvim
Pedro Mexia, crítico literário, poeta
Ernesto Melo e Castro, poeta, ensaísta

Para alguma informação adicional poderá contactar:
“Os Meus Livros” – João Morales – 21 380 40 10
jmorales@oml.com.pt

Sociedade Portuguesa de Autores
DRE - SACI – Maria do Carmo – 21 359 44 78
Gabinete.cultural@spautores.pt
DRE - GANA – Conceição Roberto – 21 359 44 37
gana@spautores.pt
conceicao.roberto@spautores.pt

sábado, 4 de novembro de 2006

Novidades Quasi



"As Núpcias Silenciosas"

Poesia


De Lourdes Espínola, poeta, diplomata, professora universitária, crítica literária e jornalista cultural nascida em Assunção, Paraguai.




"Livro de Estimação"

Poesia

De Jorge Reis-Sá

Poemas onde os afectos e a memória são praticados como se de um culto se tratasse.




"Amargas Cores do Tempo"

Poesia

Nuno de Figueiredo

"Amargas Cores do Tempo" foi distinguido em 2005 com o prémio Natércia Freire.





"Voz Consonante - Traduções de Poesia"

António Ramos Rosa
Prefácio e notas de Ana Paula Coutinho Mendes

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue».
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa — essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
— mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga —
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena
Lisboa, 25/6/1959

Na voz de Mário Viegas:

Jorge de Sena

Jorge Cândido de Sena nasceu em 2 de Novembro de 1919, em Lisboa.
Depois de concluir os estudos do liceu, ingressou na Escola Naval (curso que não concluiu por impedimentos vários), vindo a formar-se em Engenharia Civil na Universidade do Porto.
Ainda durante os estudos universitários, publicou sob o pseudónimo Teles de Abreu, as suas primeiras composições poéticas em periódicos como a "Presença" e foi nessa altura que travou conhecimento com um grupo de poetas que viriam a reunir-se em torno de "Cadernos de Poesia", convivendo então, com José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, Alberto Serpa e Casais Monteiro, entre outros.
Foi no âmbito das edições de "Cadernos de Poesia" que em 1942 foi publicada a sua primeira obra poética: "Peregrinação".
Ainda durante os anos 40, colaborou com "Aventura", "Litoral", "Portucale", "Seara Nova", e "Diário Popular", encetando ainda uma actividade importante na sua actividade literária como tradutor de poesia ("90 e Mais Quatro Poemas de Constantino Cavafy", "Poesia de Vinte e Seis Séculos: I de Arquiloco a Calderón, II – de Bashó a Nietzsche", "Poesia do Século XX", entre outros).
A partir de meados dos anos 40, intensificou, paralelamente à actividade profissional como engenheiro, a sua actividade de conferencista, proferindo comunicações que incidiam frequentemente sobre dois dos seus temas preferidos: Camões e Fernando Pessoa (de quem editaria, em 1947, as "Páginas de Doutrina Estética").
Durante os anos 50, afirmou-se como uma das presenças mais influentes da cultura e literatura portuguesas e foi durante essa década que publicou algumas das suas mais conhecidas obras poéticas ("Metamorfoses", "Evidências", "Fidelidades"); que publicou a sua primeira tentativa dramática, a tragédia "O Indesejado"; que colaborou com publicações como a "Gazeta Musical e de Todas as Artes", "Árvore", "Notícias do Bloqueio", "Cadernos do Meio Dia"; e que organizou a terceira série da antologia "Líricas Portuguesas".
A sua postura contra a ditadura fascista levou-o em 1959, após o envolvimento numa tentativa falhada de golpe de Estado militar contra o regime salazarista, a optar por um exílio voluntário no Brasil, onde exerceu funções de docência nos domínios da Literatura Portuguesa e da Teoria da Literatura, nas Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras de Assis e de Araraquara, em S. Paulo. Publicou então, uma série de obras ensaísticas como "Da Poesia Portuguesa" e desenvolveu uma intensa actividade como congressista, não deixando ainda de, como redactor no jornal "Portugal Democrático", participar em acções de denúncia da ditadura a partir do exterior. Em 1960 publicou o seu primeiro livro de ficção, a colectânea de contos "Andanças do Demónio".
No ano seguinte publicou o primeiro volume da sua obra poética completa. Face aos obstáculos que sistematicamente eram levantados à sua progressão na carreira académica (a sua naturalidade e a inadequação curricular entre a sua formação e o que leccionava), em 1965 transferiu-se para a Universidade do Wisconsin, Madison, nos Estados Unidos da América, em cujo departamento de Espanhol e Português seria nomeado professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira. Em 1970 transferiu-se para a Universidade de Califórnia, em Santa Bárbara, onde viria a ser nomeado dois anos depois, chefe do Departamento de Literatura Comparada e, em 1975, chefe do Departamento de Espanhol e Português. Entretanto, participou em inúmeros congressos internacionais; tornou-se membro da Modern Languages Association e da Renaissance Society of America, nunca interrompendo a edição, quer de títulos de teoria e história literária e estudos literários clássicos, modernos e contemporâneos, quer a obra poética pessoal, publicando, antes e depois da primeira visita autorizada a Portugal em nove anos de exílio, entre 1968 e 1969, os livros de poesia "Arte de Música" e "Peregrinatio ad Loca Infecta".
Após o 25 de Abril recebeu várias homenagens públicas em Portugal, tendo sido condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique e, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada.
No ano da sua morte, em 1978, vieram a público, revistos pelo autor, os volumes "Poesia II" e "Poesia III", a que se seguiriam, postumamente, os volumes "40 Anos de Servidão" e "Post Scriptum II".

Obras: "Perseguição" (1942), "Coroa da Terra" (1946), "Pedra Filosofal" (1950), "As Evidências" (1955), "Fidelidade" (1958), "Poesia I" – inclui os volumes anteriores e "Post Scriptum" (1961), "Metamorfoses" (1963), "Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena" (1963), "Arte da Música" (1968), "Peregrinatio ad Loca Infecta" (1969), "Exorcismos" (1972), "Trinta Anos de Poesia" – antologia (1972), "Poesia II" – "Fidelidades", "Metamorfoses", "Arte da Música" (1978), "Poesia III" – "Peregrinatio ad Loca Infecta", "Exorcismos", "Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos", "Conheço o Sal... e Outros Poemas", "Sobre Esta Praia" (1978), "Quarenta Anos de Servidão" (1979), "Sequências" (1980), "Visão Perpétua" (1982), "Post Scriptum II" (1985), "O Indesejado" (1951), "Amparo de Mãe e Mais Cinco Peças em Um Acto" (1974), "Andanças do Demónio" – contos (1960), "Novas Andanças do Demónio" – contos (1966), "Os Grão-Capitães" – contos (1976), "O Físico Prodigioso" – novela (1977), "Sinais de Fogo" – romance (1979), "Génesis" – contos (1983), "Uma Canção de Camões" (1966), "Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular" (1969), "A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI" (1970), "Dialécticas da Literatura" (1973), "Maquiavel e Outros Estudos" (1974), "Sobre Régio, Casais, a "Presença" e Outros Afins" (1977), "Dialécticas Aplicadas da Literatura" (1978), "Trinta Anos de Camões" – 2 vols. (1980), "Fernando Pessoa e C.ª Heterónima" (1982), "Estudos de Literatura Portuguesa I" (1982), "Estudos de Literatura Portuguesa II" (1988), "Teixeira de Pascoaes – Poesia" (1965), "Líricas Portuguesas" – 2 vols. (1975, 1983).

Hoje nasceu...





02 de Novembro de 1919

Jorge de Sena

Escritor português



Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
; Requiem de Mozart ;

terça-feira, 31 de outubro de 2006

Portal Pessoa




O Portal Pessoa, da Associação A Alma - Associação da Literatura Modernista (uma nova associação, sem fins lucrativos, dedicada à literatura portuguesa e modernista) é um portal de internet dedicado ao poeta Fernando Pessoa onde se publica ensaios sobre literatura portuguesa, provenientes de todo o mundo.
É, assim, um novo espaço onde académicos, profissionais, e outros interessados podem publicar os seus trabalhos e partilhá-los com outros leitores. A intenção é que a publicação contínua de novos trabalhos forme uma valiosa base de dados de ensaios sobre a literatura portuguesa e modernista.
Neste momento, o Portal Pessoa já tem três ensaios — dois ensaios em português, da autoria de José Blanco e de Richard Zenith e um ensaio em inglês, da autoria de Bernard O’Donoghue, e procura novos trabalhos para publicar.

Pode ser visitado em: http://www.portalpessoa.org
Aqui fica, Luís, uma prenda de aniversário (minha e do Luís Gaspar). Uma gravação audio do teu poema “Afectos”:



Afectos

Fiquei a saber num destes fins-de-tarde
que se podia estar subnutrido de ternura
e afoguei-me no desânimo que me acenava do horizonte

Caiu-me uma pérola húmida do olhar
pensei apenas em guardar em mim
a saudade das carícias tecidas em silêncio

Não foi possível, acendeste-me o desejo dos teus dedos
apetecia-me beijar-te como quem afaga um charuto com os lábios
vendo subir aos céus o fumo do teu cio

Fiquei a saber numa destas noites de lua cheia
que se podia estar subnutrido de ternura
caiu-me uma pérola húmida do olhar

Apesar de os lobisomens
não se poderem dar ao luxo de cultivar mágoas
nas plantações do estio que passa

Apenas lhes é concedido o grato subterfúgio
de uivar nas trevas como quem urde um poema
às escondidas de Deus

Fiquei a saber numa destas manhãs de trovoada
que o teu corpo era feito de raios e coriscos
e que os teus pais não te deixavam fazer amor sozinha

Por terem medo
dos teus gritos de prazer
na hora de te sentires mulher

Mesmo assim fazias amor sozinha
dispensando-me o teu corpo
em marés de luz

Fiquei a saber numa destas madrugadas de fogo
que a ternura está guardada num baú
disfarçado de cofre à prova de sentimentos

Nessa mesma hora
senti o meu ser
a dissolver-se devagar

Ao longe, muito ao longe
lembro-me de ter sentido um arrepio na alma
como se tivesses pintado o teu sorriso no meu peito

Luís Graça


Luís Graça

Luís Graça nasceu em 31 de Outubro de 1962 em Lisboa (como ele próprio costuma dizer, nasceu de cesariana no Dia das Bruxas, à hora em que a cidade acordava para mais um dia de trabalho).
Frequentou o curso de Direito na Universidade Clássica de Lisboa até ao 2º ano, que interrompeu quando se apaixonou pela escrita publicitária (foi redactor criativo na Team/Protásio — actualmente Young & Rubicam) e mais tarde, dedicou-se ao jornalismo.
A escrita, mais do que uma profissão é para ele uma devoção. Começou no DN Jovem e ficou-lhe o “vício”. Tem alguns prémios de teatro, o último dos quais na edição 2000 do concurso “Novos Textos” (Inatel), com a peça "Meia dúzia de maldades", que obteve o terceiro lugar. Em 1987 uma peça sua premiada pelo FAOJ ("Viver é o que está a dar o tilintar das almas") esteve em cena durante um mês, no palco do Trindade.
Também já foi premiado em poesia, conto e pintura.
Obteve também o 1º prémio semanal DN Jovem, com o poema “Conto de fadas”; menção honrosa no concurso de poesia de Fânzeres/Gondomar, com a obra “Veneno de Outubro” (1992).
Um poema seu foi incluído na colectânea de poesia "Ventana à la nueva poesia portuguesa", editada no México pela Editora Desierto.
Luís Graça escreve de tudo: contos, poesia, romances, crítica de banda desenhada, argumentos para banda desenhada... e postais, bilhetes, bocados de toalhas de papel dos restaurantes... para os amigos.
É um amante de BD, Jazz, literatura, cinema, desporto e muito recentemente... de hidroginástica.
Luís Graça é um Bocage dos tempos modernos. O humor é o seu território de eleição, mas ao espírito cáustico gosta de juntar uma pitada de romantismo. Como ele próprio diz, a sua bússola é o humor; mais do que fazer amor, importa fazer humor com as palavras, para que estas não se percam.
Gosta de se apelidar de “poeta maldito”, mas Luís é um “poeta bendito”. Bendito pela Musa, pelo Humor e pela Amizade.


Obras individuais:
“A Idade das Trovas” (Universitária Editora, 1998), sob o pseudónimo de Inocêncio Pinga Amor (poesia); “Meia Dúzia de Maldades” (Inatel), teatro; “O homem que casou com uma estrela porno e outros contos perversos” (Editora Polvo, 2003, contos); “De Boas Erecções está o Inferno Cheio” (Editora Polvo, 2004, poesia erótica); “Neura 2004” (Editora Oficina do Livro, 2004, romance); “Fado, Futebol e Farpas” (Edição de autor, 2006, romance).

Principais obras colectivas: “100 Anos Federico Garcia Lorca, homenagem dos poetas portugueses” (Universitária Editora); “Antologia da Poesia Erótica” (Universitária Editora); Antologia DN Jovem (Editorial Notícias); participações nos “Florilégios de Natal” (Universitária Editora), Cadernos
de poesia “Viola Delta” (Edições MIC), “SOL XXI” (Edições SOL XXI), fólios de poesia “Petrinia” (Liga dos Amigos de Alpedrinha); “Neruda, Cem anos Depois” (Universitária Editora, 2004).

Na net: www.escritateatral.net (em Dramaturgos), com links para página da APAD (Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos) e Jota Mais (DN Jovem); página da Portuguese Film Comission; várias edições da storm magazine.com, com um conto na rubrica sobre Comunidades de Leitores e críticas literárias. Recensões de BD em www.centralcomics.com e www.bizarro.cc.
Blogues pessoais:
http://15desatinonimos.blogspot.com
http://gandaordinarice.blogspot.com
http://sexonanoite.blogspot.com

Hoje nasceu...





31 de Outubro de 1962

Luís Graça

Poeta português



Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: Afectos

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Um Bar que é uma livraria de Poesia

Depois do bar, a livraria de Poesia. Os “Da Mariquinhas”, que também aceitam ser conhecidos por “Os Mariquinhas”, dão-nos notícia da abertura da outra parte do estabelecimento. Se na primeira sala funciona um simpático bar, abrirá agora a segunda sala para, espantem-se os amigos e clientes, provavelmente, a única livraria de poesia de Lisboa e arredores.
Segundo eles próprios “éclogas recentes, livros raros, alcóois fortes, e empregados poliglotas que falam com enorme desconhecimento da causa.”
Uma livraria que terá livros das editoras: &etc, frenesi, cotovia, editorial lumen, visor de poesía, l&pm, assírio & alvim, asa, mariposa azual, city lights books, quasi, presença, teorema, quetzal, relógio d'água e, claro, edições de autores.
A abertura será já depois de amanhã, quarta-feira 1 de Novembro, ao meio-dia. O encerramento está previsto para a meia-noite.
Posso já adiantar-vos que a abertura terá três livros em promoção: “O Tanatoperador”, de Manuel da Silva Ramos (Fenda); “Mancebos Solteiros do Mar”, de Carlos Mota de Oliveira (ed. autor); e “Poemas da Prisão e do Exílio”, de Nazim Hikmet (& etc).
Não é preciso dizer mais nada, pois não?
Eu, vou!

Ah! “Da Mariquinhas” fica na Rua dos Cordoeiros, 8/10, ao Largo de Santo Antoninho, Bica, Lisboa.
E o blogue deles está em: http://da-mariquinhas.blogspot.com

domingo, 29 de outubro de 2006

Poemas em voz alta

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito-hipotético mais humanidade do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre
o que não nasceu para isso;
Serei sempre só
o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e, não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando os pés e a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe
Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos
15/1/1928

Na voz de Luís Gaspar:

sábado, 28 de outubro de 2006

Prémio hispano-luso de tradução tem o nome do poeta José Bento


O Prémio Hispano-Luso de Tradução terá a partir de agora o nome do poeta e tradutor português José Bento, o primeiro autor distinguido com este galardão. Esta decisão foi anunciada em Cáceres, Espanha, onde decorreu o encontro «Agora, o debate peninsular».
Numa cerimónia realizada no Palacio de la Diputácion Provincial de Cáceres, o presidente do júri e da Associação de Escritores Extremenhos, Antonio Saéz, declarou que, deste modo, se reconhece e distingue «o excelente trabalho» de José Bento, responsável pela tradução de mais de 50 obras de poetas espanhóis.
Na sua intervenção, José Bento agradeceu o prémio concedido pela Junta da Extremadura, que definiu como «a entidade que mais e melhor se tem dedicado ao conhecimento luso-espanhol» e evocando a sua carreira de poeta e tradutor, enumerou algumas das figuras ilustres da poesia espanhola cuja obra procurou trazer ao conhecimento dos portugueses.
Para o poeta e tradutor Francisco Brines, também presente na cerimónia, a obra de Bento «é a mais completa de tradução do espanhol para qualquer língua. (...) Se desaparecessem todos os livros da poesia espanhola e apenas ficasse a obra de Bento, o nosso legado poético estaria a salvo».

José Bento nasceu no litoral da zona de Aveiro, em 1932. Estudou no Porto e em Lisboa.
Nos anos 50, revelou-se como poeta em revistas de poesia como Árvore, Eros, Cadernos do Meio-Dia e Cassiopeia, de que foi um dos directores. É autor de vários livros de poesia, entre os quais «Sequência de Bilbau» (1978), «O enterro do senhor de Orgaz» (1986), «Silabário» (1992) e «Um sossegado silêncio» (2002).
Poucas vezes se preocupou em reunir os seus poemas em livro, pelo que o seu nome é normalmente citado como excelente tradutor de numerosos poetas de língua espanhola, clássicos ou actuais (S. Juan de la Cruz, Pablo Neruda, Cernuda, Quevedo, Jorge Manrique, Lorca, Vicente Aleixandre, César Vallejo). Traduziu também para português «Dom Quixote», de Miguel de Cervantes.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

E agora... recordando Verlaine e... Ferré



Chanson d'automne

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

Paul Verlaine

Ainda recordando Rimbaud

Acerca do post publicado neste blogue no dia 20 de Outubro passado (data do nascimento de Jean Arthur Rimbaud), Joaquim Cascais, “habitué” cá da casa enviou-nos, para nosso deleite, esta preciosa informação:


«Rimbaud é, como soe dizer-se em relação às palavras, como as cerejas, começa-se procurando os seus poemas, entra-se na biografia e aos poucos vai-se descobrindo variadíssimas manifestações em torno da sua obra acabando por encontrar-se Léo Ferré.
Foi assim que descobri uma versão do “Les Assis” dita por Léo Ferré, um libelo contra os bibliotecários que se recusam a deixar suas poltronas para atender os leitores e, a partir dela, encontrar a história do amor que Ferré nutria por Rimbaud e Verlaine.


Em 10 Outubro de 2004, um apaixonante CD duplo foi lançado pela editora discográfica (um editora familiar) “La Mémoire et la Mer” sob o título “Maudits soient-ils” dedicado a Rimbaud e a Verlaine e cantado ou dito pelo terceiro poeta “maldito” Léo Ferré.
É constituído, em parte, por registos encontrados nas cassetes de trabalho do cantor: ao que consta registos que o próprio Ferré fazia para o seu gravador pessoal muitas vezes deambulando pelo apartamento enquanto “dizia” para o suporte magnético. Posteriormente viria, por vezes, a musicar alguns dos poemas. Grande parte dos incluídos neste álbum são inéditos (21 poemas de Rimbaud e 24 de Verlaine) uns cantados à capela outros acompanhados ao piano. Pode-se dizer que este álbum surge graças ao filho de Ferré, Mathieu, que depois da morte do pai veio a descobrir estas gravações.



Não era a primeira vez que surgia um álbum de Ferré sobre estes dois poetas, bem pelo contrário, desde 1964 que eles apareceram. O primeiro editado pela Barclay em 01-06-64 era um LP de 33 rotações “Verlaine et Rimbaud chantés par Léo Ferré” - contendo apenas 24 poemas no total dos dois poetas, contudo, muito material de preparação do disco ficou por gravar, tendo sido já algum aproveitado numa reedição em 1991 e outra parte nesta edição de 2004.
Para além destes Ferré dedicou a Rimbaud, que eu me recorde, pelo menos outro dos seus álbuns “Une Saison en Enfer” e musicou vários poemas dele (La Maline; Le Bateau Ivre; etc) dispersos por outros álbuns.








Vários poemas ditos à capela ou acompanhados ao piano, para ouvir ou para telecarregamento, estão à disposição de quem consultar o site www.leo-ferre.com»

Joaquim Cascais

Papoilas em Julho

Pequenas papoilas, pequenas chamas do inferno,
Vocês não fazem mal?

E tremeluzem. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos entre as chamas. Nada queima.

E fico exausta ao olhar-vos
A tremeluzir assim, pregueadas e de um vermelho vivo, como a pele de uma
boca

Uma boca que acabou de sangrar.
Pequenas bainhas ensanguentadas!

Há fumos que não posso tocar.
Onde está o vosso ópio, essas cápsulas que dão náuseas?

Se eu pudesse esvair-me em sangue, ou dormir –
Se a minha boca pudesse casar com uma ferida assim!

Ou se os vossos venenos pudessem penetrar em mim, nesta cápsula de vidro,
Para me entorpecerem e aquietarem.

Mas sem cor. Sem cor nenhuma.

Sylvia Plath

Pela água

Um lago negro, um barco negro, duas pessoas negras em papel recortado.
Para onde vão as árvores negras que bebem aqui?
As suas sombras devem cobrir o Canadá.

Das flores aquáticas sai filtrada uma luz ténue.
As suas folhas não querem que nos apressemos:
São circulares e sem relevo, cheias de conselhos obscuros.

Mundos frios agitam-se com os remos.
O espírito da escuridão está em nós, está nos peixes.
Um ramo submerso ergue uma mão pálida em despedida;

As estrelas abrem-se entre os lírios.
Não ficas cego com a mudez de tais sereias?
Este é o silêncio das almas já perturbadas.

Sylvia Plath

Sylvia Plath

Sylvia Plath nasceu em Boston (nos Estados Unidos) em 27 de Outubro de 1932.
Em 1940 morreu o seu pai, Otto Plath (um cientista de ascendência germânica), facto que a marcaria para toda a sua vida. Sylvia tinha então oito anos e o irmão, Warren, cinco.
Aurelia Plath, sua mãe, suportou estoicamente aquela morte, transmitindo em certo sentido esse gesto aos filhos, trabalhando arduamente para lhes proporcionar uma educação que se enquadrasse nos cânones da classe média da Nova Inglaterra.
A infância e a adolescência de Sylvia foram marcadas por um percurso escolar exemplar. Obteve sempre as notas máximas, entrou para o Smith College com uma bolsa e publicou vários trabalhos literários, tendo ganho diversos concursos.
Em 1952, a publicação na revista Mademoiselle, de "Sunday at the Minton’s", proporcionou-lhe uma bolsa para frequentar, no ano seguinte, um seminário em Nova Iorque. Nessa época, Sylvia escreveu uma carta à mãe, revoltando-se por ela ter votado em Eisenhower, demonstrando-se uma opositora radical do senador McCarthy e do envolvimento americano na Coreia. Ao regressar a casa, em Agosto, deixou um bilhete à mãe dizendo-lhe que tinha ido dar um longo passeio. Muniu-se de um frasco de comprimidos e escondeu-se num espaço remoto da sua casa. Foi a sua primeira tentativa de suicídio. Descoberta dois dias depois, passou cinco meses em McLean’s, uma clínica psiquiátrica de Belmont. A escritora Olive Higgins custeou o seu internamento.
Em 1954 regressou ao Smith College e trabalhou obsessivamente em torno da sua dissertação sobre as duplas personalidades em alguns passos da obra de Dostoiévski. Colaborou entretanto em revistas, como Seventeen, Mademoiselle, Atlantic Monthly, e em publicações universitárias. Sylvia acabou em 1955 o curso no Smith College e recebeu uma bolsa Fulbright graças à qual foi ensinar para Inglaterra. Aí conheceu o poeta Ted Hughes, com quem casou em 1956. Viajaram por Paris e por Espanha. No ano seguinte foram ambos para os Estados Unidos dar aulas. Nesse ano, Sylvia recebeu o Prémio Bess Hokin da revista Poetry. Resolveu então abandonar o ensino para se dedicar, a tempo inteiro à produção literária, e regressou em definitivo a Inglaterra.
Em 1960 nasceu a primeira filha do casal, Frieda. No mesmo ano, Sylvia publicou o seu primeiro livro de poesia "The Colossus". No ano seguinte, concluiu "The Bell Jar" (A Campânula de Vidro), o qual seria editado em 1963 sob o pseudónimo de Victoria Lucas.
Em 1962 nasceu o segundo filho, Nick. No mesmo ano completou "Three Women: A Monologue for Three Voices". Alguns meses depois, separou-se do marido. Nesse espaço de tempo começou a ser produzida a poesia da sua obra prima, "Ariel" e "Winter Tree". A Inglaterra conheceu então um inverno como não havia memória, a água gelava nos canos e o aquecimento rareava. Sylvia sofreu de uma pneumonia mas continuou a escrever diariamente. Algumas semanas depois do lançamento do seu livro "The Bell Jar", Silvya fechou-se na cozinha ainda de madrugada, calafetou portas e janelas, ingeriu alguns comprimidos, sentou-se no chão com cabeça dentro do forno e abriu o gás. Tinha deixado leite para as crianças e uma carta destinada a uma psiquiatra com quem mantinha desde há muito uma relação de amizade.
"Ariel" foi publicado em 1965, sob a orientação de Ted Hughes.

Hoje nasceu...




27 de Outubro de 1932

Sylvia Plath

Poetisa norte-americana


Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: Pela água ; Papoilas em Julho

Na estante de culto: Ariel

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Já saiu o 8º volume da revista “Saudade”






Este volume 8 da revista de poesia “Saudade”, é dedicado ao conceito de universalidade em Arte e tem poemas de 40 poetas (portugueses, galegos, brasileiros e um angolano), nomeadamente Amadeu Baptista, António Salvado, Carlos Vaz, Casimiro de Brito, Daniel Gonçalves, Fernando Grade, João Ricardo Lopes, José Luís Peixoto, Juliana Miranda, Maria do Sameiro Barroso, Nicolau Saião, Pompeu Martins e Sérgio Pereira, entre outros, que dialogam com a ideia-epígrafe de Ruy Belo “O receio da morte é a fonte da arte”.

Esta revista semestral surgiu em 2001 no âmbito da programação da Associação Amarante Cultural, dirigida por António José Queirós, inspirando-se no testemunho poético de António Nobre e Teixeira de Pascoaes.
Com uma tiragem de 500 exemplares, a revista “Saudade”, que insiste em contrariar o “vazio” no mercado da poesia, encontra-se já disponível nas livrarias de todo o país, podendo igualmente ser pedida na sede da Associação Amarante Cultural.


Aqui fica um “cheirinho”, com um poema de Carlos Vaz:



por entre as coisas da sala
há uma jarra cheia de água

os objectos que a perpassam
tomam um corpo arredondado a meio e esguio no alto
encerrando nela uma forma geometricamente descoordenada de existir

tomo-a como o centro de uma circunferência
e giro em redor como só os satélites o fazem
entre mim e as coisas, jogam-se, assim, novas formas de ver
o mundo que está no mundo

no lado diurno da circunferência
habitam os rostos e os objectos que me observam
aprisionados como os génios em lamparinas
ou secretas mensagens à deriva numa garrafa

no lado nocturno, habitam os olhares dos cegos
que, como borboletas, avançam na espiral do jogo
até as sombras da incerteza e as imagens descuradas do real
encherem o copo do poema

Carlos Vaz

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Poemas em voz alta

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa
(Cancioneiro)


Na voz de Luís Gaspar: