sábado, 17 de julho de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


É nosso o Solo Sagrado da Terra
Alda Espírito Santo
Ulmeiro, 1978







AVÓ MARIANA


Avó Mariana, lavadeira
dos brancos lá da Fazenda
chegou um dia de terras distantes
com seu pedaço de pano na cintura e ficou.
Ficou a Avó Mariana
lavando, lavando, lá na roça
pitando seu jessu
à porta da sanzala
lembrando a viagem dos seus campos de sisal.

num dia sinistro
p'ra ilha distante
onde a faina de trabalho
apagou a lembrança
dos bois, nos óbitos
lá no Cubal distante.

Avó Mariana chegou
e sentou-se à porta da sanzala
e pitou seu jessu
lavando, lavando
numa barreira de silêncio.

- Os anos escoaram
lá na terra calcinante.

- «Avó Mariana, Avó Mariana
é a hora de partir.
Vai rever teus campos extensos
de plantações sem fim».

- «Onde é terra di gente?
Velha vem, não volta mais...
Cheguei de muito longe,
anos e mais anos aqui no terreiro...
Velha tonta, já não tem terra
Vou ficar aqui, minino tonto».

Avó Mariana, pitando seu jessu
na soleira do seu beco escuro,
conta Avó Velhinha
teu fado inglório.
Viver, vegetar
à sombra dum terreiro
tu mesmo Avó minha
não contarás a tua história.

Avó Mariana, velhinha minha,
pitando seu jessu
na soleira da sanzala
nada dirás do teu destino...
Porque cruzaste mares, avó velhinha,
e te quedaste sozinha.

_______
Jessu: Cachimbo de barro

1 comentário:

Cíntia Thomé, Jornalista, Poeta . disse...

Sempre um mar de amor e poesia...trafega na luz das palavras tantas. Adoro vire aqui...abs