quarta-feira, 25 de março de 2009

Os vossos poemas

Caros etéreos,
Participaram neste passatempo 38 pessoas que enviaram um total de, imaginem, 317 haiku!
Como compreenderão, ao contrário do que tinha prometido, não vai ser possível publicá-los todos.
Optei por escolher apenas um haiku por participante para ser gravado em áudio pelo diseur Luís Gaspar, que aqui fica:



Reflexos

A flor reflectida
Fragmenta em símbolos de água
O olhar do infinito.

Carla Ribeiro


***

sem teus abraços
o mundo é sozinho
nudez afiada

Soraia Martins

***

Volto sempre cá
onde a essência
perfeita fica.

Paula Raposo

***



Cadê o cê daqui
Parece que sumiu sim
Tenho que achar

Marcelo Torca

***

Em noite de luar
Há nos teus olhos lágrimas
Da cor do Outono

Susana Custódio

***

Sente o corpo aberto
já nele ninguém reside,
só um coração bate.

Alexandra Malheiro

***

Liso o céu cinzento,
de neve a planície toda.
Pássaros com fome.

Nuno Dempster

***

— Bejo-te logo?
— Xim amor, bem xedo!. E...
Traz mais bagaxo!

Álvaro Santos


***

Nenúfares no lago:
uma mesa que Deus põe
a flutuar no vidro.

João Tomaz Parreira

***

Hóspedes das águas
as nuvens brincam no rio:
fogem do céu azul...

Clevane Pessoa de Araújo Lopes


***

Silêncio

ouvir o suave
som da pétala da flor
a abrir ao Sol.

Tmara

***

sentimentos são água
quem nada
Tudo

Renato de Mattos Motta


***

No fundo do mar —
uma concha adormece
sem ruído.

Lucília Saraiva Pereira

***

Gerar o tempo
p'ra não perder nenhum dos
teus crepúsculos.


Tiago Nené


***

falavas muito
pouco mas tinhas voz
de abelha mestra


Luís Brito Pedroso


***

Neste céu sem nuvens,
o sol madrugou em ti.
É quase Verão.


António José Queirós


***

Tenho livros lido
Mas lendo sempre mui lento
Leio repetido.


Célia Lamounier de Araújo


***
nos prostíbulos
há mulheres acesas
luzem nos quartos.


José Miguel de Oliveira


***

adrenalina,
cada um tem a sua,
e aspirinas...

José Kuski Vieira


***

Mar em fúria
Os pescadores em terra
Jogam às cartas


J. Caldas

***

porosidade
entre som e palavra
nossos sentidos


Francisco Coimbra


***

Ó se faz favor!
Bica e bagaço
Em balão quente!


Luís Graça


***

fica perto de mim
a vereda de um bosque
de verde infinito


Jorge Castro


***

Cisne branco a voar
nas rugas das mãos da avó.
Sorriso eterno.


Luís de Aguiar

***

Mãe carinhosa
No teu regaço sinto
A luz do Amor


Jorge Barroso

***

Baço pensamento
Como uma lupa constante
Procurando luz


Maria de Lourdes Barni

***

E dentro de mim
eu amo as tuas mãos
Além da pele.


Graça Magalhães

***

Verão

Fiapos nos dentes
o rosto todo amarelo
É tempo de manga


Eunice Arruda


***

Tocar a terra
no chão molhado
do teu corpo


Otília Martel


***

Um raio de sol
acordou o pássaro
rasgou a manhã.


Fernanda Sal Monteiro

***

Velas na baía
Salgueiros sobre a falésia
– E o forte vermelho


Myriam Jubilot de Carvalho


***

Praia só,
frio e nós, a fogueira,
ficaremos...


Carlos Teixeira Luis

***

Sensuais, dançam
valquírias entre faunos
ao entardecer


Regina Gouveia

***

Na lagoa
a rã coaxa.
Vida boa!


Adauto Suannes

***

Na janela aberta
O espanta espíritos
Atrai os sonhos


Ilona Bastos


***

Trago-te o sabor
Na ponta dos dedos nus
Palpando o Verão


Alexandre Homem Dual

***

chove à tarde,
estou só e guardo
as horas cruas.


José Ribeiro Marto


***

Inverno rigoroso —
gota a gota
Veneza é engolida


Nuno Graça

***

na folha de lótus
uma rã prepara o salto

a lua tão perto


Leonilda Cavaco Alfarrobinha

***

Como sabem, este passatempo foi patrocinado pela Cosmorama Edições, que ofereceu 9 livros para os primeiros a responder.
Assim sendo, receberão os seguintes livros:

Carla Ribeiro:
"Para que ninguém sobreviva ao perdão" de Pedro Gil-Pedro (2008)
Soraia Martins:
"Marcas de urze" de Catarina Costa (2008)
Paula Raposo:
"De haver relento" de Andreia C. Faria (2008)
Marcelo Torca:
"O percurso da Luz" de Carlos Alberto Braga (2006)
João Tomaz Parreira:
"O percurso da Luz" de Carlos Alberto Braga (2006)
Susana Custódio:
"A Vocação dos Homens Silenciosos" de Sandra Costa (2006)
Alexandra Malheiro:
"A Vocação dos Homens Silenciosos" de Sandra Costa (2006)
Nuno Dempster:
"Assim na Terra" de José Rui Teixeira (2005)
Álvaro Santos:
"Iniciação ao Remorso" de Jorge Melícias (2005)

Deixo-vos ainda com mais alguns haiku dos que chegaram (mais 5, no máximo, por participante):


maçã, amora
a tua, lábios de seda
boca-veludo

o grito no fim
é piano esquisito
morto e seco

a música voa
dedos grandes, bandidos
guitarras nos pés

Soraia Martins

***

sempre é tempo
da palavra de amor
feita caminho


é de súbito
do poema eleito
mil vezes o som

Paula Raposo

***

Modéstia do corpo
a nudez duns seios nus
entre dois vestidos.

Gaivotas no mar:
ramos da copa das águas
cheios de brancas folhas.

A pedra no lago
parte em círculos um Narciso
que se vê ao espelho.

Atrás da janela
estão o pássaro e a rosa:
presos ao seu corpo.

João Tomaz Parreira

***

Vento no Outono frio
Sopra a vida que me deste
Nas folhas caídas

Foi ontem nós juntos
A fonte jorrou amor
Em néctar dos Deuses

No Inverno frio
Do meu descontentamento
Chega abraço quente


Inverno tão triste
Entre árvores caídas
Manhã submersa

Agora cai chuva fina
Folhas secas velam o chão
Odor de Outono

Susana Custódio

***

Pingentes nas folhas,
mistérios da madrugada
quando o orvalho cai?

Corpo cobre corpo
O sangue borbulha
Frio vai-se embora


Madrugada clara
No decote do horizonte
Um colo rosado...

Fita de luz: réstia
onde a poeira tem estrelas...
Sol de nebulosa

Reflexo de prata:
Luar despeja-se no mar
– Espelho do céu

Clevane Pessoa de Araújo Lopes

***

Alegria

luminoso som
claro riso de criança
flor que desabrocha.

Paz

cristalino som
de água. perfumada
brisa. laranjeiras.

Lua

distante farol
barco na profundidade
dos distantes céus.

Espera

um tempo sem tempo
ausência de sentido
desfolhar da flor.

Alentejo

cavalo de luz
dorso que se oferece
nos raios de SOL.

Tmara

***

apartamento gelado
a pilha de roupas respira
o gato usa cueca no pescoço

Renato de Mattos Motta

***

A minha casa
perdida no oceano
lençol branco contra o céu.

Céu plúmbeo,
vento gélido
os meus passos no temporal.

As pétalas caem
e a cascata corre
os nosso corpos nus no onsen.

Numa mão
seguro o vento,
na outra, também.

As folhas húmidas
o breve murmúrio
do aguaceiro.

Lucília Saraiva Pereira

***

O piano mudo
De velho sofre e revela
Seu corpo desnudo.

Morre em paz a rosa
sorrindo em pétalas...
seu dever, formosa.

Tal sol, com calor...
Homem, seja tu semente
de paz, bem e amor...

O verde se pinta
Mostrando serenas tramas
Recriando a tinta.

No céu, uma flor
De nuvens bem feita nunca
Recebeu amor.

Célia Lamounier de Araújo

***

Dias de chuva
Os chapéus abrem-se
As flores aguardam

Campos de neve
Uma ave negra
Desfaz o sonho

Numa árvore despida
Um ninho espera
Pelo amanhã

Olho pela janela
A chuva cai
O tempo escorre

Percorri a floresta
Não me perdi
Mas saí outro

J. Caldas

***

contigo eu sou...
como relva a crescer!
um touro solto

Francisco Coimbra

***

Rasguei-te carne,
Tripas, ventre, coração
Mas não foi por mal

O falo em ti
Teu coração em mim
Divina bênção

És oiro, prata, jade
Seios de cristal
Olhar de fêmea

Haiku gajo ‘tá
Mais ou menos tarado
E sem melhoras

Um anjo fugiu-me
Naquela madrugada
Tão sorrateiro

Luís Graça

***

o vento que surge
nos meandros da floresta
é a festa das nuvens

se por ver se sabe
um olhar abre janelas
da cor da dádiva

para cá do além
sem ter longe a distância
confunde-se em nós

Jorge Castro

***

Jarro na cabeça,
água nos olhos da aldeã.
O rio das mil fontes.

Mãe triste a bordar,
a criança suja na terra.
Campos por lavrar.

Cavalo da terra
corre veloz pelos prados.
O vento no dorso.

Melros e pardais
nos ramos de um castanheiro,
as ovelhas pastam.

Uma nuvem branca,
um barco vagueia no mar:
os peixes nas redes.

Luís de Aguiar

***

Ser feliz é ter
A luz da sabedoria
E da palavra.

Criança feliz
Cheia de Amor e Paz
Flor do meu jardim.

Jorge Barroso

***

Olha para o espelho
Veja a pureza do rosto
E cobre-o com véu

Nimbo pardacento
Verão com gosto de inverno
Céu sombrio cinzento

Malubarni

***

Tocar o céu
na bruma do desejo
infinito…

Tocar o mar
nas ondas salgadas
da tua boca

E perder nos
teus braços o último
fôlego de Vida…


Otília Martel

***

Mar e céu azul
Amendoeiras, pinheiros –
Areia, distância

Ontem foi manhã
Eras tu e o sol a arder –
E um filme sem fim

As rochas, o Guincho,
Safiras, asas, e bruma
– Os ventos, o mar

Areias no vento
Ladram os cães no quintal
– Calma, caravana

Perdeu-se na bruma
A criança sem cabeça
– E agora e agora?

Myriam Jubilot de Carvalho

***

Bicicleta veloz,
brisa de norte, estrada,
eu acompanho-te.

Frio de Janeiro,
cabelos longos, casa
comigo, mulher bela.

Bicicletas lentas,
a força do mar e o céu
ameaçador.

Carlos Teixeira Luis

***

Flutuou no ar
um scherzo em ré menor
e o dia nasceu

Chorou a nuvem
e um colar de pérolas
cobriu a terra

Nasceu a manhã
e ocultou-se na bruma
o silêncio

Os astros cantam
alegre melopeia
no surdo cosmos

A criança riu
O riso cristalino
adoçou o ar

Regina Gouveia

***

Eis a Primavera!
Botões florescem no vaso
Pintado no quadro

Na manhã nublada
Um raio de sol brilha
Num sorriso belo

O longo abraço
Da cortina sobre si
Mostra o arvoredo

Na mimosa flor
Que da árvore voou
Vi o Universo

Pólen a pairar
Em raio de sol poente
Planta um jardim

Ilona Bastos

***

habita a luz
coração inocente,
foge da treva.

chamo por ti,
vem uma estrela nua
pousar na água.

ao sol quente,
o gato pinga horas
abismado.

o nó dos dias
esse baraço solto
quando cai.

há um relógio
aqui a pulsar sangue
orvalho e luz.

José Ribeiro Marto

***

Eis a Primavera
E a tiara de andorinhas
Cobrindo-lhe a testa.

No Outono escarlate
Sinto-te as folhas dançando
Pousadas nos lábios.

Com as mãos, afasto
-te a branca neve dos ombros
No estertor do Inverno.

No final dos ciclos
Sobram as palavras vãs
P'ra nos confortar...

Alexandre Homem Dual

***

Milhares de mãos
depositam sonhos
numa urna

Haiti —
lágrimas desesperadas
removem os escombros

Jantar abundante —
Ela, tal como a Lua,
cheia

Crise —
depois do último cheque
não voltei a mexer as peças

Nuno Graça

***

ao cair da noite
respiração da cidade
o regresso a casa

sol da manhã
penteio o meu cabelo
na varanda

manhã de neblina —
ameixieiras em flor
acendem o dia

baloiçando ao vento
papagaios de papel
o coração voa

memória de infância
meu avô agricultor
semeando o trigo

Leonilda Cavaco Alfarrobinha

***

Some
depois do almoço
a minha fome.

Adauto Suannes

***

Obrigada a todos os participantes; obrigada à Cosmorama pelos livros oferecidos e obrigada ao Luís Gaspar, pela gravação.
E... até ao próximo passatempo etéreo!

7 comentários:

Anónimo disse...

Estás de parabéns e peço-te para os aceitares.
Tantos haiku é obra; significa que há valores e pensamentos, por vezes abstractos é certo, mas ricos na transparência da alma.
Também fiquei muito satisfeito por deixares de chamar locutor ao Luís.
"Diseur" está bem. Que fique assim.
Luís Pinto

Paula Raposo disse...

Muito obrigada pelo livro que irei receber!! Fico feliz. Muitos beijos.

Silent Raven disse...

Muitos parabéns pelo elevado número de participações, que reflectem sem dúvida o espaço que este magnífico blog já conquistou nas nossas vidas.. E obrigada pelo livro.
Abraço...
Carla Ribeiro

ma grande folle de soeur disse...

Obrigada pela selecção óptima que publicaram. Abraço. Lucília

bonecadetrapos disse...

Muito bom este momento de leitura.
Obrigada a todos os participantes e a si, Inês, pelo trabalho da recolha e selecção.

Saudações
*__bonecadetrapos__*

Menina_marota disse...

Nós é que temos que agradecer este serviço de muita utilidade pública que nos oferece!

Parabéns ao felizes contemplados e um agradecimento muito especial a todos os intervenientes por este momento lindo que muito apreciei.

Beijinhos e venham mais iniciativas :)

TMara disse...

foi um gosto participar e agora ler todos estes haiku. Há k voltar a reler alguns e aprofundá-los.
Já ouvi cerca de um terço e sabe bem "saboreá-los" ditos.
Bj
Luz e paz