quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Os vossos poemas



Como prometido, aqui estão os vossos poemas sobre o Mar.
Desta vez há uma novidade: a título excepcional, em vez de um, foram gravados dois poemas em áudio pelo locutor Luís Gaspar.
Isto porque o poema escolhido é da poetisa Ana Luísa Amaral, que gentilmente participou neste desafio, e achei que deveria ser contemplado mais um outro poema, de um poeta amador.
Para vosso (e meu) deleite, e com o meu profundo apreço pela vossa empenhada participação — este foi o desafio mais participado até agora — eis os vossos poemas com cheiro a maresia:


Amordilhas

Não deites ao mar armadilhas,
nem o queiras amordaçar.
Já lá vai o tempo das marés
e do vaivém das ondas,
ambas fíeis ao exílio das vozes
presas em búzios brancos.

E se hoje navegas pelas dunas
é porque a desfortuna
nos trouxe de mares distintos,
e de horizontes peculiares.
Só o meu orgulho — onde poisa a pátria —
navega serenamente,
e muito exactamente
a um metro sessenta e sete do nível do mar.

Sempre te disse: sou atlântica.


Cristina Pires


***


Em alto mar

Sou barco no alto mar.
Desfaço-me da carga
Supérflua para não naufragar.
Deito fora os caixotes cheios de nada,
As molduras já sem sentido,
A mágoa das dores passadas,
As memórias enferrujadas...
Sou barco no alto mar,
Tenho o ânimo da descoberta
De ilhas exóticas de beleza sem fim,
De mares de azul turquesa,
Da fruta madura a adoçar-me os lábios
E da música dos pássaros a embalar-me o sono.
Sou barco em alto mar,
Com determinação, com rumo,
Com nível e com prumo!


Carla Mondim


***


Canções de mares

Medonhas saudades dos mares,
e dos teus sonhos, desenhos meus
nas margens do Tejo, olho São Paulo
inverto os dias e as latitudes
e banho este papel no tempo,
em teu sal corro como água doce,
nos nossos corpos entrelaçados
no prazer das peles ardentes
criámos ventos secretos
assim desconcertados conversamos,
ouvimos os ecos de quem nos dizia
"E, afora este mudar-se cada dia"


Constança Lucas


***


Beira mar

Imenso espelho de água aonde me revejo e prolongo
Caminho entre o céu e o mar entre a realidade e o desejo
Sou a permanente interrogação de todos os sentidos
As respostas ecoa-as o mar e apenas as canto sem nada perceber.

Sob os meus pés a água fria a areia ardente o céu que brilha
Não caminho sou a génese de todas as dúvidas
A razão de ser dum mundo que precisa dos grandes espantos
Para que faça sentido o dia suceder-se à noite o mar ao céu

E no mais mágico espelho de todos os sonhos
Interrogo o Sol as nuvens ou o deus mais escondido
Quem é o ser mais importante na imensidão da Terra?
E desespero na vaga melodia das respostas encriptadas.


J. Caldas


***


Foi a ver o mar que me perdi.
E, desde então,
nunca mais voltei.


Joaquim Alves


***


Perfumes nocturnos

Beber
nos teus lábios
o licor da manhã
numa ânfora
de prata

tatuar a pele
com saliva e cera
num rastilho de fogo

dormir
nos teus ombros
transfigurar-me

no perfume de flores
mel
e maresia.


António João Mito


***


Labirintos

passamos as línguas pelos cactos das dunas
bebemos o mar inspiramos nuvens de areia
fumamos as horas
convulsas e alucinadas
fazemos dos olhos espelhos de vidro
numa espera inquieta

apagamos o sol do rosto
mordemos os dedos frágeis
e a grandeza das almas sonâmbulas
despimos a pele enrugada
sugamos o veneno do silêncio das bocas
selamo-las com longos beijos amargurados

recolhemos ao túmulo das constelações
rasgamos a lua da alvorada
num fogo que queima e se expande em torrentes de pânico
até ao lugar dos romances da perdição
dos vestígios de tinta

não conhecemos ninguém. nem o mundo...

caímos no sono. o rasto do riso corre-nos os lábios
débeis trémulos belos
portas de um templo que se abre ao desejo
à invasão de outras línguas

então
dizemos coisas impossíveis. Frases que juntam
dois corpos num só corpo
amamos em recantos vultos de sombra húmida
tacteamos as formas

e a solidão vêem cobrir-nos de veludo
pelo perfume da noite.


António João Mito


***


Quis dizer-te...

Quis dizer-te: a lua é uma pérola
encastrada num céu de diamantes

quis dizer-te: o mar é um espelho
emoldurado pela solidão das praias

quis dizer-te: dá-me a liberdade
do teu sorriso molhado
e escrever os nossos nomes na areia
com a ponta dos dedos

quis dizer-te tanto...

o canto dos búzios, das sereias,
quando o vermelho do sol
morria nas ondas
e o meu olhar navegava
naquele veleiro surreal,
na imensidão
e na frescura das manhãs
a iluminar de azul e turquesa
as falésias escavadas pelo tempo.


António João Mito


***



O Murmúrio do Mar

A noite estava instalada,
A cidade adormecia,
Embalada por um som de fundo,
Trazido por um vento manso,
Apaziguado de sua ira.

Eu apurava os sentidos e ouvia,
Tinha mesmo quase a certeza,
Era o murmúrio do mar,
Quase não se escutava,
De tanta tristeza ele padecia.

Ágil, porque algo me intrigava,
Corri para junto do mar,
Para lhe levar minha alegria.
Escutei os seus segredos,
Atentei a seus lamentos,
Vivemos momentos intensos,
De cumplicidade e partilha.

Foi amor à primeira vista,
O que entre nós ali acontecia.
Tanto ele me cativou,
Com seu mistério e encanto,
Que selámos um pacto,
Seria o mar doravante,
Meu eterno namorado.

Hoje, companheiros inseparáveis,
Para o que nos reste da vida,
Sempre que escuto um murmúrio,
Em jeito de desabafo,
Desato logo a correr,
Para secar as lágrimas ao mar,
Para sua tristeza desvanecer.

E neste ritual nos cumprimos,
Dá-me o mar um beijo intenso e molhado,
Dou-lhe eu a carícia suave de um sorriso,
E ficamos os dois num instante,
De novo muito, muito felizes!


Beatriz Barroso


***


Poema lançado ao mar

Fiz de minha vida um poema,
Peguei nele e lancei-o ao mar,
Para que ele me lavasse as tristezas,
Que já não consigo transportar.

Fiz de minha vida um mar aberto,
Para lá poderes navegar,
Não quero enclausurados meus segredos,
Quero que os venhas tu desvendar.

Fiz das minhas lágrimas um sorriso aberto,
Aprendi a lição com o mar sereno,
Quando por suas vagas e tormentas,
Não se deixa ele desinquietar.

Fiz uma prece a Deus,
pedindo-lhe que me dê uma força idêntica à do mar,
deu-me o mote o rio que por querer aumentar o caudal,
pede à chuva que o ajude a lá chegar.

Navego agora neste horizonte sem medo,
E no mar confio,
Para eu te poder encontrar ...


Beatriz Barroso


***


I

Entre uma tríade de amor -
da areia, do mar e do vento,
sereia eu me invento,
para poder meu sentimento,
a ti fazer chegar.

Faço de minha poesia o meio,
vivifico em meu ser a força,
que me foi oferecida pelo mar,
ao dar-me o seu abraço forte,
e que em si me deixa inspirar.

É este poema que eu quero,
que um dia possas recordar,
tal como o mar quotidianamente,
vai dar um beijo à areia,
porque sem ela não pode passar.

São estas as palavras,
que peço encarecidamente ao vento,
que te possa aí levar,
para que sintas a premência,
em que me traz este tempo,
de meu amor por ti se denunciar.

E sem sofisma eu te revelo,
querer ser a sereia,
daquele mar chamado Índico,
que minha inspiração norteia,
e que a todo o tempo me tenta,
a criar mil uma maneira,
para por ti eu me inventar.


Beatriz Barroso


***


II

Vivo ancorada nesta praia,
voltada para o Índico,
esse mar que me traz
diariamente o seu abraço,
e por quem me deixei encantar.

Assim vivo também saudada
pela areia dourada,
na qual ele no seu vai-vém
seu amor deixa espraiar.
Pois este mar amigo,
por ela se deixou cativo .

Entre os dois areia e mar,
vivo infinitamente feliz.
Vem um ou outro dia,
de sufoco e de temor ,
quando o vento aparece,
com seu mau feitio,
solta sobre nós seu lamento,
e esta ordem vem perturbar.

Larga o vento seu desespero,
mordido pelo ciúme,
vem vestido de negro,
a cor que traz o azedume,
de semblante carregado,
lança em nós seu mau olhado,
com o propósito de nos inquietar.

Solta o vento seus ímpetos,
porque quer brincar com a areia,
sonha despentear-lhe os cabelos,
com ela também namorar.
Entre esta tríade me invento,
irrepreensivelmente fiel e leal,
só a meu amigo mar.

Tomo por ele inequivocamente o partido,
sem muito me querer denunciar.
Dizendo-lhe em segredo,
para o vento não me escutar,
que pode contar comigo,
pois que eu o quero ajudar.

Vem então o mar alvoraçado,
suas mágoas me entregar,
trazidas pelos salpicos das lágrimas,
que soltou do seu olhar.
Ofereço-lhe o meu sorriso,
para seu tormento apaziguar,
Dou-lhe também o carinho,
que guardo só para ele no peito,
com o fim de o poder acalmar.

Vejo agora o mar sereno,
de sua dor já liberto.
Deixou o mar a dor comigo,
Ó mar, eu dou-te abrigo,
Mas consente ouvires o meu grito,
quando eu de ti precisar.


Beatriz Barroso


***


Sentir...

... o Mar, ontem, inesperada, gostosamente, trouxe-me de volta a mim...
Senti-lo de um jeito diferente... Mais sentido... Um fascínio completo, quase vital...
Hoje, ainda a brisa marítima a balançar-me o corpo, tão latente... Sol, brisa, côr, luz, energia, querer, vontade, emoção e uma alegriazinha secreta a bailar-me no coração...
Azul e branco,mescla translúcida, horizonte de liquido manso no mais longínquo onde o meu olhar avista, inequivocamente bravio quando aporta, tão sobriamente, nos rochedos, mesmo lá em baixo...
Regressei a mim, a sentir-me mais, a viver segundo a segundo, saboreando a ventania e o vôo das gaivotas que ali, naquele pedaço de azul e branco de céu pairam...
Hoje, ainda a sentir-me de Mar, ainda a saborear o odor da brisa húmida e a convicção de eu estar em mim... Penso, reflicto na maravilha que só o Mar é, em qualquer maré, de todas as Estações do ano...
Na memória tão recente, sinto ainda o afago de ternura, silencioso... E o sorriso presente, de cumplicidade e alegria... São os pequeninos gestos, os tão indeleveis pormenores do quotidiano que me aquecem o coração e me doiram os dias...
Voltar a sentir doçura e energia, as que apenas o Mar contém... Recordar agora sorriso, olhar, toque e sensação e todo o azul e magia do Mar... Regresso a mim, renovada e a sentir um agradecimento desmedido por estar viva!

Dina Costa


***


E de seguida, os poemas que foram seleccionados para serem gravados em áudio:


Penélope fala a Ulisses, ou outras falas

1.

Cala-te, tu,
de voz de azul harpia
e deixa-me que eu ouça outra vez o Egeu,
as ondas sufocadas,
as sereias cantando,
e um riso que foi meu junto de tanto mar

Deixa que ouça outra vez a sua voz
e silencia o tom de azul harpia,
agora,

que o meu amigo fala,
e a memória que dele se desprende
só me pode rimar com o que tenho agora
e é demais conhecido ao longo desta língua,
a minha língua que não é de Egeu,
mas de outro mar mais largo


2.

Deixa-me que registe
por dentro da memória
a sua voz,
que com ela me cheguem
mil Cretas e soluços de sereias,
Minotauros brincando pela praia,
livres como meninos
em castelos de areia e labirintos

Deixa-me a sua voz,
tu, a de azul harpia,
revisitados montes sem idade
nem tempo para amar

3.

Por isso, ao meu amigo, lhe fala a minha língua
de saudade
— rimando no meu mar com o seu mar,
que é outro e tão diferente
e em tempo tão diferente
do azul, que até à exaustão
cantei

Por isso, ao meu amigo, lhe fala
a minha língua de saudade:
de janelas de sol emolduradas em solidões
diferentes,
mas sempre e ao mesmo tempo
e neste bastidor:
a solidão igual –


Ana Luísa Amaral
(poema inédito, que será incluído no seu próximo livro)




***


Morrer devia ser assim:

lavar a cara com areia fina
e mergulhar no mar adormecido.

Joaquim Alves




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Obrigada a todos. Estão todos de parabéns. Esta elevada participação e a qualidade do que me enviam reforça a minha vontade de voltar a este espaço aberto. Obrigada também ao locutor Luís Gaspar pela generosidade.

3 comentários:

geraldo disse...

Querida Inês,
O que dizer sobre estes poemas sobre o mar? São Belíssimos!
Portugal sempre teve vocação pelo mar.E o mar inspirador de tanta coisa. Parabens a todos os poetas.
Ah, construi um mini-banner sobre "porosidade -eterea" e meu site está linkado com o teu blog.
Abraços
Geraldo

Luís Graça disse...

SEREIA

Apenas três pedidos
disse o anjo
que tinha asas de arco-íris

Hesitei
àquela hora
a brisa sugeria promessas

O teu olhar
uma carícia
e todo o mar

Passou um ano
e o anjo de asas de arco-íris
encontrou-me na praia

Qua fazes?
Perguntou
inquieto por mim

Respondi
enquanto uma gaivota rebelde escrevia poema no céu

Aguardo que o mar adormeça
para entrar nas águas
com a minha amada

5/11/99, 04h20m da madrugada.

Saiu no volume XXIX da revista literária VIOLA DELTA, um projecto "gradeado" (do meu amigo Fernando Grade), dedicado a "poemas e outros textos sobre o mar".

Desculpa lá o atraso, Inês.Andei mergulhado em mares alterados e passou-me. Era tão simples ter subido até ao topo do meu armário e "picado" este poema já algo velhinho, mas de que gosto muito.

Como também gosto muito de conviver com a Ana Luísa Amaral, excelente "diseur".

Quem é leitor do Ganda Ordinarice pode achar estranha a referência positiva a uma gaivota. Mas se virem bem o post "Dick Hard Cultural Tour" percebem que não tenho nada contra as gaivotas, com quem mantive excelente relacionamento nas ilhas Cies.

Gostava era que me tivessem deixado dormir em Lagos e no Porto.

Cristina Pires disse...

Inês os meus sinceros parabéns pelo seu blog e pelo seu empenho em dar acesso a todos sobre manifestações culturais. Quanto aos poemas sobre o mar, são, sem excepção, lindos. Assim como é linda e charmosa a voz do Luís Gaspar. Beijos. Cristina Pires