
O livro tem ilustrações de António Hélio Cabral e o prólogo é de Floriano Martins.
Tacteando ilusões
O crânio incendeia-se nas intumescências da noite.
É tarde, eu sei,
mas ainda há tempo para escrever a língua
cega dos pensamentos que galopam.
Sobre espectros de água, abrem-se
os esfincteres negros
às visões arrebatadas no miolo das têmporas.
Em que pensas, neste momento, em que tacteias
as veias sedentas e os barcos se alinham,
como sentimentos parados no cais?
No fulgor da vigília, o crânio incendeia-se,
apaga-se, o avesso dos muros ecoa,
no silêncio dos poros sombreados
onde bebes a sede da imensidão.
Com vestes de ouro, herdando enigmas,
acumulados no céu, oscilas,
entre as hidras nocturnas,
que plantas entre o mel, as liras
e os moinhos de seda,
onde jaz, exausta, a concreção atordoada
dos mortos animais.
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