quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Os vossos poemas

Caros etéreos,
Apesar de estarmos em período de férias, a participação no último passatempo foi excelente. Em menos de 24 horas chegaram mais de quarenta poemas.
Como sabem, os primeiros 26 participantes que enviassem poemas com os temas propostos no último desafio receberiam livros.
Assim sendo, receberão os seguintes livros:

"Área Afectada" de Fernando Esteves Pinto
1. Carla Marques (Ermesinde)
2. José M. Silva (Santa Maria da Feira)
3. Mary de Oliveira (Setúbal)
4. Raquel Lacerda (Algés)
5. Nuno Xavier (Braga)
6. João Rasteiro (Coimbra)
7. Fernando Machado Silva (Portimão)




"Espelho Íntimo" de Torquato da Luz
1. Raquel Lacerda (Algés)
2. João Rasteiro (Coimbra)
3. Fernando Machado Silva (Portimão)
4. Mary de Oliveira (Setúbal)
5. Andreia Silva (Vila Nova de Famalicão)
6. Jorge Castro (Carcavelos)
7. Luísa Henriques (Estarreja)
8. Rita Pereira (Famões)



Revista "Sulscrito" n.º 3
1. anothertrickster (Coimbra)
2. Mary de Oliveira (Setúbal)
3. Eduardo Aleixo (Lisboa)
4. João Rasteiro (Coimbra)
5. Fernando Machado Silva (Portimão)
6. Gabriela Rocha Martins (Silves)





"Este pão que nos come!" de Raul Veríssimo
1. Carla Marques (Ermesinde)
2. Luís Pinto (Nazaré)
3. João Rasteiro (Coimbra)
4. Fernando Machado Silva (Portimão)
5. Fa menor







Eis os 26 poemas:

Mote "Escrita"

ESCRITA

despenteia-me as certezas
rouba esta pausa que fiz para pensar
surpreende-se não hoje, mas sempre.
baralha este jogo de cartas viciadas.

vejo a batota que fazes nesse velho truque
nenhuma emoção se repete...só os gestos
que rasgam essa máscara de indiferença
que esconde a face dorida.

vomita na escrita a amargura
dos dias sempre iguais
reinventa nas palavras a emoção
e torna especial este minuto.

Carla Marques
http://www.palavrasemdesalinho.blogspot.com

***

Pombas Brancas

Nas mãos…
duas pombas brancas.
Nos corações…
tramas e trancas!
…Nos corações.

Trancas e teias…
e zumbidos de amor!
Recordações e apneias
de um pretérito sem cor!
…Recordações e apneias.

E agora…
Nesta, feliz lembrança
que finda… afora.
Brilharemos na estrela
que reluz na esperança…
Que lá longe mora
em suma distância!
…Que lá longe mora.

Seguiremos em frente
de bocas amordaçadas.
E diremos que somos gente
de mãos amarradas!
…E diremos que somos gente.

Este poema… é o meu eleito
foi escrito pelo meu coração.
Que sangra, pelo amor guardado no peito
de uma rosa branca que seguro na mão!
…Que sangra, pelo amor guardado no peito.

José M. Silva
http://esquicospoeticos-avlisjota.blogspot.com

***

AS PALAVRAS

Mastigo-te as palavras como quem faz amor,
Sabem-me a orquídias selvagens
Acabadas de florir,
Como se a Primavera inteira fosse a fonte
Que nasce do teu corpo,
E as letras que me amanhecem, gorjeios
De água fresca
A correr dentro de mim!

Mary de Oliveira

***

Escrever é tudo

impulso,
a escrita como um baloiço,
a queda, o erguer,
desmanchar nós, cruzando-os.
A perfeição das palavras contidas, largadas,
que caminham sozinhas pelo texto, nadam no texto, morrem no texto.
Escrever é verbo, verbo é mexer, é parar, é remexer, é anestesiar. Verbo é isso é tudo.
Escrever é tudo, o pensamento no sentimento, o sentimento que pensa. É agir, ainda que na longa lassidão dos dias quietos, apagados e moribundos.
E o que é agir senão o impulso?

Raquel Lacerda
http://www.asinhasdefrango.blogspot.com

***

(para Ana S.)

Se escrevo
é porque busco ainda essa palavra
última irredutível inteira
que possa conter-te:

com ela, incendiaria a cidade
a partir das entranhas até que, no meio
do fogo, teu nome se erguesse
límpido: uma flor
prenhe de ar e sonho erecta sobre
a lenta inutilidade dos dias.

Mas não existe, essa palavra - nem
a minha escassa arte poderá
alguma vez criá-la. Ainda assim,
escrevo: é necessário dizer
que não há palavras que possam transportar
em si o teu rosto
indizível.

Nuno Xavier

***

O extremo exercício da loucura

Escrevo como no princípio
atrás do inóspito silêncio da faísca
curvado para dentro
boca fechada a que se confinam os cicios
apocalíptica e múrmur
em seus desvarios de garrote
e mastiga-se o intrínseco silêncio que corrói
esta triste e acirrada madrugada,

o silêncio circunflexo apaga os nomes
sorvendo a luz das glicínias
até que o poeta é desmascarado
pelo extremo e assombroso vocabulário – sagrado
e profano como se as palavras florissem
seiva e sangue
e rubras filigranas na beleza física de Auschwitz.

Escrevo como no princípio visceral
da explosão vulcânica dos cílios
e escrevo como se a única contrição superlativa
fosse a sílaba muda da água
porque o coração do fogo engole-nos vivos
por infinitas extensões epifânicas – aí cega a boca
na entrega híbrida do dialecto das nuas caligrafias,

agora o primórdio fôlego
surge elíptico no busto das cimitarras da alquimia
e grafará a morte como libérrima cascata
no cristalino silêncio silvestre que engoliu Elias.

João Rasteiro
http://www.nocentrodoarco.blogspot.com

***

poema sentido

escrever poesia e não
saber o que
é o que isso é
e continuar
sabendo que é
só escrita
e procurar
o poema aqui
enquanto a escrita
se faz. dizer no começo
eu sou um homem
o que é pouco o que é
muito dizê-lo e ser
sendo sem nada
para dizer ou escrever
e saber o nome
de tantos outros e outras
homens e mulheres
poetas dizendo
os seus nomes
que tanto já disseram
que tanto já escreveram
e a humanidade
os homens
as mulheres ainda
por salvar ainda
por escrever
como tantas mães
e tantos pais
que já foram
filhos e filhas
e irmãos e irmãs
de tantos mais
que nada disseram
e ainda nada
dizem e escrever
para eles e elas
construir o mundo assim
em silêncio
os carros pelas janelas
da segunda circular
até aqui ao quarto sexto andar
em silêncio
e apenas o raspar da caneta
no papel e os sons do corpo
deste aqui o meu
puxando a pele roendo
à volta das unhas
fazendo planos e promessas
e o poema
dizendo tudo
com o seu sentido
próprio que nada diz
com palavras tão pobres
porque alguma coisa
me escapa sempre
me escapou como
o teu adormecer no sul
agora e os condomínios
à volta e os prédios
de apartamentos vazios
tendo as férias já sido
já foram e Monchique
continua lá
para a esquerda vista
do terraço e nós
ignorando se ficamos
se partimos.
tudo caminha é certo
no mistério e o poema
levanta o sentido cansado
dele e por fim lido
reconhecemos os nossos
rostos o que ligava
pelos afectos os que já
se perderam. vêm
abraços de longe
no esforço de segundos
nas teclas
e esta caneta e mão
terminam o poema
pensando no teu corpo
pelo lado menos virtual
com o cão aos pés da cama.

Fernando Machado Silva
http://donnemoimachance.blogspot.com

***


Mote "Lisboa"


A minha cidade

A minha cidade é feita de janelas
e entre elas
há sempre uma alma dorida
ao som da música da vida
não vivida.

Ela é quente, é fria
e quando arrefece,
a gente toda junta se arrepia
com o fado
cantado em agonia.

Nela
o silêncio vibra,
as estátuas erguidas pelos mortos.
É feita de poetas amantes
e amantes cantores
e todos gritam
roucamente

o elogio
desse amor doente.»

Raquel Lacerda
http://www.asinhasdefrango.blogspot.com

***

O silencioso rio da minha aldeia
A Alberto Caeiro

O Tejo é um rio inseguro
sobre a profusão das águas
vulcânicas
insustentáveis
mas não é um rio imemoriável
revelado
opulento na ferocidade dos líquidos sagrados
sedentos
que correm desvairados o regaço ígneo da minha aldeia.

O Tejo tem barcos de metal sustido no ostentação das trovoadas
despojado da alma das rosáceas
dobrado contra o tempo
que multiplica as órbitas das rotas odoríficas
a velocidade
terrestre dos casulos estranhos de vozes
mapas batendo por dentro
do sangue das cosmogonias das lâminas
que se descobrem rosa no rio que se ignora labareda
no rio que se pertence aberto
às coisas mínimas
primitivas no eco surdo da palavra vulcânica
águas iniciais do rio que incendeia pelos dedos
aplainados
amores da minha aldeia.

Pelo Tejo ascende-se a desarmonia de Lisboa
das vísceras extremes
ausentes
da carne incendiada de lascas
no silêncio que oculta os girassóis – as silhuetas desnudas
que existem além do rio sagrado
da minha aldeia.

Sementes de milagres crus
porque rio
morada única que invade as margens
contra o tempo e a carne
o amor e o sangue
a rosa e o substantivo
e
nas veias que correm o rio da minha aldeia
o corpo
a eternidade
o silêncio
de se estar ao pé – a sílaba fecundando o júbilo do Mondego
que corre inócuo o verbo da minha aldeia.

João Rasteiro
http://www.nocentrodoarco.blogspot.com

***

a memória de um crime

nesse ano quase inteiro
vivendo só na companhia
de dois irmãos, enquanto
tua mãe cuidava dos seus
pais moribundos, um
velho perneta diabético e
uma velha devindo criança,
frequentavas as discussões adolescentes
de política de esquerda e amores
falhados. querias-te poeta, lias
muito e escrevias pouco
e mal, como agora, anos passados,
criança de dextra mão.
blusão da tropa, que ainda tens,
boina trocada por chapéu, projecto
de barba – finalmente concretizado –
percorrias a avenida
de roma e o king
tão cheios de intelectuais
que olhavam o miúdo de lado.
talvez por isso também essas
câmeras de segurança não viram
o movimento nervoso da tua mão
e do livro desalarmado
procurando o teu bolso:
nossa senhora das flores

Fernando Machado Silva
http://donnemoimachance.blogspot.com

***

LISBOA NOSTÁLGICA…

Foi no Metro em “hora de ponta”…
Eram os acordes arrastados e doces de uma concertina…
Num regresso ao passado
Meus olhos marejaram…
E o coração derreteu de ternura!
Era o Homem da Concertina
Arrastava consigo a saudade de uma vida
Angustias de tempos perdidos
A amargura das ausências...
… e o mote,
O mote mudava conforme as lembranças…
Cada acorde era uma lágrima
Cada música uma saudade
E ele tocava, tocava sem parar
O Homem da Concertina!…
E como tocava bem, o impiedoso…
Trouxe-me um sabor amargo-doce!...
Mas eu gostei
Gostei daquela dor…
Dor de saudade bonita
Dor dos Amores que ficaram lá atrás!...
Lembranças de Vida, vivida!
Perdido pelos recantos dessa Lisboa bela
Arrastando consigo as marcas de uma vida
Vai o Homem da Concertina
Nos degraus do Metro…
Na Praça do Rossio…
Pelas ruas do Bairro Alto…
Nas margens do Tejo…
Acordando as Tágides adormecidas…
O Homem da Consertina…
Chorando nostalgia
Pelas ruas da bela Lisboa!

Mary de Oliveira

***

Lisboa

Lisboa
Tens o Tejo a teus pés
E eu tenho a vida
Feita em pedaços de marés!

Lisboa que és nascida
E criada em colinas
Não és nada como eu
Que sou nascida
E criada em emoções felinas!

Lisboa
Tu és capital
És importante
E eu sou o quê?
Não consigo ser como tu
Sou a tal
Pessoa delirante
Entre o bem e o mal
Entre o mesmo e o igual...

Andreia Silva
http://segredos_escondidos.blogs.sapo.pt

***

LISBOA

as colinas
as varinas
oficinas
muros velhos onde urinas
nos apertos da cidade

velhos sótãos
saguões
lamentos e orações
onde moram ilusões
de que se veste a saudade

pátios
átrios
bonifrates
sejam camas
sejam catres
de mil vates cruzam ares
os versos sem ter idade

capital do quinto império
será beijo
Sebastião
personagem de mistério
colinas onde as varinas
vindas das águas do Tejo
lavraram o seu pregão
nalgum painel de azulejo

cidade quase verdade
Lisboa que permanece
junto ao Tejo
e adormece
em ânsias de liberdade

Jorge Castro
http://sete-mares.blogspot.com

***

pousou-me um pássaro sobre os ombros.
trazia cartas do exílio dos poetas
quando Lisboa era cais de luz
e uma pena de utopia
a escrever um tempo marinheiro de futuros.
numa asa breve
na têmpora delirante do vento
levou recados lúcidos do meu olhar nocturno.

Luísa Henriques

***

Gatos de Lisboa

Os gatos de Lisboa
são altos, esguios
bem falantes.
Sabem quase tudo
de história e
um pouco de geografia.

De noite caçam gatas
e de dia companhia
entre o lixo da cidade.
Não são assim tão pardos
como dizem as histórias.

Pelo contrário, andam
engravatadinhos, ar galante e
de quem não parte uma unha.
Se lhes falarem em
sardinhas levantam
altivos os bigodes -
não são desses gatos
farruscos aos pés
das varinas. Têm classe!

Mas mostrem-lhes um
banco de jardim ao sol.
E miau.

Rita Pereira

***


Mote "Sul"


apontar as agulhas ao rosto traçado riscado na pele
do braço franco ao flanco do nome
farto tamanho que tudo abarca até
aos.......................................nós
.......................................dos dedos em riste
marcamos no mapa o nosso ponto
no sul

anothertrickster
http://anothertrickster.blogspot.com

***

A TRANÇA DO SOL, NA BAÍA DO SADO!

Às vezes o silêncio envolvente faz tão bem
... completo, absoluto…
… respirar a natureza solitária, verde, profunda!
Hoje saí com sede do cheiro do rio
e do fascínio desesperante do bailado nervoso das ondas
sempre me desafiar-me!…
Debruço-me… (perigosamente – dizem…)
nas cordas de protecção, eu sei, mas…
hoje é como quem sente a atracção do abismo!…

- Reter na memória o cheiro fresco do rio…
- O valsear dos peixes ali, tão pertinho de mim…
bastava estender a mão…, um afago, num desejo!...
- E os golfinhos!...
Há quanto tempo!...
Cheguei na hora certa, acordaram agora da sesta!
- na minha frente a “ilha”, a (minha) ilha,
meu doce sabor de azuis e verdes (d’outrora…),
onde o mar abraça o rio… e beija a serra!
- E as gaivotas?!...
Hoje não há gaivotas…!!!
Queria tanto mandar-te um recado…!

Abri a mala das saudades e
saltaram-me os verdes limbos dos dedos da serra,
lembrei daquela promessa…,
darmos as mãos e subir,
subir até onde o mundo se recolhe…
ali, só tu e eu, vestidos do manto negro da noite
sob o olhar cúmplice das estrelas!...
vaguear por outras galáxias nas asas dos ventos...
e dos sonhos!...
… Desço das nuvens,
o corpo aflito não sossega, que o sol é uma brasa, hoje!
Eu sei, logo ali as sombras dos arbustos, no jardim!
Vou até lá refrescar-me um pouco na brisa que vem da serra,
ler-te de novo,
que é como quem te retém aqui,
pertinho de mim!...
……………………………………….

Olha p’ra mim…,
estou ainda aqui,
debruçada sobre esta corrente que me leva a ti…,
que o sol vai alto, ainda
e estende-me ciumento os fios dos seus cabelos!
Vou pegar neles, um a um,
entrança-los até onde o seu calor me derreta os dedos de ternura!
Olha…, e não te esqueças da pérola,
o remate que costumo usar
para prender a trança!...

Mary de Oliveira

***

Nocturno de Chopin - variações

Era esta nota, folha diáfana de choupo, arrepiando ao de leve a superfície das águas do rio, que ouvi sibilina na noite cálida de ontem, olhando a lua cheia e a estrela da manhã, já sabendo que o vento não, nem suão, as árvores paradas, como estátuas, noites do sul, do alentejo serrano, nem vivalma, nas portas e poiais,isso era antigamente:
- O astro tá parado, compadre!
- Parece que mexeram as folhas agora...
Vozes nos caminhos perdidos do tempo...
A folha. dizia eu. a nota. com voz de céu. de música, entenda-se. Nocturna. De Chopin. Fez falta ontem neste clima de escorpião, de lacrau, para quem não saiba. Doçura de piano. Vestidos de cetim. Lábios de moça com peitos de regaço. Abraços. Na noite cálida. Chopin fez falta. Ontem à noite. No deserto. Sem tâmaras.

Eduardo Aleixo

***

Arquitectura Revisitada
À Gabriela Rocha Martins

No céu
uma intempérie
como só a intempérie do amor.

Pela arquitectura da carne
a sua cicatriz era a taifa acesa
o inaudível.

Porém para me mostrar a flor
ouso pensar que o fogo de I´timad
apazigua o Sul:

- Não existes
Silves lá no remanso do rio
sem as vestes escravas do sagrado.

Diria que era I´timad
a indivisível luz
e que é o verbo primordial da aurora.

Consigo o desabrochar da sílaba
ciclos do alfabeto do tempo
cativos do alaúde:

- Incandescente, tão incandescente
como a melancolia do sémen
que outrora era lágrima
a chuva de Primavera aberta ao cio
de eternidade em eternidade
como um denso aroma, suave corpo.

João Rasteiro
http://www.nocentrodoarco.blogspot.com

***

casa do Alentejo

à entrada não reconheço nada
tudo é mourisco um princípio
que liga à minha djellaba
mas tenho de subir toda a escadaria
para reconhecer a minha casa.
poderia dizer a nossa
só que ainda não lá vivemos
não ainda embora os planos
já os tenhamos feito
mesmo se surgidos por acaso
sem qualquer vontade expressa
eles estão lá já fechados ao longo do corredor
na sua divisão de quartos.
estou portanto num
alentejo e tu noutro
o teu verdadeiro o meu de empréstimo
e tu desenhas o que chopin te diz
por mãos amigas enquanto eu
escrevo para fazer tempo
como um real alentejano
com vinho e azeitonas
numa sala cheia de azulejos e
pratos na parede com motivos
da nossa terra adoptiva.
escrevo e tu desenhas
e tu escreves e eu rabisco
para voltar de novo à escrita
porque penso assim
nesta distância toco-te
porque ao escrever estás sentada
aqui à minha frente
com os nossos pés a tocarem-se
como na tua ou na minha cama se tocam
e de caneta na mão deslizando
a tinta pelo papel passo a mão
pelo teu corpo que pouco gostas
mas eu não. do que a minha mão
viu na rara luz dos nossos quartos
só me falta o teu gosto
mais fundo de mulher
salgado como estas azeitonas
que levo à boca para enganar
a fome e húmido como este vinho
que me deu coragem e a desvergonha
por agora para te dizer
que a minha língua é curiosa
tanto ou mais que os meus olhos
ou as minhas mãos
quando se passeiam pelo teu corpo
de leoa que aos poucos e poucos
me tem consumido
as noites os sonos e os sonhos
o meu desejo apenas domado
quando o teu encosto encontra
o meu à noite se adormeces.
estás no alentejo e eu nesta casa
em lisboa. tenho um rio
e tu a chave da casa
onde agora gostaria de estar
dizendo ou fazendo
o que digo aqui escrito.

Fernando Machado Silva
http://donnemoimachance.blogspot.com

***

o calor sufoca
tudo se aquieta como se a natureza tivesse feito um pacto de não agressão
há uma suavíssima brisa que tenta transgredir
não lhe é concedido o salvo conduto

magnum mysterium

subscrevem.se os verbos numa continência de acção
nada é permitido além de um degrau de tempo que pretende apresentar.se
para que alguém o mastigue mas
ninguém se atreve a contrariar esse calor liquefeito no sangue
duma velha senhora//mulher
soterrada nos escombros de uma casa senhorial

um dia os vermes hão.de contar a sua história
estilhaçando as vidraças ressequidas e trespassar as águas que
morrem devagar por entre as pedras de um alfabeto lírico

há um silêncio abrupto e
os répteis abocanham.no senhores dum espaço a sul por
que naquele lugar onde outrora havia um poema
hoje restam as ervas presas a
o espectro da mulher//senhora de cujo braço cresce uma foice
pronta a ceifar o daninho como se de uma asa se tratasse en
quanto se tece um ruído vago no rescaldo de lonjuras ou
se busca um novo verbo que à sombra do velho há.de medrar

ousa.se o corpo

gabriela rocha martins
http://cantochao.blogspot.com

***


Mote "Pão"


Pão


come-nos os momentos
na busca incessante de alimento
dor física...múltiplos sofrimentos
amagura...na falta um tormento!

da fome que nos mata
do prazer de um aroma
textura estaladiça que nos ata
ao sabor que nos assoma.

faz-se de momentos únicos
polvilhado do fermento da vida
fruto da terra que nos convida.

na simplicidade de um nome
a complexidade de uma função
hoje e sempre nada somos sem o pão!

Carla Marques
http://www.palavrasemdesalinho.blogspot.com

***

Tabuleiros de Tomar
De beleza sem igual
Olha-os a gente a pensar
Que são pedaços de cor
Arrancados com amor
À terra de Portugal

luís pinto

***

Iniciação

A cidade dobrou-se para o rio
e o seu útero irrompeu
sobre as águas
rosa a rosa
apoiada por bilhas vivas
auríferas
sopro a sopro
prenhes.

Soube-se então que renascia violenta
entre mandíbulas alagadiças
como a inflexibilidade
da borboleta
acerba.

Em agonia precipitaram-se sobre as casas
e coseram-se com a cal
pelo coração irreconhecível da pedra.

Era uma cidade como um sismo
ininterrupto
atada às víboras do milagre
extremo
entre rosas e pão
incandescente e granítico.

A cidade meteu-se toda para dentro
o sexo descoberto
transformada em réptil de hálito branco.

João Rasteiro
http://www.nocentrodoarco.blogspot.com

***

e tu seguras o pão
nas duas mãos posto
como o coração nas nocturnas
preces de ninguém. toma-o
por exemplo e parte,
metade a tua vida, a outra
ao corpo que te partilha
a cama, de novo juntos

no lajedo esquecidas
discussões, migalhas.

Fernando Machado Silva
http://donnemoimachance.blogspot.com

***

Onde está o Pão?

Sem pão e sem amor
Sem sequer uma côdea com bolor
Que lhe caia na mão
Aos tropeções por essa vida
Sem esgar na noite entorpecida
À espera de aquecer o coração
Anda perdida qual mendigo
Muita gente em nosso mundo
Matando o ar em campo nu de trigo
Que já foi seu e que ardeu

Quem lhe roubou o seu pedaço de pão
Quem lhe sacou o coração e o pisou
Fingindo bem-fazer
Dizia que era dia e fez a noite
E continua airosamente a sussurrar
Que o pão dos outros é ateu
Que só quem o tem o mereceu
E que o dia de mais pão há-de chegar

Mas eu grito enquanto a voz não me doer
Enquanto a noite escura estiver
Enquanto eu vir ainda um pouco mais além:
Anda muito ladrão por aí com cara de gente-bem.

Fa menor
http://escritariscada.blogspot.com

***

Obrigada a todos pela entusiasta participção. Obrigada aos autores e editoras pelos livros oferecidos.

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