quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Prémio Manuel Alegre para Rui Almeida

Rui Almeida venceu a 1ª Edição do Prémio Literário Manuel Alegre (instituído pela Câmara Municipal de Águeda) com o trabalho intitulado “Lábio cortado”.
O Júri atribuiu ainda uma menção honrosa ao trabalho “Assombrosamente os bichos atravessam as trevas” de Maria Dulce Guerreiro.
O prémio Manuel Alegre surgiu com o objectivo de homenagear a obra do escritor Aguedense, é de âmbito nacional, tem periodicidade bienal e visa, ainda, “o desenvolvimento do gosto pela leitura, a promoção da escrita e o aparecimento de novos autores”.
O concurso destina-se a quem não tenha ainda nenhum livro publicado e só foram admitidos trabalhos de Poesia, em Língua Portuguesa.
O Prémio (5.000 euros para o vencedor) será entregue numa cerimónia que decorrerá no próximo dia 22 de Novembro, no Cine-Teatro São Pedro (Largo Dr. António Breda, 27 - Águeda), pelas 21H00, evento que contará com a presença de Manuel Alegre.

Rui Almeida nasceu em Lisboa, em 1972.
Mantém, desde 2003, o blogue "Poesia distribuída na rua", é um dos autores incluídos na Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa (Edição Exodus, 2008) e tem textos publicados nas revistas Saudade e Big Ode e ainda na revista online "Minguante".

Suave, devastadora, a sombra deste tempo
De pernas dormentes por não caminharem.
Esta coisa de estar parado a assistir a nada,
Consciente da cor de cada objecto à minha frente
Enquanto a visibilidade se fecha dentro de um candeeiro.

Não são crianças que oiço, nem pássaros,
São os pés de quem sabe andar e se desloca,
É o riso de quem reage à sedução e ao modo do desejo.
O peito está vazio e abandonei-o
– respirar é o acto de misericórdia permitido ao corpo.

Penso até à exaustão naquilo que podia ter sido.
Demasiado cedo me reconheci como vivente,
Como servo do movimento e das funções vitais.
Não renego a força que em mim surge
Nem me permito a queda na tentação da morte.

Os braços são pequenos demais para a coragem,
Isso que nem sei que seja ou de que me valha.
O roubo é uma solução como outra qualquer
Para viabilizar a vontade ou o impulso do gesto.
O risco é projectar a voz para além do mar;
Para além de tudo o que de imenso se estende
Diante de um homem que tem olhos perdidos.
Como se perde a distância? – é esta a pergunta
Sussurrada no momento em que se desiste
E da qual nasce a sede que permite a resposta.

É no candeeiro que extingo o excesso do pensamento;
Não reconheço à luz os efeitos salvíficos
A que a aparência poderia levar-me.
Prefiro o vazio sistemático da brancura
Diluído no ar que me envolve e que respiro.

(poema que abre a obra "Lábio Cortado")

Pode ler-se aqui uma mini-entrevista a Rui Almeida no blogue "Casa dos Poetas".

1 comentário:

Luís Graça disse...

Parabéns, ó Rui. Só provas que um Almeida pode ser um poeta premiado.

O Luís Filipe Maçarico foi cantoneiro --- com muita honra --- e é um excelente poeta alentejano com espírito alpedrinhense. Para além de um amigo de abraço. Como diria o Paulo Barriga, que Deus te arrebente de saúde, Luís. E desculpa, Luís, não deu mesmo para ir a 29 de Outubro à tua sessão,tive aula de Escrita Criativa e a "árdua" missão de acompanhar a minha mãe ao concerto do Count Basie, no Campo Pequeno, para o qual tínhamos bilhetes reservados há muito tempo. E ela só queria ir comigo. Não aceitava substituições. Se não acreditares nesta última não faz mal, porque é tanga. Mas o mesmo não se passa com a minha declaração de amizade por ti.

Para acabar, ó Rui, já tinha mandado um mail à Inês, para te dar os parabéns. Assim de repente, tinha apenas 95% de certeza de que este Rui Almeida fosses tu.

Continua, pá, não desistas. Não deixes que o facto de ser premiado te desanime. Há para aí tanto poeta premiado com valor. Nem todos os premiados são poetas fracos. Não te deixes abater. Continua a escrever. E se ganhares prémios, paciência.

Não te importes com o que os outros pensam.

Mas se isto te chatear muito faz como o Herberto. Não recebas. E se o dinheiro te faz confusão dá-me uma apitadela. Eu sacrifico-me e recebo por ti, dissipando depois o dinheiro em clubes de strip e copos.

Por um amigo sou capaz de dar a minha camisa e tirar o soutien a uma stripper.

(Coisa que já aconteceu uma porrada de vezes. Faz parte da rotina de algumas Private Dandes. Posso ter cara de miúdo, mas de strippers percebo eu)

Gosto imenso da tua poesia.

(Ainda não li nada, mas a tecnologia ainda não permite saber estas coisas e um gajo pode tanguear à vontade. E eu sou capaz de falar de poesia que nunca li dizenco coisas tão abstractas e inteligentes que o interlocutor não se apercebe de nada e ainda vai concordar comigo. Nos casos mais difíceis dirá apenas: "Tem piada, nunca me tinha apercebido disso. E és a primeira pessoa a dizer-mo. Mas és capaz de ter descoberto uma coisa na minha poesia em que eu nunca tinha pensado. Obrigado. Muito obrigado".

Não negue à partida uma ciência que desconhece. Eu sou a Alcina Lameiras e vou dormir, que o kainever está a bater que é um mimo. Não tenho bolsa para andar na coca e no cavalo.

Mas o meu sonho era andar a cavalo, a snifar coca, com a heroína Joana D'Arc montada a meu lado. E depois fazer amor ao sol poente na praia, num pequeno triângulo amoroso recto (ferve a 90 graus, esta piada não é minha), entre mim, a Joaninha e a Lady Godiva.

Já cantavam os Beatles: "Lady Godiva, childen at your feet..."

(Não vale a pena escreverem respostas a dizer que é Lady Madonna. Foi só mais um trocadilho. Já poupo na resposta...)