terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Hoje nasceu...




27 de Fevereiro de 1933

Ruy Belo

Poeta português




Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: E tudo era possível ; O valor do vento ; Muriel ; Mas que sei eu ; Um dia não muito longe não muito perto

Ruy Belo

Ruy de Moura Ribeiro Belo nasceu no dia 27 de Fevereiro de 1933 em São João da Ribeira, Rio Maior.
Licenciou-se em Filologia Românica e em Direito, pela Universidade de Lisboa, e doutorou-se em Direito Canónico pela Universidade Gregoriana de Roma, com uma tese intitulada «Ficção Literária e Censura Eclesiástica».
Em 1951 entrou para a Opus Dei, mas saiu em 1961 (ano em que publicou o seu primeiro livro “Aquele Grande Rio Eufrates”) e casou com Maria Teresa Belo, de quem teve três filhos.
Exerceu, ainda que brevemente, um cargo de director adjunto no então ministério da Educação Nacional, mas o seu relacionamento com opositores ao regime da época, a participação na greve académica de 1962 e a sua candidatura a deputado, em 1969, pelas listas da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, levaram a que as suas actividades fossem vigiadas e condicionadas.
Foi durante algum tempo funcionário no departamento editorial da União Gráfica, repartiu-se depois entre um escritório de advocacia, como canonista, e a Universidade de Madrid, onde durante sete anos (1971-1977) foi leitor de Português, cargo preenchido com brilho invulgar, sem no entanto suscitar o mínimo interesse por parte da nossa representação diplomática. Foi também, na sua passagem pela imprensa, director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo.
Regressado a Lisboa, Ruy Belo tentou em vão entrar para o corpo docente da Faculdade de Letras de Lisboa: na altura da sua morte ia mais uma vez concorrer a um lugar de assistente mas foi-lhe recusada essa possibilidade, e foi dar aulas na Escola Técnica do Cacém, no ensino nocturno. Faleceu em 1978, vítima de ataque cárdio vascular.
Em 1991 foi condecorado, a título póstumo, com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'iago da Espada.
Os seus primeiros livros de poesia foram Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e O Problema da Habitação (1962). Às colectâneas de ensaios Poesia Nova (1961) e Na Senda da Poesia (1969), seguiram-se obras cuja temática se prendia ao religioso e ao metafísico, sob a forma de interrogações acerca da existência. Como o caso de Boca Bilingue (1966), Homem de Palavras(s) (1969), País Possível (1973, antologia), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). A sua poesia encontra-se recolhida em Obra Poética de Ruy Belo (volumes 1 e 2).
Apesar do seu curto período de actividade literária, Ruy Belo tornou-se num dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX, tendo as suas obras sido reeditadas diversas vezes. Destacou-se ainda pela tradução de autores como Antoine de Saint Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges, Blaise Cendrars e Federico García Lorca. Prefaciou Pelo Sonho É Que Vamos, de Sebastião da Gama. Colaborou em várias publicações periódicas, nomeadamente em O Tempo e o Modo e Ocidente.
Em 2001, publicou-se Todos os Poemas.
À mulher e aos amigos, durante muitos anos, Ruy Belo foi dizendo que a sua tese para a Universidade Gregoriana de Roma estava escrita em latim. Mas «Ficção Literária e Censura Eclesiástica» é em português e figura nas «Obras completas» publicadas pela Editorial Presença sob a orientação de Joaquim Manuel Magalhães, juntamente com os ensaios de “Na senda da poesia” (1969) e um acervo de poesia inédita.
Muitos destes inéditos encontram-se dispersos por Queluz, onde Ruy Belo residia e onde morreu em Agosto de 1978, e pela Consolação, uma praia da costa de Peniche onde ele tinha um pequeno piso de férias e privou de perto com Fernandes Jorge e Magalhães, seus grandes amigos. Trata-se na maioria, de versos da juventude e apontamentos dos últimos tempos.

E tudo era possível

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo


Interpretado pela Andante:


Voz: Cristina Paiva; Sonoplastia: Fernando Ladeira

O valor do vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto.

Ruy Belo

Muriel

Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas a dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é um certo espanto que no espelho de manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser a solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver na minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
e penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e não me vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão da escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido.

Ruy Belo

Mas que sei eu

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

Ruy Belo

sábado, 24 de fevereiro de 2007

1º Concurso de Conto e Poesia da CGTP-IN







O Departamento de Cultura e Tempos Livres da CGTP-IN promove a realização de um Concurso de Conto e Poesia destinado a estudantes, trabalhadores e aposentados ou reformados.
A data limite de participação é 27 de Abril próximo.
Os escritores Urbano Tavares Rodrigues e Domingos Lobo, o jornalista José Carlos Vasconcelos e os sindicalistas Paulo Sucena e Fernando Gomes (representante da CGTP-IN) constituem o júri do Concurso.
Informações:
Pelo telefone: 21 323 66 56
Por e-mail: carla.alves@cgtp.pt
No site da CGTP-IN

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Vasco Graça Moura distinguido em França








O poeta e tradutor Vasco Graça Moura foi distinguido no passado dia 19 de Fevereiro com o prémio francês de poesia Max Jacob pela obra «Uma Carta no Inverno», de 1997.
O livro, que acaba de ser lançado em francês pela editora La Différence, com tradução de Joaquim Vital, distinguiu Vasco Graça Moura na área da literatura estrangeira.
Esta editora, que já editou vários autores portugueses, atribuiu este mesmo prémio a Sophia de Mello Breyner Andresen em 2001.
O prémio Max Jacob será entregue a Vasco Graça Moura no próximo dia 8 de Março, em Paris.
Este é o segundo prémio que Vasco Graça Moura recebe no espaço de duas semanas. No passado dia 7 de Fevereiro foi galardoado pela Universidade de Évora com o Prémio Vergílio Ferreira 2007.

Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, Vasco Graça Moura publicou a primeira obra, «Modo Mudando», em 1963, ao qual se seguiram várias obras de poesia, ensaio e ficção.

Prémio literários recebidos por Vasco Graça Moura:
• Prémio Pessoa, 1995.
• Grande prémio de poesia da Associação Portuguesa de Escritores, 1998.
• Prémio Jacinto do Prado Coelho (ensaio), da Associação Internacional dos Críticos Literários.
• Prémio de ensaio da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
• Prémio Gulbenkian de tradução da Academia das Ciências de Lisboa (ex-aequo).
• Grande prémio de tradução do PEN Clube Português, 1996.
• Prémio de Poesia do PEN Clube Português.
• Prémios literários das Câmaras Municipais do Porto e de Lisboa.
• Medalha de ouro do Comune de Firenze.
• Premio Internazionale la Cultura del Mare, San Felice Circeo, 2002.
• Distinção nos 30 anos do 25 de Abril, na área da literatura, Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas, 2004.
• Coroa de ouro do Festival de Struga (Macedónia), 2004.
• Prémio Internazionale Diego Valleri, Monselice, 2004, atribuído à sua tradução das Rimas de Petrarca.
• Grande Prémio de Romance e Novela da APE, 2004.
• Prémio de tradução Paulo Quintela, da Faculdade de Letras de Coimbra, atribuído à sua tradução das Rimas de Petrarca, 2006.

A Editora Bertrand prepara-se para editar brevemente uma antologia com a sua poesia escrita entre 1963 e 1995.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Era um redondo vocábulo


Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

José Afonso



Interpretado pela Andante:


Vozes: Cristina Paiva, Teresa Silva Carvalho e José Afonso; Música: Goran Bregovic e José Afonso; Sonoplastia: Fernando Ladeira.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Casa da Leitura




A Casa da Leitura é um novo portal de promoção da leitura para os mais novos, que oferece, não apenas a recensão de mais de 500 títulos de literatura para a infância e juventude (onde não falta a Poesia), organizados segundo faixas etárias e temas, com actualização periódica semanal, como desenvolve temas, biografias e bibliografias. Em simultâneo, responde às dúvidas mais comuns sugerindo um conjunto de práticas destinadas às famílias e aos mediadores.
Espreitem aqui.

Relembrar Zeca Afonso






















Cantor, poeta, músico, lírico, militante antifascista e anticolonial. José Afonso nasceu a 2 de Agosto de 1929 em Aveiro.
A sua passagem por Coimbra, como estudante, marcou a sua vida e a da cidade.
A escolha da sua canção “Grândola Vila Morena” para senha do 25 de Abril iria imortalizar o seu nome associado à Revolução dos Cravos.
Zeca é uma das figuras mais relevantes da música portuguesa de todos os tempos. Actuou ao vivo, pela última vez, em 29 de Janeiro de 1983, no Coliseu dos Recreios.

José Afonso morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987, com 57 anos, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada em 1982. O funeral realizou-se no dia seguinte, com mais de 30 mil pessoas, da Escola Secundária de S. Julião para o cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal, onde a urna foi depositada na sepultura 1606 do quadro 19. O funeral demorou duas horas a percorrer 1300 metros. Envolvida por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna foi transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Luís Cília, Francisco Fanhais. A Transmédia editou o triplo álbum, o primeiro da história discográfica portuguesa, Agora e Sempre, duas semanas depois da sua morte. O triplo disco é constituído pelos álbuns Como Se Fora Seu Filho (1983) e Galinhas do Mato (1985) e por um alinhamento diferente de Ao Vivo no Coliseu (1983). A 18 de Novembro foi criada a Associação José Afonso com o objectivo de ajudar a realizar as ideias do compositor autor e intérprete, no campo das Artes.

Por ocasião dos 20 anos da morte de José Afonso, muitas iniciativas irão decorrer por todo o país:

Sexta-feira, 23 de Fevereiro:

• Pelas 00h30h, o canal 1 da RTP apresentará o documentário «Zeca Afonso - 20 anos da morte», seguindo-se a exibição do concerto «José Afonso ao vivo no Coliseu», realizado a 29 de Janeiro de 1983.

• Em Lisboa, a Sociedade Portuguesa de Autores irá homenagear José Afonso numa sessão que terá lugar às 18.30h no Auditório Frederico de Freitas, na sede da SPA, em que participarão o seu presidente Manuel Freire e o seu vice-presidente, José Jorge Letria. Participarão ainda José Niza, Francisco Fanhais e Luiz Goes.
A fechar a sessão, o cantor Samuel interpretará algumas das suas canções mais conhecidas.

• No Mercado da Ribeira (Cais do Sodré, em Lisboa) às 21.30h, realizar-se-á um «Tributo a José Afonso» com os Cantadores de Rusga, Jorge Jordan, Mingo Rangel, Rogério Charraz, e o actor Jorge Castro, que lerá poemas.

• Em Odivelas terá lugar o colóquio «Conversa em torno da personalidade e do papel de José Afonso na cultura e sociedade portuguesas», que decorrerá no Auditório da Quinta da Memória e que contará, entre outros, com Miguel Gouveia.
Seguir-se-á a actuação do Grupo Coral Maria Gomes, da Sociedade Musical Odivelense, que interpretará temas de José Afonso.
Também em Odivelas, poderá ser apreciada uma exposição foto-biográfica sobre José Afonso no átrio dos Paços do Concelho. Esta mostra, propriedade da Associação José Afonso, estará patente até 05 de Março.
A exposição procura traçar o percurso de vida e o testemunho solidário de Zeca Afonso.

• Na Figueira da Foz, no Centro de Artes e Espectáculos, os cantores Vitorino, Janita Salomé e Zé Carvalho apresentarão à noite um espectáculo baseado no repertório de José Afonso, interpretando, desde baladas de Coimbra até à música tradicional e de teatro.

• No Entroncamento, no Cine-Teatro S. João, o cantor João Afonso e o pianista João Lucas apresentarão «Um redondo vocábulo».
Durante o espectáculo, o duo percorrerá cronologicamente canções menos conhecidas e mais intimistas de José Afonso.

• Em Guimarães, no Centro Cultural de Vila Flor estão programadas várias iniciativas, nomeadamente uma exposição com materiais inéditos do fundo documental da revista Mundo da Canção. Uma mostra que será inaugurada no dia 23, e que reunirá capas de discos, fotografias de espectáculos e promocionais, cartazes e recortes de imprensa.
À noite, no Grande Auditório deste Centro Cultural, será apresentado o espectáculo «Menino d'Oiro» com dramaturgia e encenação de Gil Filipe.
Neste projecto participarão vários grupos de teatro amador do concelho, além dos músicos Luís Almeida, Dino Freitas, Manuel Abreu e os agrupamentos Nicolinos, Amigos de Guimarães, Tu'obedes, Zecafusão e a Academia de Música Valentim Moreira de Sá.


Sábado, 24 de Fevereiro:

• Em Guimarães, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Vila Flor realizar-se-á pelas 15.30h, um concerto pela Banda Militar do Porto que, além de temas do seu repertório, interpretará temas da autoria de José Afonso.
Pelas 16.30h, no mesmo local, subirá à cena a peça de Hélder Freire «O incorruptível» com interpretação de Gil Filipe e às 17.30h, a vida e a obra de José Afonso serão tema de um debate com Alípio de Freitas, Mário Barradas, José Mário Branco, Hélder Costa e José António Gomes.
À noite, no Grande Auditório do Centro Cultural de Vila Flor, Amélia Muge, José Mário Branco e João Afonso apresentarão «Maio, maduro Maio». Este espectáculo contará ainda com o grupo galego de música tradicional Ardentía e a actriz Manuela de Freitas, que declamará poesia.

• Em Gueifães (Maia), pelas 21.30h, na cripta da Igreja Paroquial, José Afonso será homenageado com a actuação dos cantores José Silva e Francisco Fanhais.


Terça-feira, 27 de Fevereiro:

• Em Faro, no Club Farense, pelas 21.30h, Francisco Fanhais e Afonso Dias protagonizarão uma homenagem a José Afonso.

Vários outros espectáculos estão previstos, nomeadamente durante o próximo mês de Abril, na Casa da Música, no Porto, que organizará de 25 de Abril a 1 de Maio, um ciclo dedicado a José Afonso intitulado «Revolução».
Este ciclo contará com a apresentação do novo trabalho discográfico dos Frei Fado d'El Rei e o grupo portuense de percussão «Drumming» apresentará o seu espectáculo «Steel drumming toca Zeca Afonso».

Actividades da Associação Portuguesa de Poetas





Quinta-feira, 22 de Fevereiro, das 16h00 às 18h00, a Associação Portuguesa de Poetas vai promover um encontro na Livraria-Galeria Municipal Verney (Rua Cândido dos Reis, 90/90A, em Oeiras) sobre a Poesia de Teixeira de Pascoaes.
Urbano Tavares Rodrigues falará sobre a obra do Poeta.
Estará presente o autor da sua escultura no Parque dos Poetas, Francisco Simões.
Será dita Poesia de Teixeira de Pascoaes.

No sábado, 24 de Fevereiro, das 19h00 às 20h30, a Associação realizará mais um Encontro Poético no Palácio Galveias.
O Palácio Galveias fica no Campo Pequeno, em Lisboa.

A Associação Portuguesa de Poetas existe como associação cultural desde 1985 e tem por objectivo difundir a Poesia em língua portuguesa, proporcionar o convívio, o diálogo e a interajuda entre os seus associados e informá-los de toda a actividade poética existente.
A Associação realiza dois Encontros Poéticos mensais: um no Palácio Galveias (com uma palestra sobre o Poeta do Mês) e outro no Restaurante Vá-Vá (dedicado à poesia dos associados). Realiza também palestras culturais na Livraria-Galeria Verney, em Oeiras, edita um Boletim trimestral gratuito e uma Antologia Poética anual com poemas dos associados, organiza Jogos Florais e tem um Grupo de Jograis que, gratuitamente, actua em diversos eventos. Realiza, ainda, anualmente, uma homenagem a Luís de Camões no Mosteiro dos Jerónimos no dia 10 de Junho.
A Associação tem associados em Espanha, Luxemburgo, Alemanha, Angola, Brasil, EUA e Canadá.
Mais informações, aqui.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Poesia no Bar a Barraca




Amanhã, 20 de Fevereiro, haverá Poesia no Bar a Barraca, a partir das 23 horas.
O Bar A Barraca fica no Teatro Cinearte - Largo de Santos, n.º 2, em Lisboa.

Hoje nasceu...





19 de Fevereiro de 1881

Paul Zech

Poeta alemão





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Na estante de culto: ”A Alma e o Caos”

Paul Zech

Paul Robert Zech, um dos vultos do expressionismo alemão, nasceu no dia 19 de Fevereiro de 1881 em Briesen, na Prússia Ocidental e passou a sua juventude em Wuppertal. Estudou em Bona, Heidelberg e Zurique. Trabalhou como mineiro e metalúrgico, por idealismo social, na Alemanha, França e Bélgica. Foi depois editor e colaborador de vários jornais, traduziu vários poetas franceses, ao mesmo tempo em que ia trabalhando na sua própria produção literária.
Foi amigo de Richard Dehmel, Emil Verhaeren, Stefan Zweig, Appollinaire, Georg Heym e Else Lasker-Schüller, entre outros.
Paul Zech viveu muitos anos em Berlim e foi bibliotecário e propagandista. Emigrou para Praga em 1933, depois para Paris e mais tarde para a América do Sul.
Por fim, fixou-se na Argentina e morreu em Buenos Aires, em 1946, com 65 anos.

Rua industrial, de dia

Só paredes. Sem verde nem vidraça,
a rua estende a cintura malhada
das fachadas. Os carris sem zoada.
Brilha o asfalto molhado da praça.

Roça por ti alguém, um frio olhar
penetra-te a medula; passos duros
fazem saltar faíscas de altos muros
e fica a nuvem de um breve respirar.

Não há cela que aperte o pensamento
em gelo como este caminhar
entre muros, que só muros podem olhar.

Vistas tu penitência ou sacro paramento –:
Esmaga-te sempre o pesado sudário
do anátema divino: turno sem horário.

Paul Zech
(1911)
(tradução de João Barrento)

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Hoje nasceu...


18 de Fevereiro de 1896

Andre Breton

Poeta francês


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André Breton

André Breton, considerado pai e fundador do movimento surrealista francês, nasceu em Tinchebray, Orne, no dia 18 de Fevereiro de 1896.
Por exigência da família, estudou medicina e prestou serviço durante a Primeira Guerra Mundial, nos centros de psiquiatria do exército, onde entrou em contacto com a obra de Freud e se interessou pelo mundo do inconsciente. Em 1919 ligou-se ao movimento dadaísta e já sob a influência de Rimbaud, Apollinaire e Mallarmé, publicou o livro de poemas "Mont de piété", cuja violência verbal antecipava obras posteriores. A "alucinada" abordagem de Breton com a poesia surgiu como uma reacção contra as acomodadas convenções literárias de Paris nos anos 20. Mais tarde, abandonou o dadaísmo para experimentar novas formas de expressão e, em colaboração com Philippe Soupault e Louis Aragon, fundou a revista Littérature, (de cujo programa constava a revisão de certos valores estabelecidos, a procura das causas da criação poética, o valor do destino humano do poeta) que acolheu nas páginas o primeiro texto surrealista, (onde testava a escrita automática) "Les champs magnétiques" (1920), escrito por Breton e Soupault.
Em 1924, auxiliado por outros dadaístas dissidentes, escreveu o "Manifeste du surréalisme", reunindo à sua volta, entre outros, Eluard, Aragon, Péret, Picasso, Soupault, Artaud, Narville, e Cicon; e tendo como órgão próprio a revista La Révolution Surrealiste. O Manifesto do Surrealismo surgiu como crítica dos valores estéticos e éticos tradicionais, em que Breton proclamava a primazia dos componentes oníricos sobre os racionais e, como meio de verbalizar a subjectividade psíquica, defendia a escrita automática, a liberdade formal e a exploração literária do inconsciente, onde o autor podia expressar o que lhe vinha à mente sem pensar no seu significado. Com este Manifesto, Breton e os seus colegas pretendiam transformar o caos e a desordem em formas de expressão. O seu objectivo poético consistia no "puro automatismo psíquico", como foi evidenciado pela obra "Pour un art revolutionnaire independent", que escreveu em 1938 em co-autoria com Leon Trotsky. Do ponto de vista de Breton, arte e política eram indissociáveis.
Este manifesto resultou numa transformação radical na arte e na cultura francesa da época. Breton aplicou essas concepções a livros de poemas como "Clair de terre" (1923, título neologista a partir da expressão francesa clair de lune), e a narrativas como "Nadja" (1928) inspirada na sua primeira mulher, assim como a textos teóricos, entre os quais o célebre "Les Pas perdus" (1924).
Em 1937 publicou o conto "L'Amour fou", verdadeira síntese da sua obra.
Perante a crise ideológica de 1929, que ameaçava dividir o movimento, André Breton, publicou o "2º Manifeste du Surréalisme", onde precisou a sua posição e a do grupo, procurando fundamentá-la filosoficamente, e dizendo-se contra qualquer pressão exterior de carácter político, rompendo depois com o Partido Comunista, mas mantendo-se sempre marxista. As críticas acerbas a Autaurd, Delteil, Gérard, Soupault, e outros, levaram os mesmos à publicação de um violento panfleto contra Breton que, entretanto, continuou o seu trabalho fundando a nova revista Le Surréalisme au Service de la Révolution, pondo-a ao serviço das agitações políticas e sociais e publicando o panfleto Position politique du Surréalisme.
Fugindo à Segunda Guerra Mundial, com Jacqueline Lamba – sua segunda mulher e musa – Breton exilou-se nos Estados Unidos. Jacqueline e André, nessa fuga, foram hóspedes de artistas como Gordon Onslow Ford e Picasso. Graças ao trotskista Victor Serge, puderam fugir de França ocupada, através da Martinica e Santo Domingo, onde estiveram na casa de Eugenio Granell. Com o apoio de Peggy Guggenheim, viajaram acompanhados de Serge, Goldberg, o antropólogo Levy Strauss e Wifredo Lam até Nova Iorque, local onde Jacqueline obteve reconhecimento público na pintura.
Depois da segunda guerra mundial, Breton regressou a França e ainda líder do surrealismo, cuja evolução se reflectiu em muitos trabalhos seus, dedicou-se aos seus jovens discípulos.
Em 1965 reuniu as suas principais obras teóricas em "Manifestes du surréalisme", imprescindível para a compreensão do movimento.
André Breton, preocupado principalmente com a eliminação das barreiras existentes entre o sonho e a realidade, a razão e a loucura, tornou-se o principal mentor do movimento surrealista e o mais valioso do seu incessante trabalho é que contribuiu para fazer do surrealismo o encontro do aspecto temporal do mundo com os valores eternos: o amor, a liberdade e a poesia.
"Tudo nos leva a acreditar que existe um certo estado da mente em que vida e morte, o real e o imaginário, passado e futuro, o comunicável e o incomunicável, altura e profundidade não são mais percebidos como contraditórios" André Breton, Segundo Manifesto do Surrealismo (1929).
André Breton faleceu em Paris, em 1966.

Obras:
"Mont de piété" (1919) Poesia
"Clair de Terre" (1923) Poesia
"Les Pas Perdus" (1924)
"Nadja" (1928)
"Ralentir Travaux" (1930)
"L'Union Libre" (1931)
"Le Revolver à Cheveux Blancs" (1932)
"Les Vases Communicantes" (1932) Poesia
"Point du Jour" (1934)
"L'Amour Fou" (1937)
"Pour un art revolutionnaire independent" (1938)
"Arcane 17" (1945)
"Poèmes" (1948) Poesia
"La Clé des Champs" (1953)
"À Dieu ne Plaise" (1954)
Estar vestido de branco deste homem é evidente que nunca voltará a ser
encontrado
Depois o choque duma lança contra um elmo aqui o músico fez maravilhas
É toda a razão que se vai quando podia soar a hora sem que tu estejas
presente

Nas sombras do cenário permite-se ao povo contemplar os grandes festins
Comer em cena é sempre do agrado geral
De dentro da empada rematada a faisões
Anões metade pretos metade arco-íris levantam a tampa
E soltam-se ajaezados de guizos e de risos
Brilho contrastado de vestígios de tiros das côdeas sobrastes
Plano sequência do baile dos Ardentes flash back desfocado do episódio que
vem logo a seguir ao do cervo
Uma homem talvez ágil demais desce do alto das torres de Notre Dame
A rodopiar numa corda
Seu pêndulo de archotes clarão insólito à luz do dia
A sarça dos cinco selvagens quatro deles cativos um do outro o sol de plumas
O duque d’Orléans segura o facho a mão a mão fatal
Às oito horas da noite tempos depois a mão
Não esquece a brincar com a luva
A mão a luva uma vez duas vezes três vezes
A um canto com o palácio mais branco em fundo as belas feições ambíguas de
Pedro de Luna a cavalo
Personificando o segundo luminar
Acabar sobre o brasão da rainha em lágrimas
A mágoa Nada mais me é nada nada me é mais nada
Sim sem ti
O sol

André Breton
(tradução de Ernesto Sampaio)
Um homem e uma mulher absolutamente brancos
Lá no fundo do guarda-sol vejo as prostitutas maravilhosas
Com trajes um pouco antiquados do lado da lanterna cor dos bosques
Levam a passear consigo um grande pedaço de papel estampado
Esse papel que não se pode ver sem que o coração se
nos aperte nos andares altos de uma casa em demolição
Ou uma concha de mármore branco caída no caminho
Ou um colar dessas argolas que se confundem atrás delas nos espelhos
O grande instinto da combustão conquista as ruas
onde elas caminham Direitas como flores queimadas
Com os olhos na distância levantando um vento de pedra
Enquanto imóveis se abismam no centro da voragem
Nada se iguala para mim ao sentido do seu pensamento desligado
A frescura do regato onde os sapatinhos delas
banham a sombra dos seus bicos A realidade daqueles molhos de feno cortado onde desaparecem
Vejo os seus seios que abrem uma nesga de sol na noite profunda
E que se abaixam e se elevam a um ritmo
que é a única exacta medida da vida
Vejo os seus seios que são estrelas sobre as ondas
Seios onde chove para sempre o invisível leite azul

André Breton
(tradução de António Ramos Rosa)