sábado, 10 de fevereiro de 2007

Perguntas de um operário letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis.
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
da Lima dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias.
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a Guerra dos Sete Anos.
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?

Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantos histórias.
Quantas perguntas.

Bertold Brecht

(tradução de Arnaldo Saraiva)

Das Cidades

Por debaixo esgotos sobre o solo
Nada e por cima o fumo
Ali vivemos nós sem gozo nem consolo.
Depressa passámos nelas. E, devagar, também elas seguem o nosso rumo.

Bertold Brecht

(tradução de Arnaldo Saraiva)
O vosso tanque, General, é um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
— Precisa de um motorista.
O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
— Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito:
— Sabe pensar

Bertold Brecht

Na voz de Luís Gaspar:

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Na estante de culto











"A Idade das Trovas"
de Inocêncio Pinga-Amor (Luís Graça)
Edição: Universitária Poesia (1998)
Capa: João Pitta Groz

Luís Graça escreve de tudo: contos, poesia, romances, teatro, crítica de banda desenhada, argumentos para banda desenhada, artigos para jornais desportivos...
E o humor é o seu território de eleição, mas ao espírito cáustico gosta de juntar uma pitada de romantismo. Neste livrinho "A Idade das Trovas" editado pela Universitária Poesia em 1998, Luís Graça dá largas ao seu génio romântico.


Brisas de fim-de-tarde em Dó Maior

Se os teus olhos
perenes de paz
reflectirem a lua
como lagos

Banhando a tua dor
em pântanos de fogo
que trituram as entranhas
em volúpias

Não confundas a ternura
com meiguice
não iludas um quadro
em desespero

Tu já não queres viver
como quem sonha
tu já não queres sonhar
por não saberes

Essa subtil margem
das saudades
que vai da meiguice
às tuas lágrimas



Se quiseres eu cubro a tua alma de açúcar

Se quiseres
eu cubro a tua alma
de açúcar

E se tiveres ainda
falta
de glucose

Deixa-me dar-te
ao fim do dia
um olhar doce



"A ligeireza, a graça, o bom humor, fazem com que estas Trovas de Luís Graça pertençam à idade do riso, uma idade que ainda está muito longe de ser assumida pela alma portuguesa.
A quase totalidade da expressão poética produzida em língua portuguesa, possui ainda algum escrúpulo perante a postura do poeta-humorista: ou é assaltada por um confessionalismo amargo, ou entrega-se à sátira mordaz e ressentida. Há ainda a outra poesia, aquela que se faz valer de uma herança de pendor clássico ou classicizante, que irrompe da verdade do sujeito poético.
Este livro de Luís Graça situa-se entre estes dois pólos: nem amargo, nem ressentido, nem clássico — apenas feliz e igual a si mesmo"
José Fernandes Tavares

Obras de Luís Graça:
“A Idade das Trovas” (Universitária Editora, 1998), sob o pseudónimo de Inocêncio Pinga Amor (poesia); “Meia Dúzia de Maldades” (Inatel), teatro; “O homem que casou com uma estrela porno e outros contos perversos” (Editora Polvo, 2003, contos); “De Boas Erecções está o Inferno Cheio” (Editora Polvo, 2004, poesia erótica); “Neura 2004” (Editora Oficina do Livro, 2004, romance); “Fado, Futebol e Farpas” (Edição de autor, 2006, romance).

Também participou em obras colectivas como: “100 Anos Federico Garcia Lorca, homenagem dos poetas portugueses” (Universitária Editora); “Antologia da Poesia Erótica” (Universitária Editora); Antologia DN Jovem (Editorial Notícias); participações nos “Florilégios de Natal” (Universitária Editora), Cadernos de poesia “Viola Delta” (Edições MIC), “SOL XXI” (Edições SOL XXI), fólios de poesia “Petrinia” (Liga dos Amigos de Alpedrinha); "A jeito de homenagem a Eugénio de Andrade", das Fólio Edições e 1º de Janeiro (2003); “Neruda, Cem anos Depois” (Universitária Editora, 2004).

Hoje nasceu...



9 de Fevereiro de 1884
Josep Carner
Poeta catalão



Artigos relacionados:
Biografia
Manuscritos
Poemas: Canto de Tristeza

Josep Carner

Josep Carner nasceu em 9 de Fevereiro de 1884, em Barcelona. Desde cedo revelou o seu génio e a sua precocidade: começou a colaborar aos doze anos em diversas publicações literárias, aos dezoito licenciou-se em Direito e aos vinte em Filosofia e Letras. Em 1907 já tinha publicados quatro livros de poesia, entre os quais “Els fruits saborosos”, o seu primeiro grande êxito. Em 1911 entrou para a Secção Filológica do Instituto de Estudos Catalães, onde colaborou com Pompeu Fabra.
Carner era um profissional da cultura: escrevia diariamente um sem número de artigos, notas, poemas... E ainda traduzia autores como Shakespeare, Molière, Dickens, George Elliot, Mark Twain, La Fontaine, Daniel Defoe, Lewis Carroll, Francesc d'Assís... Também escreveu teatro, como “El giravolt de maig” (1928), “El Ben Cofat i l'Altre” (1951) e “Cop de vent” (1966).
Durante a Guerra Civil Espanhola, Carner foi um dos poucos diplomatas que se manteve fiel à República, tendo sido obrigado a um exílio em 1939 (primeiro no México, e, a partir de 1945, em Bruxelas, onde foi professor universitário).
Em 1941 publicou o longo poema “Nabi” e em 1957 “Poesia”, onde juntou, reveu e organizou a sua obra poética. Estes dois livros, publicados no exílio, foram os que levaram Carner a ser considerado um dos mais importantes poetas catalães, apelidado de “Príncipe dos poetas”.
Foi membro do Conselho Executivo da Sociedade Europeia de Cultura e foi doutorado honoris causa pela Universidade d'Aix-Marseille.
Assinou em 1952 um documento endereçado à UNESCO contra a repressão na Catalunha e em 1955, um documento endereçado à Comissão dos Direitos Humanos da ONU, denunciando a repressão franquista contra a cultura catalã. Em 1959, aquando da morte de Carles Riba, Josep Carner substituiu-o como presidente do Centro Catalão do PEN Club no exílio.
Carner regressou à Catalunha pouco antes de morrer, em Junho de 1970, em Bruxelas.

Toda a sua obra — os livros de poesia, a prosa, o jornalismo, o teatro, as traduções — a sua actividade cultural e intelectual e, ainda, a sua intervenção cívica, ao longo de mais de meio século, permitem-nos a referência a Josep Carner como um dos maiores nomes literários do século XX, não só da cultura catalã, mas do Mundo.














Capa de "Nabi", publicado por Josep Carner em 1941.




















Manuscrito do poema "Glosa", de Josep Carner.



Agradeço ao Joaquim Cascais, que teve a gentileza de me enviar estas duas imagens.

Canto de Tristeza

É verdade que nos deixas num sítio de tristeza,
Tu que nos deste a vida!
Erma negrura.
Coração nosso, quieto; coração nosso, dorme.

Oh, quão difícil de conhecer, de ganhar,
Tu que nos deste a vida!
É vão todo o juízo.
Coração nosso, quieto; coração nosso, dorme.

Não mais poderei estar junto de Ti,
Tu que nos deste a vida!
Tudo é tão breve!
Coração nosso, quieto; coração nosso, dorme.

Os dons e a felicidade de Ti vêm,
Tu que nos deste a vida;
de Ti o que eu anseio: as flores mais luzentes,
mesmo que ao florescer aumentem a minha dor.

Josep Carner

(tradução de José Bento)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Novidades da Quasi





A editora Quasi Edições vai publicar nos próximos dias o livro «Descrição da mentira», do poeta espanhol Antonio Gamoneda, com tradução de Vasco Gato.
Esta é a terceira obra de Gamoneda a ser editada em Portugal, depois de «O Livro do Frio», editado pela Assírio & Alvim, e «Ardem as Perdas», editado pela Quasi.

Este livro de Poesia foi escrito por Gamoneda entre 1975 e 1976, na sequência da morte do general Francisco Franco, e marca, segundo a crítica, a fase de amadurecimento na escrita do autor.

Antonio Gamoneda, de 75 anos, natural de Oviedo e uma das vozes mais singulares da poesia castelhana, vive em Leon onde dirige há muitos anos a Fundação Sierra-Pambley criada em 1887.
Recebeu em 2006, o Prémio Cervantes (o Nobel das letras de língua castelhana), concedido pelo Ministério da Cultura em reconhecimento do conjunto da obra de um escritor.
Recebeu ao longo da sua vida vários outros galardões, incluindo o Prémio Nacional de Poesia (1988), o Prémio Castela e Leão das Letras e o Prémio Rainha Sofia de Poesia ibero-americana (2006).

Tertúlia Poética da Associação Portuguesa de Poetas



Realiza-se este sábado, 10 de Fevereiro, das 15h30 às 18h30, mais uma Tertúlia Poética organizada pela Associação Portuguesa de Poetas no Restaurante “Vá Vá” (Av. Estados Unidos da América, 100 C - Lisboa).

"Festa" de Encerramento da Livraria da Praça









Como já aqui noticiei, a Livraria da Praça (em Viseu) vai fechar no final do mês.
E para liquidar o stock, a livraria vai abrir as portas no próximo sábado 10 de Fevereiro, pelas 17 horas, para uma "Festa" de Encerramento, onde será possível adquirir livros e outros artigos da livraria com descontos, e com a inauguração de uma exposição de pintura de Geraldine Lemos.

A Livraria da Praça fica na R. Cónego Martins, nº 13 (ao Museu Almeida Moreira) e também com entrada pelas escadinhas Chão do Mestre (à Rua do Comércio), em Viseu.
E o blogue fica aqui.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Novidades da Labririnto

A Editora Labirinto prepara-se para lançar um novo "livrinho de Afectos", desta vez com o tema A MULHER, e também uma antologia poética com poemas dedicados a Fiama Hasse Pais Brandão. Em ambos os casos estarão presentes com poesias inéditas os melhores e maiores poetas portugueses.
Esperamos atentos por mais informações sobre estas futuras edições.

"A Génese do Amor", de Ana Luísa Amaral vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa - Correntes D'Escritas 2007





Ana Luísa Amaral é a vencedora do Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do encontro literário Correntes d’Escritas - Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, com a obra " A Génese do Amor" editada pela Campo das Letras. O galardão foi atribuído a Ana Luísa Amaral por unanimidade de um júri constituído pelos escritores Ana Paula Tavares, Patrícia Reis, Luís Adriano Carlos, Pedro Eiras e Rosa Martelo.

Este ano, a poesia era a categoria a concurso (nos anos pares é a prosa), incidindo sobre obras em primeira edição, publicadas em Portugal entre Junho de 2004 e de 2006, por autores de língua portuguesa ou espanhola.

Nas três primeiras edições o prémio foi de dez mil euros. Este ano o prémio é de vinte mil euros.
Este é o único prémio em Portugal que se destina simultaneamente a escritores portugueses e espanhóis, e dos espaços onde o português, o espanhol, castelhano ou outro idioma hispânico são línguas oficiais.

Entre as cerca de 130 obras a concurso, os 10 finalistas foram:

"A Génese do Amor", de Ana Luísa Amaral;
"O Tempo que nos Cabe", de António Mega Ferreira;
"Sol a Sol", de Armando Silva Carvalho;
"A Dolorosa Raiz do Micondó", de Conceição Lima;
"Movimentos no Escuro", de José Miguel Silva;
"A Estrada Branca", de José Tolentino de Mendonça;
"Duelo", de Luís Quintais;
"Migrações do Fogo", de Manuel Gusmão;
"Geometria Variável", de Nuno Júdice;
"Rostos da Índia e Alguns Sonhos", de Urbano Tavares Rodrigues.

Ana Luísa Amaral nasceu em Lisboa, em 1956.
Ensina Literatura Inglesa no Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras do Porto e é doutorada em Literatura Norte-Americana com uma tese sobre Emily Dickinson. Autora de vários livros de poesia e dois livros infantis, está representada em diversas antologias portuguesas e estrangeiras e foi traduzida para várias línguas, como castelhano, inglês, francês, alemão, holandês, russo, búlgaro e croata.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Apresentação de Livro sobre Bocage no Café Nicola







Será lançado no Café Nicola, em Lisboa, no próximo dia 13, o livro «Bocage – A Vida Apaixonada de um Genial Libertino», de Luís Rosa.
Um romance histórico, editado sob a chancela da Editorial Presença.

Depois de «O Claustro do Silêncio», distinguido com o Prémio Vergílio Ferreira, «O Terramoto de Lisboa» e «O Amor Infinito de Pedro e Inês», Luis Rosa apresenta-nos agora um romance sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage, um homem tumultuado, onde coabitam o sublime e o prosaico, um espírito minado por inquietações vorazes que só na poesia e no amor se apazigua. Um génio irremediavelmente embriagado com a sensualidade, o amor e a vida.

Luis Rosa nasceu em Alcobaça. É formado em Filosofia e já editou ficção, poesia e teatro.

Inteiro Silêncio






A Editorial Caminho convida os seus leitores para a sessão de lançamento do livro de Poesia “Inteiro Silêncio”, de Cristina de Mello.
Amanhã, 6 de Fevereiro, pelas 18.30 horas, no Ateneu Comercial do Porto (Rua Passos Manuel 44 - Porto).
O livro será apresentado por José António Gomes.

Cristina de Mello nasceu em Londrina, Paraná (sul do Brasil) em 1953. Reside em Portugal desde 1978. É Docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, desde 1987. As suas áreas de interesse científico repartem-se pela Literatura Portuguesa Contemporânea, Teoria da Literatura e Didáctica da Literatura. É licenciada em Português-Francês pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1977), mestre em Literaturas Românicas Modernas e Contemporâneas pela Universidade do Porto (1986) e doutorada em Literatura Portuguesa pela Universidade de Coimbra (1996). Publicou Metade Silêncio (poesia), pela Editora Minerva, Coimbra, 1992, e O Ensino da Literatura e a Problemática dos Géneros Literários, Almedina, 1998. Foi presidente da SPDLL — Sociedade Portuguesa de Didáctica das Línguas e Literaturas. Tem artigos incluídos em várias publicações da especialidade em Portugal, Brasil e Espanha. Foi colaboradora da revista Colóquio/Letras. Integrou o conselho de redacção da revista Discursos, editada pela Universidade Aberta. Coorganizou o programa radiofónico semanal O Som e o Sentido, em 1980-1981, para a Radiodifusão Portuguesa — canal 1, dedicado às literaturas de língua portuguesa e galega.

Sugestão da Andante para esta semana

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
sim
a ratos

Alexandre O'Neill



Interpretado pela Andante:


Voz: Cristina Paiva; Sonoplastia: Fernando Ladeira.


Aqui fica a agenda dos próximos espectáculos da Andante:


8 Março de 2007
"Elas" - Espectáculo de Poesia para o Dia Internacional da Mulher
Fórum Cultural de Alcochete, às 21H45

Mais informações sobre a Andante, aqui.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Na estante de culto




Outono Transfigurado

Ciclos e Poemas em Prosa
Georg Trakl
Edição bilingue
Tradução e prefácio de João Barrento
Editora Assírio & Alvim
N.º 13 da Colecção Documenta Poética
Ano de Edição: 1992

Na capa: Poema manuscrito por Georg Trakl sobre envelope



A poesia de Georg Trakl, como a de grande parte dos expressionistas, é marcada por uma profunda angústia, melancolia e desespero humano. No caso específico de Trakl, ressalta a obsessão pela temática da Morte. Trakl mantinha ainda um diálogo constante com o simbolismo francês, em especial Rimbaud e Baudelaire, simbolismo este elevado a um grau superior de ascese da linguagem.

Esta selecção de textos inclui quase todos os ciclos de poemas e poemas em prosa de Georg Trakl. São, na sua maioria, poemas nunca traduzidos em Portugal, cujas traduções aqui trazidas pela mão de João Barrento, seguem as versões originais estabelecidas pela edição crítica de Walter Killy e Hans Szklenar (Salzburgo 1969).


Ocidente
(4.ª versão)
Em honra de Else Lasker-Schüller


1.
Lua, como se saísse coisa morta
De azul caverna,
E das flores em botão muitas caem
Sobre o atalho rochoso.
Argêntea, chora coisa doente
Junto ao largo da tarde,
Em negro barco
Amantes se passaram.

Ou são os passos de Élis
Que soam pelo bosque,
O de jacintos,
Perdendo-se de novo sobre carvalhos.
Oh, a imagem do rapaz
Moldada por lágrimas de cristal,
Sombras nocturnas.
Relâmpagos rasgados iluminam-lhe as fontes,
As sempre frescas,
Quando na colina verdejante
Ressoa a trovoada primaveril.

2.
Que silêncio, o das verdes florestas
Da nossa terra,
Da vaga cristalina
Morrendo contra um muro em ruínas,
E nós chorámos durante o sono;
Deambulam com passos hesitantes
Ao longo de espinhosa sebe
Cantores no verão da tarde,
Na paz sagrada
Do reflexo distante de vinhedos;
Sombras agora no fresco seio
Da noite, águias carpindo.
Que silêncio o do raio lunar fechando
As marcas purpúreas da melancolia.

3.
Vós, grandes cidades
petreamente construídas
na planície!
Mudamente,
fronte ensombrada,
o sem-pátria segue o vento,
as árvores nuas na colina.
Vós, rios do longínquo entardecer!
Vermelho crepuscular aterrador
cria portentosos terrores
em nuvens de tempestade.
Vós, povos moribundos!
Pálida onda
desfazendo-se nas praias da noite,
estrelas cadentes.


Ainda, um exemplo da beleza brutal da poesia de Trakl, neste poema em prosa:



Noite de Inverno

Caiu neve. Depois da meia-noite, ébrio de vinho purpúreo, deixas o espaço sombrio dos homens, a chama vermelha do seu lume. Oh, a escuridão!
Geada negra. A terra está dura, o ar tem um sabor amargo. As tuas estrelas juntam-se e formam sinais malignos.
Com passos empedernidos caminhas ao longo da linha férrea, de olhos redondos, como um soldado que ataca uma trincheira negra. Avante!
Neve amarga e lua!
Um lobo vermelho a ser estrangulado por um anjo. As tuas pernas tilintam, a andar, como gelo azul, e um sorriso cheio de tristeza e arrogância empederniu-te o rosto, e a fronte empalidece com a volúpia da geada;
ou inclina-se em silêncio sobre o sono de um guarda que se deixou cair na sua cabana de madeira.
Geada e fumo. Uma camisa branca de estrelas queima os ombros que a vestem e os abutres de Deus dilaceram o teu coração de metal.
Oh, a colina de pedra! O silêncio derrete, e esquecido jaz na neve argêntea o frio corpo.
Negro é o sono. O ouvido segue longamente os atalhos das estrelas no gelo.
Ao despertar tocavam os sinos na aldeia. Da porta do levante nascia, argênteo, o dia rosado.

Hoje nasceu...




3 de Fevereiro de 1887

Georg Trakl

Poeta austríaco






Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: Ocidente; Rondee; Melancolia; No Outono; Lamento
Na estante de culto: ”Outono Transfigurado”

Georg Trakl

Georg Trakl, um dos vultos do expressionismo, nasceu em Salzburgo, Áustria, no dia 3 de Fevereiro de 1887, onde passou a infância.
Seguiu a carreira de Farmácia, depois de ter feito um estágio de três anos em Viena. Mais tarde, ingressou nos serviços farmacêuticos do exército. Entre 1912 e 1914 viveu a maior parte do tempo em Innsbruck.
Após a batalha de Grodek, em 1914, na Galícia, foi entregue com outros feridos graves do exército num celeiro, ao cuidado de um tenente quase sem remédios, que pouco podia fazer. Do lado de fora, os desertores eram enforcados e dentro do celeiro, depois de um dos feridos se ter suicidado com um tiro, na sua presença, Georg Trakl tentou também suicidar-se. Foi internado no hospital de Cracóvia, onde veio a falecer em Novembro do mesmo ano, com 27 anos, alegadamente depois de ter ingerido uma fortíssima dose de cocaína.
Na verdade, a sua vida limitou-se apenas a duas coisas: à droga e à poesia. A sua poesia, de declínios e ocasos, de desintegração e ruínas, de decomposição e morte, era uma poesia dolorosamente imbuída da doença do mundo em seu redor, descrente de qualquer cura e nostálgica de um tempo inconcebivelmente remoto.
Trakl considerava-se apenas semi-nascido. Teve uma vida conturbada e profundamente amargurada. Os seus primeiros contactos poéticos foram com Rimbaud, Baudelaire (através da tradução de K.L. Ammer) e Dostoievski.
Georg Trakl era reconhecido por pessoas como os filósofos Wittgenstein, (que apesar de o admirar, dizia não o compreender), e Heidegger, que tentou decifrar a sua "ambígua ambiguidade".
Tornou-se, através dos poemas escritos, sobretudo nos seus dois últimos anos, num dos maiores expressionistas e num poeta de excepção que, estabelecendo o nexo entre a loucura de Hölderlin e o desespero de Paul Celan, tem sido um poeta de culto para um sem-número de leitores devotos.
Obras (Poesia): "Poemas",1913; "Sebastião no Sono", 1915.

Ocidente

(4.ª versão)
Em honra de Else Lasker-Schüller


1.
Lua, como se saísse coisa morta
De azul caverna,
E das flores em botão muitas caem
Sobre o atalho rochoso.
Argêntea, chora coisa doente
Junto ao largo da tarde,
Em negro barco
Amantes se passaram.

Ou são os passos de Élis
Que soam pelo bosque,
O de jacintos,
Perdendo-se de novo sobre carvalhos.
Oh, a imagem do rapaz
Moldada por lágrimas de cristal,
Sombras nocturnas.
Relâmpagos rasgados iluminam-lhe as fontes,
As sempre frescas,
Quando na colina verdejante
Ressoa a trovoada primaveril.
(...)

Georg Trakl
(tradução de João Barrento)