Esgotou-se a fonte de oiro dos dias,
Os tons da tarde, azuis e outonais:
Morreram doces flautas pastorais
Os tons azuis da tarde, e outonais
Esgotou-se a fonte de oiro dos dias.
Georg Trakl
(1913)
(tradução de João Barrento)
sábado, 3 de fevereiro de 2007
Melancolia
Sombras azuladas. Oh, olhos de mágoas
Que me olham longamente ao deslizar.
Guitarras nos jardins, a acompanhar
O outono e a dissolver-se em escuras águas.
Duras trevas da morte, construídas
Por mãos nínficas, rubros seios sugados
Por lábios podres, e os cabelos molhados
Do jovem nas águas enegrecidas.
Georg Trakl
(1913)
(tradução de João Barrento)
Que me olham longamente ao deslizar.
Guitarras nos jardins, a acompanhar
O outono e a dissolver-se em escuras águas.
Duras trevas da morte, construídas
Por mãos nínficas, rubros seios sugados
Por lábios podres, e os cabelos molhados
Do jovem nas águas enegrecidas.
Georg Trakl
(1913)
(tradução de João Barrento)
No Outono
Junto à cerca, os girassóis e seu brilho,
Doentes sentados ao sol, sem alento.
No campo, as mulheres cantam no trabalho,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Os pássaros contam lendas de encantar,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Há um violino no pátio a gemer.
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Todos parecem felizes, libertos,
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Os jazigos dos mortos estão abertos,
Pintados pelo sol que vai entrando.
Georg Trakl
(tradução de João Barrento)
Doentes sentados ao sol, sem alento.
No campo, as mulheres cantam no trabalho,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Os pássaros contam lendas de encantar,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Há um violino no pátio a gemer.
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Todos parecem felizes, libertos,
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Os jazigos dos mortos estão abertos,
Pintados pelo sol que vai entrando.
Georg Trakl
(tradução de João Barrento)
Lamento
Sono e morte, as sombrias águias
Esvoaçam toda a noite ao redor desta cabeça:
A vaca gelada da eternidade
Engolindo a imagem dourada
Do homem. Em tenebrosos recifes
Despedaça-se o corpo purpúreo
E a voz grave lamenta-se
Sobre o mar.
Irmã de amotinada melancolia
Olha, um barco angustiado afunda -se
Sob estrelas,
Sob o rosto silencioso da noite.
Georg Trakl
(1914)
(tradução de João Barrento)
Esvoaçam toda a noite ao redor desta cabeça:
A vaca gelada da eternidade
Engolindo a imagem dourada
Do homem. Em tenebrosos recifes
Despedaça-se o corpo purpúreo
E a voz grave lamenta-se
Sobre o mar.
Irmã de amotinada melancolia
Olha, um barco angustiado afunda -se
Sob estrelas,
Sob o rosto silencioso da noite.
Georg Trakl
(1914)
(tradução de João Barrento)
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
Fernando Assis Pacheco na Casa Fernando Pessoa

Fernando Assis Pacheco faria 70 anos hoje, dia 1 de Fevereiro de 2007. E a Casa Fernando Pessoa assinala o aniversário com programação concebida em conjunto com a família de Pacheco, que se estenderá por todo este mês.
A iniciativa Universo Pessoal de Fernando Assis Pacheco começa hoje, em dia de aniversário, às 21h, com a inauguração de uma exposição que reúne objectos pessoais do poeta e jornalista. Para falar de Fernando Assis Pacheco estarão presentes João Rodrigues, Manuel Alberto Valente e Tiago Rodrigues, que com ele privaram. Haverá leitura de poemas.
Mais informações, no blogue da Casa Fernando Pessoa, aqui.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
Correntes d’Escritas – programa recheado para celebrar Literatura e Artes

As relações da literatura com as outras artes são o tema do VIII Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, Correntes d'Escritas, que decorre de 7 a 10 de Fevereiro na Póvoa de Varzim e que conta com cerca de 53 participantes, mais de metade nacionais. A par de escritores surgem nomes de cantores, actores, fotógrafos e realizadores de cinema.
Além da Sessão Oficial de Abertura, a ter lugar às 11h00, no Casino da Póvoa, este dia ficará também marcado pela conferência de Nélida Piñon, às 15h00, no Auditório Municipal, com o título "A Memória Secreta da Mulher".
Esta conferência, apresentada por José Carlos de Vasconcelos, será uma óptima oportunidade para contactar de perto com a grande figura da literatura, Nélida Piñon, romancista brasileira eleita em 1997 para presidente da Academia Brasileira de Letras, (primeira mulher a assumir este papel na história da instituição). Foi também a primeira escritora de Língua Portuguesa a receber o Prémio Príncipe das Astúrias, em 2005, e a primeira mulher e escritora de língua lusa a receber, em 2001, o Prémio Ibero Americano de Narrativa Jorge Isaacs e em 2004 o Prémio Internacional Menéndez Pelayo. Foi ainda a primeira mulher, em 503 anos, a receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Santiago de Compostela, em 1998. O percurso de Nélida Piñon, com livros traduzidos em mais de 20 países, fica também marcado pela atribuição da medalha Dom Afonso Henriques, em Portugal, e o titulo de Chevalier des Arts e des Letres, pelo governo francês.
Do Brasil participam ainda António Cícero e Eucanãa Ferraz.
Vêm ainda participantes de Moçambique, de Angola, Espanha, Argentina, Chile, Bolívia, Cuba, Peru e México.
Ainda no dia 7, às 19h00, será inaugurada a exposição fotográfica "Quartos de Escrita", da autoria de Daniel Mordzinski. A exposição é composta por cerca de 60 fotografias encenadas, retratando escritores em quartos de hotel. Entre os escritores fotografados poderemos encontrar nomes como o de Agustina Bessa Luís, José Eduardo Agualusa, José Saramago, Enrique Vila Matas, Luís Fernando Veríssimo, entre outros.
O primeiro dia do evento fará também homenagem a Ray-Güde Mertin, agente literária a quem muitos autores de língua portuguesa e espanhola devem a sua divulgação a nível europeu.
Também será exibido no dia 7 o documentário "Movimentos Perpétuos – Homenagem a Carlos Paredes", da autoria de Edgar Pêra e no dia 8 será apresentado o filme "Vinicius", sobre a vida e obra de Vinicius de Moraes, da autoria de Miguel Faria Júnior.
Vitorino e Sérgio Godinho são dois dos cantores participantes neste Correntes d’Escritas, para além da actriz Maria do Céu Guerra, a pintora Graça Morais, o realizador Fernando Lopes e o fotógrafo António Rodrigues.
Entre os escritores portugueses convidados figuram Lídia Jorge, Hélia Correia, Hélder Macedo, Fernando Pinto do Amaral, Jacinto Lucas Pires e Rui Zink.
Além das mesas-redondas no Auditório Municipal, anexo à Casa da Juventude, onde decorrerá uma mini-feira do livro, estão previstas sessões de poesia no Hotel Vermar e uma exposição de fotografia na Biblioteca Rocha Peixoto.
Para além do lançamento de livros durante todos os dias do evento, vai também ser lançada, no dia 7, a revista Correntes d’Escritas VI, desta feita dedicada a Lídia Jorge, contendo também contos e poesias de vários autores, além de um destaque ao vencedor do ano passado do Prémio Correntes d’Escritas/Papelaria Locus, o brasileiro Saulo Matias Dourado, que venceu em 2006 com o conto "Fuga ao Tema".
Nos dias 13 e 14 de Fevereiro o Correntes d’Escritas chegará a Lisboa, ao Instituto Cervantes, para duas mesas de debate, ambas com início às 18h30.
No dia 13 Ramiro Fonte será o mediador do debate "Literatura: o eco dos dias" e no dia 14 "É o escritor quem tropeça nas Palavras" será o tema da discussão mediada por José Carlos de Vasconcelos.
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
Exposição em Lisboa sobre o poeta Ángel Crespo

O Instituto Cervantes inaugura no próximo dia 1 de Fevereiro uma exposição sobre o poeta Ángel Crespo, que traduziu para espanhol Fernando Pessoa, Eugénio Andrade, os brasileiros Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto e ainda Dante e Petrarca.
Esta exposição itinerante (que vai estar patente até 16 de Março) assinala o décimo aniversário da morte do poeta e já passou por em Madrid e Toledo.
Compõem a exposição, fotografias, manuscritos, correspondência, objectos de uso pessoal (como a sua máquina de escrever), livros, catálogos e desenhos.
Nascido em 1926, Ángel Crespo destacou-se como poeta, crítico literário e tradutor, e foi uma das figuras chave da cultura espanhola da última metade do século XX. Faleceu em Barcelona em 1996.
Cedo se dedicou à poesia, tendo publicado o seu primeiro livro em 1950, «Una lengua emerge», dois anos depois de se ter licenciado em Direito.
Publicou, entre outros, os livros «Quedan señales», «Docena florentina», «En medio del camino», «Donde no corre el Aire», «El aire es de los dioses», «El bosque transparente», «El ave en su Aire», além de diversas traduções, ensaios e artigos em jornais e revistas.
Em 1984, a sua tradução do «Cancioneiro», do poeta italiano Petrarca, recebeu o Prémio Nacional atribuído em Espanha nesta disciplina.
O Instituto Cervantes fica na Rua Sta. Marta, 43 F- R/C, em Lisboa
segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
Poemas em voz alta
Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.
Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,
Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta,
Não sabe o que quer.
É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...
Fernando Pessoa
14/3/1928
(Cancioneiro)
Na voz de Luís Gaspar:
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.
Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,
Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta,
Não sabe o que quer.
É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...
Fernando Pessoa
14/3/1928
(Cancioneiro)
Na voz de Luís Gaspar:
domingo, 28 de janeiro de 2007
Sugestão da Andante para esta semana
Aurora boreal
Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.
António Gedeão
Interpretado pela Andante:
Voz: Cristina Paiva; Música: Penguin Cafe Orchestra; Sonoplastia: Fernando Ladeira.
Aqui fica a agenda dos próximos espectáculos da Andante:
29 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Beja, às 10H00
29 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Évora, às 15H00
30 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Coimbra, às 09H30
30 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Leiria, às 15H00
31 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz, às 10H00
31 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Setúbal, às 15H00
01 Fevereiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional de Tires, às 10H00
02 Fevereiro de 2007
Ateliê - A leitura em voz alta
Biblioteca Municipal de Castro Verde, das 10H00 às 17H00
8 Março de 2007
"Elas" - Espectáculo de Poesia para o Dia Internacional da Mulher
Fórum Cultural de Alcochete, às 21H45
Mais informações sobre a Andante, aqui.
Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.
António Gedeão
Interpretado pela Andante:
Voz: Cristina Paiva; Música: Penguin Cafe Orchestra; Sonoplastia: Fernando Ladeira.
Aqui fica a agenda dos próximos espectáculos da Andante:
29 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Beja, às 10H00
29 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Évora, às 15H00
30 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Coimbra, às 09H30
30 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Leiria, às 15H00
31 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz, às 10H00
31 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Setúbal, às 15H00
01 Fevereiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional de Tires, às 10H00
02 Fevereiro de 2007
Ateliê - A leitura em voz alta
Biblioteca Municipal de Castro Verde, das 10H00 às 17H00
8 Março de 2007
"Elas" - Espectáculo de Poesia para o Dia Internacional da Mulher
Fórum Cultural de Alcochete, às 21H45
Mais informações sobre a Andante, aqui.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
Hoje nasceu...

25 de Janeiro de 1880
Judith Teixeira
Poetisa portuguesa
Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: Volúpia; Quando, não sei...; Podes ter os amores que quiseres...; O meu chinês; Minha vida!; A mulher do vestido encarnado
Na estante de culto: ”Poemas”
Outros artigos: Judith Teixeira editada pela Edições Varicela
Judith Teixeira
Judith Teixeira nasceu em Viseu em 1880. Começou a escrever na adolescência "versos ingénuos, que guardava", (segundo palavras suas) e apareceu no "Jornal da Tarde" com composições em prosa que assinava com pseudónimo. Do seu nome verdadeiro, só haveria notícia em 1922, quando escreveu a maior parte dos poemas que haveriam de ser incluídos nos seu livros "Decadência" e "Castelo de Sombras", publicando também poemas na revista "Contemporânea". O livro "Decadência" saiu em Fevereiro de 1923. Em Março do mesmo ano, o Governo Civil de Lisboa apreendeu este livro de Judith, assim como as "Canções" de António Botto e "Sodoma Divinizada" de Raúl Leal, depois da polémica instalada após a publicação destes livros, apelidados de "imorais", que levaram uns quantos estudantes católicos sedentos de mão pesada, a queixar-se contra a "literatura dissolvente" que "corroía a moral e os costumes". Os livros foram queimados e Judith apelidada de "desavergonhada". Fernando Pessoa tomou posição em defesa dos amigos Botto e Leal. De Judith, não mais se falou na altura. Em Junho do mesmo ano, Judith publicou "Castelo de Sombras", constituído por 24 poemas datados de sexta-feira de paixão de 1921 a Abril de 1923. E em Dezembro do mesmo ano, resolveu editar novamente "Decadência". Durante o ano de 1925, Judith escreveu a maior parte dos poemas que iria publicar no livro "Nua", em 1926. Entretanto, editou e dirigiu a revista "Europa". O livro "Nua" foi anunciado pelo poema "A cor dos sons", publicado na revista "Contemporânea", n.º11. Em Junho, já com o livro à venda, sairia no jornal "Revolução Nacional", (jornal de propaganda da ditadura onde se insultavam os directores de quase todos os outros jornais), um texto onde era referido o livro "Nua" de Judith, como "uma das vergonhas sexuais e literárias" e apelidados os seus poemas de "versalhadas ignóbeis". Marcelo Caetano escreveria ainda, no jornal "Ordem Nova" (de que era fundador e redactor), que tinham aparecido nas livrarias uns livros obscenos, apelidando Judith de desavergonhada, e onde se vangloriava pela cremação dos livros dela, de Leal e de Botto, a que chamava de “papelada imunda, que empestava a cidade”. Judith Teixeira, depois de enxovalhada publicamente, ridicularizada, apelidada de lésbica e caricaturada em revistas, defendeu-se e contra-atacou na conferência "De Mim", cujo texto se apressou a editar. Sete meses depois, publicou "Satânia", enfrentando tudo e todos. Depois desta data, Judith assinou raras colaborações. Em 1928 publicou o "Poemeto das Sombras" na revista "Terras de Portugal" e depois disto, não se ouviria dela nem mais uma palavra. Pois depois de totalmente esmagada pela moral vigente, viu-se em 1927 sentenciada de "morte artística" pela mão de José Régio, que diria: "Todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Botto". Depois disto, sabe-se que terá saído do país e que se terá calado para sempre uma voz tão incisivamente dedicada à agitação. Judith morreu em 1959. Quinze anos mais tarde, em 1977, António Manuel Couto Viana ressuscitava o nome de Judith Teixeira ao dedicar-lhe uma memória no volume "Coração Arquivista" onde se interrogava porque teriam sido as poesias de Judith votadas ao silêncio e à ignorância das mesmas. Judith Teixeira é ainda hoje praticamente desconhecida e continua a não estar representada em qualquer antologia. Fala-se ainda hoje da polémica da "literatura de sodoma" de Botto, Leal e Pessoa, e omite-se aquela que viu igualmente um livro seu em labaredas e que foi a mais perseguida e enxovalhada dos poetas modernistas. Uma excepção para a Editora "&etc", que, em 1996 resolveu editar os poemas de Judith Teixeira, (com pesquisa, organização e bibliografia elaborada por Maria Jorge e Luís Manuel Gaspar), com o objectivo de reparar a injustiça de tal silêncio a que esta poetisa vanguardista dos anos 20 foi votada todos estes anos.
Volúpia
Era já tarde e tu continuavas
entre os meus braços trémulos, cansados...
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!
Passaram horas!… Nossas bocas flavas,
Muito unidas, em haustos repousados,
Queimavam os meus sonhos macerados,
Como rescaldos de candentes lavas.
Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho...
Mas deslumbrou-se... e em rúbidos adejos
Ajoelhou-se... e numa luz vencida,
Sorveu… sorveu o mel dos nossos beijos!
Judith Teixeira
Na voz de Luís Gaspar:
entre os meus braços trémulos, cansados...
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!
Passaram horas!… Nossas bocas flavas,
Muito unidas, em haustos repousados,
Queimavam os meus sonhos macerados,
Como rescaldos de candentes lavas.
Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho...
Mas deslumbrou-se... e em rúbidos adejos
Ajoelhou-se... e numa luz vencida,
Sorveu… sorveu o mel dos nossos beijos!
Judith Teixeira
Na voz de Luís Gaspar:
Quando, não sei…
Há-de chegar o dia
em que a minha tristeza há-de acabar...
Tudo finda... renasce e recomeça...
E esta tristeza há-de ter fim!
E então minha alegria
há-de voltar!...
Só tenho medo
que, quando ela regressar
eu esteja tão cansada de viver,
que não chegue a festejar
esta ânsia enorme de vencer!...
Sim, porque da tristeza sempre fica
um jeito desolado...
Mas não! Eu hei-de ser alegre,
e endoidecer cá dentro
toda a amargura do passado!
Mas não tardes
a realidade
do meu sonho!...
Porque há quem morra de saudade
e dor!
E eu não sei se terei vida
que chegue
se a tua demora
for mais longa, meu amor!
Judith Teixeira
Na voz de Luís Gaspar:
em que a minha tristeza há-de acabar...
Tudo finda... renasce e recomeça...
E esta tristeza há-de ter fim!
E então minha alegria
há-de voltar!...
Só tenho medo
que, quando ela regressar
eu esteja tão cansada de viver,
que não chegue a festejar
esta ânsia enorme de vencer!...
Sim, porque da tristeza sempre fica
um jeito desolado...
Mas não! Eu hei-de ser alegre,
e endoidecer cá dentro
toda a amargura do passado!
Mas não tardes
a realidade
do meu sonho!...
Porque há quem morra de saudade
e dor!
E eu não sei se terei vida
que chegue
se a tua demora
for mais longa, meu amor!
Judith Teixeira
Na voz de Luís Gaspar:
Podes ter os amores que quiseres…
Podes dizer que me não amas,
sim, podes dizê-lo,
e o mundo acreditar,
porque só eu saberei
que mentes!
Eu estou na tua alma
como a flama
que devora sob a cinza
as brasas dormentes...
Não creias no remorso
— o remorso não existe!
O que tu sentes
e o que em ti subsiste,
são o rubor da minha ternura
e a chama do meu amor
que em ti
nunca foram ausentes!...
Não julgues, não, que me esqueceste,
porque mentes a ti mesmo
se o disseres…
Podes ter os amores que quiseres,
que o teu amor por mim,
como uma dor latente e compungida,
há-de acompanhar sempre
a tua e a minha vida!
Judith Teixeira
Na voz de Luís Gaspar:
sim, podes dizê-lo,
e o mundo acreditar,
porque só eu saberei
que mentes!
Eu estou na tua alma
como a flama
que devora sob a cinza
as brasas dormentes...
Não creias no remorso
— o remorso não existe!
O que tu sentes
e o que em ti subsiste,
são o rubor da minha ternura
e a chama do meu amor
que em ti
nunca foram ausentes!...
Não julgues, não, que me esqueceste,
porque mentes a ti mesmo
se o disseres…
Podes ter os amores que quiseres,
que o teu amor por mim,
como uma dor latente e compungida,
há-de acompanhar sempre
a tua e a minha vida!
Judith Teixeira
Na voz de Luís Gaspar:
O meu chinês
Nos olhos de seda
traçados em viés,
tem um ar tão sensual
o meu Chinês…
Vive sobre uma almofada
de cetim bordada,
pintado a cores.
Às vezes
numa ânsia inquieta
que eu não mitigo,
e que me domina,
num sonho de poeta
ou de heroína,
fujo levando
o meu Chinês comigo!
E lá vamos!
Nem eu sei
para que alcovas orientais,
em que países distantes,
realizar
as horas sensuais,
as horas delirantes
com que eu sonhei…
……………………………………………..
Eu e o meu Chinês
temos fugido tanta, tanta vez!
Judith Teixeira
Na voz de Luís Gaspar:
traçados em viés,
tem um ar tão sensual
o meu Chinês…
Vive sobre uma almofada
de cetim bordada,
pintado a cores.
Às vezes
numa ânsia inquieta
que eu não mitigo,
e que me domina,
num sonho de poeta
ou de heroína,
fujo levando
o meu Chinês comigo!
E lá vamos!
Nem eu sei
para que alcovas orientais,
em que países distantes,
realizar
as horas sensuais,
as horas delirantes
com que eu sonhei…
……………………………………………..
Eu e o meu Chinês
temos fugido tanta, tanta vez!
Judith Teixeira
Na voz de Luís Gaspar:
Minha vida!
Tu estás doente meu amor, porquê?
Falta-te o sol, a luz, o meu sabor?
Ou queres tu, que ainda eu te dê,
nos meus braços, mais ânsia, mais calor?
Se és tu o sol, a graça, essa mercê
divina que Deus trouxe à minha dor,
exige tudo, a minha vida e crê
que ta darei com alegria, amor!
Se perdes a alegria, minha vida,
perco-me eu a procurar a causa:
minha alegria é também perdida!
Beijemo-nos, meu bem, ardentemente…
que venha a morte numa doce pausa
e que nos leve se não és contente!
Judith Teixeira
Na voz de Luís Gaspar:
Falta-te o sol, a luz, o meu sabor?
Ou queres tu, que ainda eu te dê,
nos meus braços, mais ânsia, mais calor?
Se és tu o sol, a graça, essa mercê
divina que Deus trouxe à minha dor,
exige tudo, a minha vida e crê
que ta darei com alegria, amor!
Se perdes a alegria, minha vida,
perco-me eu a procurar a causa:
minha alegria é também perdida!
Beijemo-nos, meu bem, ardentemente…
que venha a morte numa doce pausa
e que nos leve se não és contente!
Judith Teixeira
Na voz de Luís Gaspar:
A mulher do vestido encarnado
Ameigam teu corpo airoso
requebros sensuais,
e o teu perfil
felino e vicioso
diz-nos pecados brutais?
– Paixões preversas
onde o crime é gozo!
Carne que a horas se contrata,
e onde a tísica já fez guarida;
– vendida por suja prata
em tanta noite perdida…
Ó farrapo de luxúria
que acendes quentes desejos
até à fúria,
na febre de longos beijos!…
Perderam-se tantas, tantas
mocidades
nos teus olhares diabólicos,
que nem tu já sabes quantas!
E ninguém te perguntou
ainda, mulher perdida
que desgraçado amor foi esse
que te arrastou
a essa vida, negra vida!
E às vezes,
cuspindo sangue
em noites de guitarrada,
a tua boca tão mordida,
cantando, à desgarrada,
fala do amor crueldade
– um amor todo ruína,
uma amor todo saudade!
Ó farrapo de luxúria
que acendes quentes desejos
até à fúria,
na febre de longos beijos!
Judith Teixeira
Outubro
1922
requebros sensuais,
e o teu perfil
felino e vicioso
diz-nos pecados brutais?
– Paixões preversas
onde o crime é gozo!
Carne que a horas se contrata,
e onde a tísica já fez guarida;
– vendida por suja prata
em tanta noite perdida…
Ó farrapo de luxúria
que acendes quentes desejos
até à fúria,
na febre de longos beijos!…
Perderam-se tantas, tantas
mocidades
nos teus olhares diabólicos,
que nem tu já sabes quantas!
E ninguém te perguntou
ainda, mulher perdida
que desgraçado amor foi esse
que te arrastou
a essa vida, negra vida!
E às vezes,
cuspindo sangue
em noites de guitarrada,
a tua boca tão mordida,
cantando, à desgarrada,
fala do amor crueldade
– um amor todo ruína,
uma amor todo saudade!
Ó farrapo de luxúria
que acendes quentes desejos
até à fúria,
na febre de longos beijos!
Judith Teixeira
Outubro
1922
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
Cofre guarda nos Açores exemplar raro de “Os Lusíadas”

Um cofre climatizado guarda uma das principais raridades do acervo da Biblioteca Pública de Arquivo de Ponta Delgada, nos Açores: um dos seis exemplares da primeira edição de “Os Lusíadas”, de 1572.
Pela sua raridade e valor histórico, a obra maior de Luís Vaz de Camões, que narra os feitos dos descobrimentos portugueses, está cercada de cuidados e não teve qualquer pedido de consulta durante 2006; tem sido apenas solicitada por investigadores e estudiosos, a maioria dos quais professores universitários.
Apesar da fragilidade, o livro, de 18 centímetros de altura, editado em Lisboa, está em bom estado de conservação, e pode ser consultado pelo público, apenas com certas regras a cumprir.
A primeira edição de "Os Lusíadas" faz parte dos cerca de 18 mil títulos da biblioteca pessoal de José do Canto, que engloba livros do século XV ao XIX , adquiridos em Maio 1942 pela instituição.
A colecção particular do bibliófilo contém quase todas as primeiras edições de autores portugueses contemporâneos, como Alexandre Herculano, Antero de Quental, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, e alguns estrangeiros como Darwin e Dumas (pai e filho), num total de cerca de 110 edições portuguesas publicadas entre 1572 e 1892. A colecção inclui ainda cerca de 105 edições estrangeiras, traduzidas em húngaro, alemão, inglês, francês, italiano, espanhol, russo e japonês.
Para facilitar o acesso das obras mais consultadas e de maior valor histórico, a Biblioteca está a proceder à digitalização dos seus títulos, um serviço que deverá ser disponibilizado parcialmente durante este ano.
Além da colecção privada de José do Canto, a Biblioteca Pública de Arquivo de Ponta Delgada conta com o acervo de nomes como Ernesto do Canto, Marquês Jácome Correia, Teófilo Braga, Natália Correia, Mota Amaral, entre outros.
terça-feira, 23 de janeiro de 2007
Pessoa cantado
Na voz de Mariza:
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.
Fernando Pessoa
24/10/1932
(Cancioneiro)
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.
Fernando Pessoa
24/10/1932
(Cancioneiro)
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