sábado, 10 de julho de 2010

Novidades Cativa


Poemas do Banco de Trás
Rui Dias Simão
Edições CATIVA, Maio 2010







Quando inclino o corpo para a lentidão
redonda dos teus seios, vejo atentamente
que ainda não respiro o futuro.Sabes,
o pólen cai na boca dos que abrem
o silêncio. Sobra talvez uma fuligem em
cada pulso, levanta-se um leve vento,
mas os dias animados sequer encolhem
quando enlouqueces com as tuas baças
unhas amarelas...

Não é assim a casa desta manhã quando
os pintassilgos folheiam os cardos, e a cama
é devagar ao lado duma fogueira desmaiada.
As cabeças estremecem um pouco no
regresso do sol das dunas, há um navio
que deambula ainda no corpo, na exígua
memória duma guitarra e outras cordas e peixes.
Sim, alguém se debruça para dentro de nós,
quer sacudir a profunda alegria de sermos
uma realidade com sonho aberto...

Todavia temos os castelos que inventámos
após o murmúrio dos pinheiros altos, onde
guardámos as amoras, os medronhos
secos. Bebemos agora a água que resta
doutro vinho, proclamamos a prenhe volição,
a visceral palavra, e embora com uma ramela
a descansar em qualquer labirinto disponível
somos um carrossel de emoções descobrindo
aquilo que pressagiámos durante a vária
areia. Inclinamos o corpo e vemos atentamente
que ainda não respiramos o futuro...

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


O Que Dói Às Aves
Alice Vieira
Editorial Caminho, 2009







Tenho tantas palavras para te dizer nesta manhã
em que outros se esqueceram definitivamente de mim

e penso no teu silêncio esperando-me
e é como se as dissesse ainda para ti
e envolvesse cada sílaba na hesitação do teu andar
e entregasse ainda à tua boca o sal das dunas onde
me ensinaste um dia a esperar
por tudo o que chega fora de horas
porque esse iria ser sempre.....assim o repetias
o meu destino

mas as palavras desta manhã têm
diferentes contornos

e aquele estranho sabor
de um corpo que se afasta de nós
nas inexplicáveis névoas de agosto anunciado
o inverno para dali a pouco

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Foi há...

...30 anos que morreu
Vinicius de Moraes
(19/10/1913 - 9/7/1980)








POÉTICA I


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


INDIGESTA
Siracusa Bravo Guerrero
Cuaderno Caníbal nº 0
Cangrejo Pistolero Ediciones, 2009







ADVERTENCIA:


A la próxima
voy a descoyuntarme el cuello,
a retorcerlo,
hasta que caiga y ruede mi cabeza
lo más lejos posible
para no ver de nuevo
cómo metes el dedo
de ventrículo en aurícula
y de aurícula en ventrículo.


Supongo
que despachurrar el corazón
de una decapitada
no tendrá la misma gracia.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Venham daí esses poemas!


Caros etéreos,

Desta vez, o desafio é que enviem poemas sobre "memórias". Haverá, para os primeiros 6 participantes que enviarem os seus poemas, um exemplar do livro Marcas ou memórias do Vento oferecido pela autora, Maria Paula Raposo.

Só serão aceites as participações que cumpram os seguintes requisitos:
• Envio, para o e-mail porosidade.eterea@gmail.com, de um (1) único poema até às 24H00 do dia 16 de Julho.
• Só será aceite um (1) e-mail por participante, caso contrário será considerado apenas o primeiro e-mail.
• Envio, no mesmo e-mail, da morada (completa) do participante.
• No caso de os participantes terem blogues ou sites que pretendam divulgar, poderão incluir no mesmo e-mail, um (1) único link.
• No caso de participantes que morem fora de Portugal, o envio (portes) do livro será pago pelo participante, à cobrança.
As participações que não respeitem todos estes requisitos serão anuladas e passarão a vez ao participante seguinte.

Os poemas serão publicados neste blogue, em princípio, uma semana após o fecho da recepção das participações.
O locutor Luís Gaspar gravará um dos poemas participantes para inclusão num programa do Estúdio Raposa.

Boa inspiração!
O Pátio Bar fica no espaço ao ar livre da Livraria Pátio de Letras: Rua Dr. Cândido Guerreiro, 28, em Faro.

Mais logo, na RTP1


Hoje, 8 de Julho, a Andante interpreta 3 poemas de Manuel da Fonseca no programa "Especial Alqueva" que passa na RTP 1, entre as 12H00 e as 13H00.

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Marthiya de Abdel Hamid
Segundo Alberto Pimenta
&etc, 2005







É claro que
A memória
Não ressuscita
E o esquecimento
Não dá paz.

A alguns
Mandaram abrir uma cova
E deitar-se dentro.

Mas quando
Entre o verde
Do horto de palmeiras
Na margem do rio
Se virem apenas
Como no leque do pavão
O olhos das tâmaras,
E não houver
Tanques de guerra
Assestados a espreitar,
Nem um só,
Os mortos,
Reconciliados,
Poderão passear
Como dantes
No vento
Que passa,
E refrescar-nos
Assim os olhos.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Videopoema


Experimenta
Videopoema de Manuel Almeida e Sousa

PAN 8

PAN 8
Encontro e Festival da Poesia e das Artes em Meio Rural
Morille (Salamanca) 9, 10 e 11 de Julho 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Daralhorra
Maria Victoria Atencia
Suplemento "Pliegos de Vez en Cuando" nº7, 1990







La Llave


Me despoja de mí el silencio en las torres
que una llave de piedra o de plata me abren,
y a las veras del agua se desnuda de aljófar
y nácar la nostalgia. Deja escurrir el mirto
una gota de aroma que sacude a la alberca.
Puedo ungirme las yemas para dar luz a un ciego.
Discurro con la noche. Los cipreses se alzan.
Soy el vacío ya. Ni una voz me sostiene.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Matilde Rosa Araújo (1921-2010)












LUCIDEZ DESNECESSÁRIA


Diante das estrelas
E do Sol
Sabendo a morte
E a vida aranha
Disconforme
E concordante
Pronta a parar na teia
Envelheci
Mas posso olhar ainda
Ainda
Cravos de sangue e rosas da estrada
Como se eterna fosse
Mas tão tarde.

(foto daqui, a acompanhar resumo biográfico)

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Estranha Condição
António Salvado
Revista «Estudos de Castelo Branco», 1977








Ogiva

A Carlos Nejar

De par em par a porta da janela:
a distensão do tecto, a morta ogiva:
o mundo que lá fora imenso grita
na raiva consentida: o coro, a letra.

Vento suão da fome, da submersa
rixa das coisas: a charneca seca.
O azul da esperança, o limitado nilo
por entre a confusão, o desafio...

E os passos que se evolam na distância
como ruídos soltos: passadeira
até ao outro lado; almas sem corpo,
corpos sem alma: o grude, o esforço, areia
batida e rebatida nesta mansa
praia de encontro a desvendar o sopro.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Obra Poética
Afonso Duarte
Iniciativas Editoriais, 1956







Invernia

Aos destinos do Céu cai chuva e bruma:
Trá-las um vento ríspido da Barra!
E é uma praga, meu Deus, se o tempo agarra,
Miséria e dor, se a chuva não arruma!

Pelo ar vão núncios tristes de cegonhas:
Fantasma e agoiro aos arrepios torvos!
Baixam à Terra, atlântidas medonhas,
As grandes nuvens negras como corvos.

Meu Deus! Nem grão, nem palha nos moroiços!
O aol arranca em lívidos desmaios
E o vento põe meu coração aos dobres.

E os aldeões, as vozes rudes, oiço-os
A insultos bárbaros à Vida: Raios!
Com tempo assim o que há-de ser dos pobres...

domingo, 4 de julho de 2010

Mais logo, em Ovar

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Monte Maior sobre o Mondego
Xavier Zarco
Temas Originais, 2010
Menção Honrosa (Poesia) Prémio Literário Afonso Duarte - 2003/04







Primeira Faixa Ondada

FERNÃO MENDES PINTO


Nas mãos,
toma o próprio destino.

Há,
ao longe,
um mundo e outro mundo
se abre no olhar.

Viandante,
não de sandálias
por pó urdidas,
mas de arestas do sonho
a oiro traçadas.

Não de cajado
sob o peso da amargura,
mas de hirto ensejo
de demandar para além,
para lá da raiz
da própria distância.

sábado, 3 de julho de 2010

Leitura, Literatura Infantil e Ilustração

Realizam-se na Universidade do Minho em Braga, os Encontros Li:
Dia 8 de Julho, 17h00-20h00 – Workshop pré-encontro Li; Inferências e compreensão de textos; Práticas no âmbito da Compreensão da Leitura
Dias 9 e 10 de Julho - 8º Encontro Nacional; 6º Internacional de Investigação em Leitura, Literatura Infantil & Ilustração.
No dia 9 de Julho, a sessão de abertura dos Encontros Li, contará com a presença de Fernando Pinto do Amaral, Comissário do Plano Nacional de Leitura, em representação do PNL e da Ministra da Educação, Isabel Alçada.
Mais informações: http://encontrosli.wordpress.com

Destaque (retirado do Programa):
Sexta-feira, 9 de Julho, 11H00 - Mesa Literatura Infantil e Ilustração (Moderadora: Sara Silva):
Fernando Pessoa para Crianças: Poesia, Biografia e Ilustração
Por Conceição Pereira, da Universidade de Lisboa.

Outras sugestões para os próximos dias


5 de Julho (segunda-feira):

MONTIJO - Estabelecimento Prisional
Dia 5 Julho, a Andante leva o espectáculo "A palavra cativa" ao Estabelecimento Prisional de Montijo, pelas 10H00.
Textos de Alexandre O'Neill, António Aleixo, António Gedeão, António Jacinto, Bertold Brecht, Chimo, Clarice Lispector, Fiodor Dostoievski, Jorge de Sena, José Saramago, Luís de Camões, M.M.q.N. & Urano Falcão, Mário Fonseca, Mia Couto, Nazim Hikmet, Oscar Wilde, Sérgio Godinho e Vladimir Maiakovski.
Espectáculo integrado no programa Leitura sem fronteiras da DGLB, concebido a pedido do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais.


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6 de Julho (terça-feira):

LINHÓ - Estabelecimento Prisional
Dia 6 Julho, a Andante leva o espectáculo "A palavra cativa" ao Estabelecimento Prisional do Linhó, pelas 15H00.




FARO - Draculea Café Bar

No dia 6 de Julho, vai ter lugar no Draculea Café Bar mais uma noite de Poesia, a partir das 23H00. Com oferta do livro "Monte Maior Sobre o Mondego" de Xavier Zarco.
DRACULEA Café Bar: Rua Dr. Rodrigues Davim, 44 - Faro.


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7 de Julho (quarta-feira):


LEIRIA - Estabelecimento Prisional
Dia 7 Julho, a Andante leva o espectáculo "A palavra cativa" ao Estabelecimento Prisional de Leiria, pelas 15H00.



PORTO - Bar Livraria Labirintho
Dia 7 de Julho, pelas 21H30, no Labirintho: A poesia não é chata, mas deve ser XaTa.
Xana Miranda e Tânia Dinis vão fazer mais uma apresentação do XATA na "Noite de Poemia" do Labirintho, numa homenagem ao Verão, com poemas de Sol e Mar de Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Florbela Espanca, Alberto Caeiro, Vinicius de Moraes e Manuel Alegre.
Labirintho: Rua N. Sra. de Fátima, n.º 334 – Porto

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8 de Julho (quinta-feira):

PORTO – Clube Literário do Porto
Dia 8 de Julho, no Piano bar do Clube Literário do Porto, pelas 22H00: Pessoa entre pessoas
Intervenientes: tozeguitarras (guitarra); Marlene Ribeiro (voz); Manuela Leitão (diseur); Susana Castelo (poema teatralizado).
Clube Literário do Porto: Rua Nova da Alfândega, nº 22 - Porto.

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9 de Julho (sexta-feira):

CAXIAS - Estabelecimento Prisional
Dia 9 Julho, a Andante leva o espectáculo "A palavra cativa" ao Estabelecimento Prisional de Caxias, pelas 14H30.

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10 de Julho (sábado):

LINDA-A-VELHA – Palácio dos Aciprestes
Apresentação do Livro “Aquilégia 1” (autores: Filomena Fonseca, Julião Bernardes, Maria Natália Miranda, Ofélia Bomba e Tereza Moura Guedes), no dia 10 de Julho pelas 16H30, no Palácio dos Aciprestes (Fundação Marquês de Pombal, Av. de Tomás Ribeiro nº 18, em Linda-A-Velha).
Apresentação por Annabela Rita.


LISBOA – Auditório do Campo Grande
Apresentação conjunta dos livros de Poesia e Contos Eróticos “rio que corre indiferente” de Nuno Guimarães e “Desafios em fusão” de Anna Ruta e Rui Reis (edições Temas Originais) no Auditório do Campo Grande, 56, Lisboa, no dia 10 de Julho, pelas 15H30.
Obras e autores serão apresentados por Ana Margarida Cristo e Ângelo Vaz.

ÉVORA – Bibliocafé Intensidez
No dia 10 de Julho, vai ter lugar no Intensidez Bibliocafé, pelas 22H00, a Tertúlia Margarida Morgado... a poesia, a voz e o canto - Homenagem à mulher e à poeta, com gravação ao vivo.
O Bibliocafé Intensidez, amigos e admiradores, homenageiam Margarida Morgado, poeta da cidade de Évora, numa atmosfera de tertúlia, leituras de poesia, música e afectos.
O Intensidez fica na Rua Escrivão da Câmara, 10, em Évora.

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Caligraphia do Espanto
Ricardo Gil Soeiro
Edições Húmus, 2010








deixemos correr a chuva
as fotografias despidas de culpa,
o incessante crepitar do deserto.

o que existe para lá da nudez da ausência
só a nós nos diz respeito:
os lápis de colorir, o silêncio, a morte.

um mudo ardor consentido,
murmurando em surdina a ilíada,
uma e outra vez o desabrochar da lagoa.

só isto peço:
caminhar a teu lado,
munido de pétalas ilegíveis,
resgatando naufrágios em câmara lenta.