terça-feira, 23 de janeiro de 2007
Sugestão da Andante para esta semana
O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,
as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.
Manuel António Pina
Interpretado pela Andante:
Voz: Cristina Paiva; Música: Hector Zazou; Sonoplastia: Fernando Ladeira.
Aqui fica a agenda dos próximos espectáculos da Andante:
29 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Beja, às 10H00
29 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Évora, às 15H00
30 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Coimbra, às 09H30
30 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Leiria, às 15H00
31 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz, às 10H00
31 Janeiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional Regional de Setúbal, às 15H00
01 Fevereiro de 2007
A palavra cativa
Estabelecimento Prisional de Tires, às 10H00
02 Fevereiro de 2007
Ateliê - A leitura em voz alta
Biblioteca Municipal de Castro Verde, das 10H00 às 17H00
8 Março de 2007
"Elas" - Espectáculo de Poesia para o Dia Internacional da Mulher
Fórum Cultural de Alcochete, às 21H45
Mais informações sobre a Andante, aqui.
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
Exposição sobre William Blake em Londres

O caderno em que o poeta inglês William Blake escreveu um dos seus poemas mais famosos, "O Tigre", é a peça central de uma exposição na Biblioteca Britânica, em Londres, que estará patente até ao dia 21 de Março, assinalando o 250.º aniversário do seu nascimento.
Este caderno (que William Blake utilizou para os seus poemas e desenhos durante mais de 30 anos), será exibido junto com outros objectos de artistas que foram influenciados pela sua obra, como é o caso do manuscrito do romance «The Amber Spyglass», de Philip Pullman.
A escritora Tracy Chevalier e a cantora Patti Smith doaram também trabalhos inspirados pelo poeta.
A Biblioteca Britânica sublinha que esta exposição mostra a surpreendente criatividade de Blake e a sua contribuição para a obra de artistas e escritores contemporâneos, 250 anos depois. A Biblioteca também criará uma versão digital do caderno de notas de Blake que poderá ser visto na internet.
O Tigre
Tigre, tigre, chama pura
Nas florestas, noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?
De que abismo ou céu distante
Vem tal fogo coruscante?
Que asas ousa nesse jogo?
E que mão se atreve ao fogo?
Que ombro & arte te armarão
Fibra a fibra o coração?
E ao bater ele no que és,
Que mão terrível? Que pés?
E que martelo? Que torno?
E o teu cérebro em que forno?
Que bigorna? Que tenaz
Prò terror mortal que traz?
Quando os astros lançam dardos
E seu choro os céus põe pardos,
Vendo a obra ele sorri?
Fez o anho e fez-te a ti?
Tigre, tigre, chama pura
Nas florestas, noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?
William Blake
Tradução de Vasco Graça Moura
sábado, 20 de janeiro de 2007
Hoje nasceu...

20 de Janeiro de 1902
Nâzim Hikmet
Poeta turco
Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: O espelho encantado; A viagem; O mesmo coração e a mesma cabeça; Domingo
Na estante de culto: ”Poemas da Prisão e do Exílio”
Nâzim Hikmet
O seu pai era funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, apesar de se opor à ditadura do Sultão Abdul Hamid II. A mãe, filha do filólogo Enver Pascha, tocava piano, pintava e lia poetas franceses no original, sobretudo Lamartine. Tanto a mãe, como o avô (também poeta) reconheceram e apoiaram desde sempre a inclinação de Nâzim para a poesia, que começou a escrever aos 14 anos.
Em 1917, seguindo a tradição da família, Nâzim entrou para a Escola de Cadetes de Heybeliada em Istambul, onde dava aulas o poeta Yahya Kemal Beyath, que apoiou e aconselhou Nâzim e o ajudou a publicar os seus poemas na revista “Yeni Mecmua”.
Em 1919, Nâzim foi colocado como oficial de Marinha no navio de guerra “Hamidiye”, onde contraiu uma grave pneumonia que o obrigou a abandonar o serviço em 1921. Em 1920, quando Istambul foi ocupada pela “Entente”, Nâzim tinha escrito uma série de poemas que exprimiam a sua ira, dirigida sobretudo contra os ingleses.
Com o seu amigo Vâlâ Nurettin, abandonou Istambul em segredo, com o objectivo de se juntarem ao Movimento de Libertação comandado por Mustafa Kemal Ataturk. Mas em vez de serem colocados na frente de combate, como pretendiam, enviaram-nos para Bolu para serem professores. E foi em Bolu que tiveram notícias da Revolução Russa, que lhes inflamou o sonho revolucionário. Ainda em 1921, partiram ambos para Moscovo, onde chegaram no ano seguinte.
Nâzim inscreveu-se na KUTV (Universidade Comunista dos Trabalhadores de Leste), onde veio a conhecer Meyerhold, Sverker Ek (historiador de literatura, sueco) e os poetas Bagritzki, Maiakovski e Selwinski. E foram Meyerhold e Maiakovski que influenciaram Nâzim durante muito tempo. Foi também nessa altura que entrou para o PC turco.
Quando acabou os estudos em 1924, Nâzim Hikmet regressou à Turquia. Trabalhou então para a revista “Sinema Potasi” (editada pelo pai), e colaborou com poemas e textos na revista “Aydinlik”, editada por membros dirigentes do PC turco.
Perseguido, refugiou-se durante algum tempo em Ismira. Depois de ter sido condenado à revelia a 15 anos de prisão (em 1925) e da subsequente ilegalidade, em 1927 deixou de novo a Turquia e voltou a Moscovo, onde permaneceu até 1928. Nessa altura foi publicado o seu primeiro livro de poesia, em Baku (Azerbeijão): "Canção dos Bebedores de Sol".
Depois de ter regressado de Moscovo, e de ter sido novamente preso, Nâzim começou a trabalhar para vários jornais, publicou poemas em várias revistas e editou o livro ”835 Linhas”.
A partir de 1929 adoptou uma posição crítica em relação aos principais poetas turcos, rejeitando a tradição e propondo novos caminhos na poesia.
Foi novamente preso em 1932, tendo o Ministério Público pedido a sua pena de morte, mas foi libertado no ano seguinte por ocasião de uma amnistia comemorativa dos dez anos da República.
Como era impossível continuar a assinar os trabalhos com o nome verdadeiro, adoptou um pseudónimo para escrever artigos em jornais e para assinar o seu romance “O Sangue não fala”, publicado em várias sequências.
Nos finais de 1937 a situação política na Turquia piorou, diligenciando um modo de convívio com a Inglaterra e a França, mas por outro lado, procurando relações distanciadas mas frutuosas com o Terceiro Reich, com o objectivo de silenciar os comunistas e outros que tinham detectado o perigo nazi.
Em 1938 Nâzim foi novamente preso, com base numa provocação, acusado de preparar uma revolta na marinha. Na prisão, Nâzim traduziu “A Guerra e a Paz” de Tolstoi, escreveu imensos poemas e começou a sua monumental obra “Paisagens Humanas do meu País”.
Em 1947 Nâzim apresentou ao Parlamento uma petição para revisão do seu processo, alegando inocência do crime de que tinha sido acusado, mas essa petição não surtiu efeito. Só dois anos depois o jornalista Ahmet Emin se esforçou no seu jornal “Vatan” para que Nâzim, preso injustamente, fosse libertado. Criou-se então uma onda de solidariedade que passou as fronteiras turcas e se manifestou fortemente em França.
Em Abril de 1950 Nâzim entrou em greve de fome. Apareceu então um jornal com o seu nome e que fez da sua libertação uma bandeira. Quase todos os intelectuais turcos e também numerosos políticos assinaram petições a seu favor. O Partido Democrático prometeu, em campanha eleitoral, uma amnistia geral que abrangeria Nâzim. Em Maio de 1950, o Partido Democrático ganhou as eleições e em Julho teve lugar a prometida amnistia, tendo Nâzim sido libertado, apesar da forte oposição de alguns deputados do novo partido do governo.
Nâzim Hikmet, que tinha sido transferido para um hospital de Istambul durante a greve de fome, recomeçou a vida, escrevendo guiões de filmes. Casou com Munevver, sua terceira mulher, e em 1951 nasceu o seu filho Mémet. Mas os círculos reaccionários recomeçaram a complicar-lhe a vida. Com 50 anos, e independentemente de ter sido cadete da Marinha, preparavam-se para o chamar de novo às fileiras e fizeram correr o boato que durante o serviço militar seria liquidado. Nessa altura já Nâzim tinha contraído uma grave doença cardíaca. Para fugir à ameaça de morte, em 17 de Junho de 1951 fugiu de Istambul num pequeno barco a motor que o levou ao Mar Negro. Aí, seguiu durante duas horas um cargueiro romeno, até que o deixaram subir a bordo. Depois de alguns dias em Bucareste, regressou a Moscovo. Em 25 de Junho foi expatriado por decreto do Conselho de Ministros. No exílio, em tempo de guerra fria e conflito na Coreia, foi eleito para o Conselho Mundial da Paz. Nesta condição visitou numerosos países, sempre com saudades do seu país natal.
Como comunista, no exílio de Moscovo, gostaria de ter participado activamente na política, mas à sua volta havia uma muralha impenetrável. Apesar dos seus esforços, não conseguiu voltar a encontrar Meyerhold nem os velhos comunistas turcos que viviam na União Soviética desde os anos 30. Depois do discurso secreto de Kruchtchev no 20º Congresso e da reabilitação dos bolcheviques e artistas revolucionários mandados executar, juntamente com comunistas turcos exilados, Nâzim percebeu o que tinha sucedido na terra dos seus sonhos durante os últimos 20 anos e a partir desta altura, empenhou-se em desmascarar a preversão do culto da personalidade e pela casta burocrática imposta por Staline.
No final dos anos 50 a sua saúde piorou. Em 1959 casou com a quarta mulher, Vera. Adoeceu gravemente depois de uma viagem à Tanganica. Já pressentindo a morte, escreveu "O meu enterro". Morreu de enfarte do miocárdio em Junho de 1963, de manhã cedo, quando ia comprar os jornais.
Nâzim Hikmet consegiu, graças ao seu génio e à sua enorme simpatia, causar naqueles que o liam e escutavam, uma enorme admiração, que vinha da sua coragem, experiência, sinceridade e humanidade.
A sua poesia é uma mensagem de esperança (de alguém que passou praticamente a vida inteira na prisão ou no exílio), lida em todo o mundo.
O espelho encantado
Ao olhar-me nele
Encontro os meus vinte anos
Sou como um salto em frente
Sou como trinta e dois dentes
sem cárie
E o mundo é uma noz
Mas não quero nada para mim
Só a mulher que amo
A tocar os meus dedos com os seus
Que abrem todos os mistérios do mundo
As minhas mãos partem o pão
pouco para mim
Muito para os meus amigos
Nas aldeias da Anatólia
beijo olhos que sofrem de tracoma
E chego algures a terra distante
Para a Revolução mundial
Trazem o meu coração num coxim de veludo
Como se fosse a ordem da bandeira vermelha
Uma fanfarra toca a marcha fúnebre
Sepultamos os nossos mortos junto de um muro
Sob a terra
Somo sementes fecundas
E as nossas canções estão escritas na terra
não em turco, russo ou francês
Mas em cançonês
Lenine está acamado numa floresta com neve
Franze as sobrancelhas
A pensar em alguém
Olha até ao fim das trevas brancas
Vê os dias que hão-de vir
Sou como um salto em frente
Sou como trinta e dois dentes
sem cárie
E o mundo é uma noz
Com uma casca de aço
Mas inchada de esperança
Praga é um espelho encantado
Olho-me nele
Mostra-me no leito de morte
A testa alagada em suor
Como se a cera da vela tivesse gotejado
Os braços ao longo do corpo
A tapeçaria verde
E pela janela
Os telhados cobertos de fuligem de uma grande cidade
Esses telhados não são os de Istambul
Os meus olhos estão abertos
Ainda os não vieram fechar
Ainda ninguém sabe
Inclina-te para mim
Olha nas minhas pupilas
Verás nelas uma mulher jovem
Na paragem do eléctrico à espera à chuva
Fecha-me os olhos
E em bicos de pés
Sai do quarto, camarada.
Nâzim Hikmet
(Tradução de Rui Caeiro)
A viagem
Existe ainda um porto onde não tivéssemos tocado?
Existe alguma espécie de tristeza que ainda não tivéssemos cantado?
O horizonte que a cada manhã tínhamos pela frente
Não era igual ao que à noite deixávamos para trás?
Quantas estrelas desfilaram à nossa frente
Roçando as águas.
Não era cada aurora o reflexo
Da nossa grande nostalgia?
Mas é em frente que vamos, não é verdade?, é em frente que vamos.
Nâzim Hikmet
(Tradução de Rui Caeiro)
O mesmo coração e a mesma cabeça
mas atravessei de um jacto, como uma bala, os meus dez anos de prisão.
E se deixarmos de lado as dores no fígado,
o coração está igual, a cabeça é a mesma de antes.
Nâzim Hikmet
(Tradução de Rui Caeiro)
Domingo
Pela primeira vez, hoje,
deixaram-me sair ao sol,
e eu,
pela primeira vez na vida,
espantado de o ver tão longe
tão azul
tão vasto,
imóvel olhei o céu.
A seguir sentei-me na terra, com respeito,
encostei-me à parede branca.
Nesse instante, nada de ideias.
Nesse instante, nem luta, nem liberdade, nem mulher.
A terra, o sol e eu.
Sou feliz.
Nâzim Hikmet
(Tradução de Rui Caeiro)
Poemas em voz alta
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos
15/10/1929
Na voz de Frederico Hartley:
“Migrations 2007” na Casa Fernando Pessoa

Migrations é um intercâmbio cultural que tem como propósito a candidatura de Córdoba a Capital Europeia da Cultura em 2016. Até lá, a Associação Cultural Los Amigos de Marsuf vai realizar uma série de intercâmbios com vários cidades europeias, das quais a primeira é Lisboa. O projecto foi realizado em Outubro passado, nos dias 20 e 21, em Córdoba, e será apresentado agora em Lisboa, envolvendo artistas plásticos, músicos e poetas de ambas as cidades.
Hoje, 20 de Janeiro, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, leitura de poemas por Juan Carlos Reche, Juan Antonio Bernier, Carlos Pardo, José Luís Peixoto, José Mário Silva e Pedro Santa María.
Morreu Fiama Hasse Pais Brandão

Morreu hoje aos 69 anos a poetisa Fiama Hasse Pais Brandão, que foi também dramaturga, ensaísta, ficcionista e tradutora.
Revelada no movimento Poesia 61, que revolucionou a linguagem poética portuguesa dos anos 60, Fiama demonstrou ser ser uma das principais vozes poéticas da sua geração, constando da sua obra "O Aquário","Cantos do Canto", e "Obra Breve".
Recebeu em 1957 o Prémio Adolfo Casais Monteiro pela obra "Em Cada Pedra Um Voo Imóvel".
Casada com o poeta Gastão Cruz, dedicou-se igualmente à escrita para teatro, tendo a sua primeira peça, "Os Chapéus de chuva", sido distinguida com o Prémio Revelação de Teatro, em 1961.
Traduziu Brecht, Artaud e Novalis, entre outros autores, e colaborou em revistas literárias, como Seara Nova, Cadernos do Meio-Dia, Brotéria, Vértice, Plano, Colóquio-Letras, Hífen, Relâmpago e Phala.
Ao nível do ensaio, escreveu, entre outros, "O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos", sobre a influência cabalística em diversos autores dos séculos XVI a XVIII.
Na estante de culto

"Esta é a poesia portuguesa que, após mais de sessenta anos de lê-la, a memória me traz à tona. Às vezes é só um verso (Floriram por engano as rosas bravas..., E cercarom-mi as ondas, que grandes som...), outras é todo o poema (Aquela triste e leda madrugada/ Cheia toda de mágoa e de piedade..., Dá a surpresa de ser,/ é alta, de um louro escuro...) que me procuram e insistem em acompanhar."
Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade ofereceu-nos nesta antologia com mais de 500 páginas um panorama geral da poesia portuguesa, desde os cancioneiros medievais até Ruy Belo, deixando claro, ao escolher o título "antologia pessoal" que estes eram os poetas de que mais gostava, independentemente de qualquer critério de representatividade ou de importância histórica.
É sobretudo por isso que esta antologia é tão especial: estes são os poetas de Eugénio.
Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Eugénio de Andrade
Editora: Campo das Letras (Colecção Campo da Poesia)
1ª edição: Novembro de 1999 (7ª edição em 2002)
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
Hoje nasceu...

19 de Janeiro de 1923
Eugénio de Andrade
Poeta português
Artigos relacionados:
Biografia
Poemas: As palavras; Adeus; Frente a Frente; Matéria solar; Não quero, não
Na estante de culto: ”Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa”
Eugénio de Andrade
Estudou em Castelo Branco, Lisboa e Coimbra, onde residiu entre 1939 e 1945. Em 1950 fixou residência no Porto.
Abandonou a Filosofia para se dedicar à poesia e à escrita, a partir da descoberta de trabalhos de Guerra Junqueiro e António Botto. Camilo Pessanha também teve nele uma forte influência.
Colaborou nas revistas Cadernos de Poesia, Vértice, Seara Nova, Sísifo, Gazeta Musical e de Todas as Artes, Colóquio, Revista de Artes e Letras, O Tempo e o Modo e Cadernos de Literatura, entre outras.
Para além de se ter dedicado à poesia desde muito cedo, também organizou várias antologias e traduziu vários poetas estrangeiros, como Garcia Lorca.
A obra de Eugénia de Andrade é vasta e "As Mãos e os Frutos" editado em 1948 e "Os Amantes sem Dinheiro" editado em 1950, colocaram-no merecidamente entre os maiores poetas portugueses.
Foi galardoado com o Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, atribuído a O Outro Nome da Terra (1988), o Prémio de Poesia Jean Malrieu, por Branco no Branco (1984) e o Prémio Europeu de Poesia em 1996. Em 1982 o Governo português atribuiu-lhe o grau de Grande Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito em 1988. Em 1986 recebeu o Prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, em 1996 recebeu o Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (Jugoslávia).
Foi criada, no Porto, uma fundação com o seu nome, em 1990.
Em 2000 recebeu o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores e o Prémio Extremadura de criação literária.
Em 2001 recebeu o Prémio Celso Emilio Ferreiro, na Galiza, e foi homenageado no Carrefour des Littératures, em França.
Foi-lhe ainda atribuído, no mesmo ano, o Prémio Camões.
Publicou, entre outros: Adolescente (1942); As Mãos e os Frutos (1948); Os Amantes sem Dinheiro (1950); As Palavras Interditas (1951); Até Amanhã (1956); Conhecimento da Poesia (1958); O Coração do Dia (1958); Os Afluentes do Silêncio (1968); Obscuro Domínio (1971); Limiar dos Pássaros (1972); Véspera da Água (1973); Memória de Outro Rio (1978); Matéria Solar (1980); O Peso da Sombra (1982); Poesia e Prosa, 1940-1989 (1990), O Sal da Língua (1995), Alentejo (1998), Os Lugares do Lume (1998) e Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa (1999). Organizou ainda várias antologias, como Daqui Houve Nome Portugal, (1968) e Antologia Breve (1972). Em 2000, publicou Poesia. Em 2001, Os Sulcos da Sede. Também escreveu livros para crianças.
Eugénio de Andrade, que tinha obra traduzida para alemão, asturiano, castelhano, catalão, chinês, francês, italiano, inglês, jugoslavo e russo, morreu em 2005.
As Palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos, beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz e são de noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
Na voz de Luís Gaspar:
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
Na voz de Luís Gaspar:
Novidades da Caminho

A Editorial Caminho vai reeditar este mês de Janeiro “Poesia” de Sophia de Mello Breyner Andresen. Esta reedição integra-se num novo plano de publicação da Caminho, da Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Para além da fixação definitiva do texto, a cargo de Luis Manuel Gaspar, regressa-se à edição autónoma de cada um dos livros de poemas da autora, de acordo com critérios definidos em Nota incluída no final de cada volume.
"Poesia", primeiro livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, teve três publicações autónomas (1.ª ed., Coimbra, Edição da Autora, 1944; 2.ª ed., com variantes, Lisboa, Edições Ática, 1959; 3.ª ed., com o título Poesia I, Lisboa, Edições Ática, 1975). Foi incluído, com novas variantes, em Obra Poética I, Lisboa, Editorial Caminho, 1990.
A presente edição definitiva respeita as emendas da autora a esta última versão e inclui um poema (Atlântico) que nela não figurava, tendo sido publicado pela primeira vez em Mar, Lisboa, Editorial Caminho, 2001.
Índice de conteúdos:
I
Apesar das ruínas e da morte,
Noite Luar Atlântico Mar Meio-Dia O Jardim e a Noite Evohé Bakkhos Apolo Musageta
Espero sempre por ti o dia inteiro,
Às vezes julgo ver nos meus olhos
Noite das coisas, terror e medo
Cidade
Noites sem nome, do tempo desligadas,
Cidade suja, restos de vozes e ruídos,
Ir beber-te num navio de altos mastros
Casa Branca
II
Pudesse eu não ter laços nem limites
Primavera
Tudo me é uma dansa em que procuro
Se tanto me dói que as coisas passem
Mais do que tudo, odeio
Senhor Noite de Abril
Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Aquelas que exaltadas e secretas
Paisagem Como Uma Flor Vermelha O Jardim e a Casa Jardim Perdido Jardim No Alto Mar Fundo do Mar
Nunca mais
Níobe Transformada em Fonte
Céu, terra, eternidade das paisagens,
III
Lutaram corpo a corpo com o frio
Em Todos os Jardins
Se todo o ser ao vento abandonamos
As Fontes A Hora da Partida
Que poderei de mim mais arrancar
Ó noite, flor acesa, quem te colhe?
Há cidades acesas na distância,
Sinto os mortos no frio das violetas
Quando brilhou a aurora, dissolveram-se
Senti que estava às portas do meu reino,
Homens à Beira-Mar Sinal de Ti O Vidente
Que o Teu gládio me fira mortalmente.
No ponto onde o silêncio e a solidão
Nota
quinta-feira, 18 de janeiro de 2007
Pessoa, O Grande Português

O programa da RTP "Os Grandes Portugueses" chegou a uma etapa em que foram definidos os 10 finalistas. Entre eles figura Fernando Pessoa. A partir daqui (e até Março) o público vai votar em quem acha que foi o Grande Português.
Independentemente da qualidade informativa ou cultural deste programa da RTP (e de, inacreditavelmente, Salazar também figurar na lista dos dez mais votados), votemos no Poeta.
“O Guardador de Rebanhos” em CD

Vai ser apresentado amanhã, 19 de Janeiro, às 21h30, na Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner, em Loulé, o III Vol. da Colecção Selecta "O Guardador de Rebanhos" de Alberto Caeiro em CD Multimédia, organizado e apresentado por Afonso Dias.
Uma iniciativa da responsabilidade da Música XXI - Associação Cultural.
Camilo Pessanha na Bulhosa de Entrecampos

A Bulhosa de Entrecampo dedica este mês de Janeiro a Camilo Pessanha na sua programação cultural.
Assim, podemos assistir hoje, 18 de Janeiro, pelas 18.30h a mais umas "Conversas na Bulhosa" sobre Camilo Pessanha, moderadas por António Osório e António Carlos Cortez.
No próximo dia 30 de Janeiro terá lugar o evento "Palavras na Bulhosa", pelo Teatro Maizum, com direcção de Silvina Pereira, onde será apresentada a "Clepsidra" de Camilo Pessanha.
Livraria Bulhosa, Campo Grande, 10-B (Metro: Entre Campos)
Telf.: 217 994 194