quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Novo livro de Gonçalo Salvado

O livro de poesia Entre a Vinha de Gonçalo Salvado (Portugália Editora, Lisboa) com prefácio de Fernando Paulouro e desenhos de Rico Sequeira, será lançado no Museu Vinho Bairrada (Anadia), no próximo sábado, dia 25 de Setembro pelas 16H30.
Fará a apresentação Fernando Pauloro.
A obra, (o sexto livro do autor), insere-se numa tradição lírica que tem como modelo o Cântico dos Cânticos e o Rubaiyat de Omar Khayyam, textos sempre presentes na poesia de Gonçalo Salvado.

Acerca de Entre a Vinha escreveu Fernando Paulouro:
“Estamos perante uma obra trabalhada ao gume do pensamento, em que a música das palavras, o ritmo breve ou mais alongado dos versos converge num esplendor que eu, mais do que duplo, diria múltiplo, pela forma encantatória como o poeta realiza a evocação do corpo e se transcende na criação de um “destino solar” único e definitivo. Um canto de amor que se desenvolve em poemas de sentido epigramático, numa epifania poética da mulher que é, na realidade, um “Cântico dos Cânticos”.

domingo, 19 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Antologia Poética
Maria Valupi
Introdução de Carlos Nejar; Organização e prefácio de Ana Marques Gastão; Posfácio de António Osório
Edições Quasi, 2007






Guardar nos olhos graves
A vida desnudada
Sem afugentar
- dos lívidos areais -
Os verdes da miragem.

... este alongar de mãos sobre a paisagem,

E assim ser, como não ser,
Livre ou dementado invento
De confusas, servidoras raízes,
Que, afundadas ou aéreas,
Se comportem como o vento, a rodear,
A retirar do ar o próximo sustento.

sábado, 18 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


a sombra das figuras
Vasco Graça Moura
Edição do Autor, 1985







esgrima, uma simetria

mas no último assalto ele
ajustou o elmo de rede, a luva, e
a precisão felina

dos músculos, sob o olhar
impassível do
mestre de armas francês.

um fio eléctrico pendia-lhe
do fato para o registo dos
acometimentos certeiros.

sentia a coordenação
ágil dos pés, do zunido exímio da arma
e da audácia, até que

resolvido a matar
gritou en garde,
visando o lado direito e

o florete entrou no espelho
e atravessou-lhe o coração, nítido
como um ás de copas.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Extractos do Corpo
Bernard Noël
Tradução de Laura Lourenço e Marc-Ange Graff
Fenda, 1997






praia onde se unem o firme e o movediço

ideia talvez derradeira sob a roda
quando sobe de novo o arco do tempo

ou se racha

praia no além
quando o meu caminho terá bebido a dor

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Entulho
João Miguel Henriques
O Arqueiro Verde, 2010







Biblioteca


em boa verdade a biblioteca
era naquele tempo um refúgio de párias
talvez ainda o seja
faz anos que não a visito

os livros sussurravam frases inteiras
e das estantes mais próximas
era possível escutar os seus desaires

escusado lembrar o pó por todo o lado
e aqueles duzentos, trezentos volumes
da honrosa categoria dos
jamais lidos de cabo a rabo

foi lá que me treinei no choro pequeno
e no querer imenso
de fogueiras gigantes com livros

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Seis poemas para uma morte
Miguel Martins
Fábrica de Letras, 1995







VI


Guardo o brilho baço dos teus olhos
de seres inteiro em cada coisa
o Ritual dos dias conhecidos
e a alegria desentranhada
do fundo da eternidade
que é a bruma de Deus.

Guardo a entrega funda de saber
que a revolta não tem princípio nem fim
e aquela altivez tão especial inapercebida
que pode haver na submissão
de estarmos à frente dos homens e do tempo
viver como quem morre cada dia

e estarmos mortos como quem está vivo.

Noite com Poemas

A próxima edição do Noites Com Poemas terá lugar no dia 17 de Setembro, na Biblioteca Municipal de Cascais - São Domingos de Rana (Bairro Massapés - Tires) pelas 21H30.
Convidada: actriz Elisabete Piecho, que lerá poesia de Regina Guimarães.

Prémio Literário Externato de Vila Meã/Editora Labirinto

O Concurso “Prémio Literário Externato de Vila Meã” é instituído pelo Externato de Vila Meã em parceria com a Editora Labirinto. Terá a sua primeira edição no presente ano e será atribuído bienalmente, privilegiando uma categoria literária diversa, ou seja, alternadamente Poesia e Prosa, visando estimular a criação literária e, em especial, o aparecimento de novos autores.
Este ano está a concurso o género literário de Poesia.
São admitidos a concurso, trabalhos inéditos de autores residentes em Portugal, com idade superior a 16 anos, inclusive.
A atribuição do Prémio pressupõe a edição da obra, pelo Externato de Vila Meã, e com a chancela da Editora Labirinto.
O Externato de Vila Meã e a Editora Labirinto darão conhecimento público do autor premiado
durante o mês de Julho, no “Educar Brincando”. Os resultados serão publicados na Comunicação Social e disponibilizados no site do Externato de Vila Meã e em outros sites relacionados com as entidades promotoras do prémio.
A edição da obra será apresentada no primeiro fim-de-semana do mês de Dezembro de 2011, no
âmbito da actividade: “Arte na Escola” a realizar no Externato de Vila Meã.
Os trabalhos a concurso deverão ser enviados, até 15 de Dezembro de 2010, por correio, registado e com aviso de recepção, em envelope fechado com a indicação exterior “Prémio Literário Externato de Vila Meã”, para Externato de Vila Meã – Largo da Feira, n.º 12 – Ataíde – 4605-032 Vila Meã, contando a data do respectivo registo postal.
Cada candidato só pode apresentar uma obra.
São admitidas a concurso exclusivamente obras inéditas em língua portuguesa.
As obras não têm que apresentar obediência a tema.
As imposições técnicas no que toca à apresentação das obras são as seguintes:
a. Ter um mínimo de trinta poemas;
b. Serem apresentadas em texto impresso, em formato A4, paginado e processado a espaço
duplo, letra tipo Areal, tamanho 10;
c. Serem as páginas devidamente agrupadas e agrafadas ou presas por qualquer outro sistema;
d. Serem firmadas por um pseudónimo não conhecido e que o concorrente use pela primeira vez;
e. Conter na capa o título da obra e o pseudónimo do seu autor;
f. Serem entregues cinco exemplares acompanhados por um envelope lacrado que contenha, no
interior, os elementos de identificação do autor (nome, morada, número de telefone e data de
nascimento) e da obra e, no exterior o respectivo pseudónimo;
g. Não constar, nas folhas da obra, qualquer indicação sobre o concorrente, sob pena de este vir a ser excluído.
Para efeito de atribuição do Prémio, será constituído um Júri composto por um representante do
Externato de Vila Meã, um representante da Editora Labirinto e uma personalidade de reconhecida competência nesta área. O representante do Externato de Vila Meã presidirá ao Júri.
Só poderão ser submetidos a concurso textos inéditos, pelo que qualquer indício de plágio será
punível com a desqualificação da obra e, consecutivamente do concorrente.
Os exemplares dos trabalhos não premiados não serão devolvidos, sendo destruídos 30 (trinta)
dias após o anúncio dos resultados.

Novo livro de Gonçalo Salvado

No contexto das comemorações dos 160 anos do nascimento de Guerra Junqueiro, vai ser lançado no Museu Guerra Junqueiro (Porto) dia 18 de Setembro (sábado – 21.30h) o livro de poesia Corpo Todo de Gonçalo Salvado (Editora Labirinto, Fafe) com prefácio do filósofo Alexandre Franco de Sá e fotografias de José Miguel Jacinto.
Nascido em 1967, em Lisboa, Gonçalo Salvado tem vindo a afirmar-se como um poeta exclusivo do amor. Publicou cinco livros de poesia: Quando, A Mar Arte, Coimbra, 1996; Embriaguez, Sirgo, Castelo Branco, 2001; Iridescências, Sirgo, Castelo Branco, 2002, Duplo Esplendor, Afrontamento, Porto, 2008 e, muito recentemente, Entre a Vinha, Portugália Editora, Lisboa, 2010 (obra que será lançada no Museu Vinho Bairrada, em Anadia, dia 25 de Setembro (sábado – 16.30 h) e cuja apresentação estará a cargo de Fernando Paulouro, autor do prefácio).
Acerca de Corpo Todo escreveu Alexandre Franco de Sá:
“Ao invés de expressar o encontro amoroso na abstracção sublimada da sua vivência, ao invés de introduzir uma distância entre o amor e a palavra que o celebra, Corpo Todo oferece-se antes como o próprio arrebatamento do amor tornado palavra”.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

1º Prémio Artefacto para Luís Felício

O júri da 1.ª Edição do Concurso Literário Artefacto - Poesia, constituído por António Carlos Cortez, Ricardo Marques e Paulo Tavares, tendo recebido e analisado 56 obras a concurso, deliberou atribuir o prémio, que, conforme o regulamento, consiste na publicação da obra vencedora, ao original o som a casa, de Luís Felício.
Foi ainda deliberada a atribuição de duas menções honrosas, nomeadamente ao original mandíbula, de João Paulo Coelho, e ao original Palavras Cadentes, de José Melo.
A obra vencedora será publicada até ao final de 2010.

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


A Morte de D. João
Guerra Junqueiro
11ª ed.: Parceria António Maria Pereira, 1924







VITA NUOVA

Os versos que ahi vão, modelo da poesia
Ultra-peninsular,
Encontrei-os, leitor, na velha mercearia
D'um nobre titular.

Entre os rotos papeis que dormem pelas tendas,
Nos crassos mostradores,
Vào perder-se hoje em dia as amorosas lendas
Dos nossos trovadores.

A gente encontra alli a historia dos Othelos,
Versos sentimentaes,
Calculos de agiota e folhas de libellos
E restos de missaes.

Vou muitissima vez ás lojas dos burguezes
Onde ha queijos londrinos,
Para comprar barato os versos portuguezes
E os classicos latinos.

Foi assim que eu achei ha tres ou quatro dias
A preciosa gemma,
Os ternos madrigaes, as infantis poesias
Do heroe do meu poema.

Tenho nas minhas mãos o unico original
Completo e verdadeiro;
O papel é almasso e a lettra é garrafal
Como a d'um bom caixeiro.

De resto, emquanto á graça e merito das trovas,
São coisas de rapaz:
De quando em quando têm certas imagens novas,
Que não são muito más.

Mas no entanto eu queimei, sem licença do auctor,
Poesias de cordel
Feitas no velho estylo, o estylo trovador
de Serpa Pimentel.

Já me tinha esquecido: ha uma nota no fim.
Dos versos manuscriptos;
A lettra é de mulher e a nota diz assim:
«Para embrulhar palitos.»

A nota que fechou com excellente prosa
Esta arte de amar
Explica-nos, leitor, a estante indecorosa
Onde eu a fui achar.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Arzila: Estação de Espuma
Tahar Ben Jelloun
Tradução de Al Berto
Hiena, 1987






As raparigas
de ruiva cabeleira
esperam
a alma velada
lêem no horizonte do mar
por trás do véu branco da ilusão
o limite e os perfumes das areias
recostadas sobre os meandros
azuis do vento norte
pardais
perdem-se em suas cabeleiras
entrançadas de paciência

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


O Núcleo Tenaz
Jorge Viegas
Edições 70, 1982







POEMA FINAL

Não me façam a alma nem sargaço nem estrela.
Mas se a minha alma não for bela
Tomai-a vós.
Atai-a com cinco nós
E não permitais que ela cante.
Somente,
Deixai que a água da chuva caia sobre nós.
Pois que se bebermos dela
É como se fôssemos puros,
É como se fôssemos eleitos.

domingo, 5 de setembro de 2010

"Amo Agora" de Casimiro de Brito e Marina Cedro

Amo Agora (editora 4Águas) – um diálogo erótico bilingue entre o poeta português Casimiro de Brito e a poeta e cantora argentina de tangos Marina Cedro – será apresentado em Portugal
(depois de o ter sido em Barcelona e no festival “Voix Vives” de la Méditérranée) nos seguintes dias e locais:
15 de Setembro, pelas 18 horas, na Casa Fernando Pessoa
(Rua Coelho da Rocha, n.º 16, Lisboa);
15 de Setembro, pelas 22 horas, na Fábrica do Braço de Prata
(Rua da Fábrica do Material de Guerra, n.º 1, Lisboa);
18 de Setembro, pelas 21 horas, no Teatro Municipal de Portimão
(seguindo-se um Concerto da cantora internacional Marina Cedro
sob o título “A Boca e um Leito” (verso de Luiza Neto Jorge).
O livro Amo Agora será apresentado por Maria João Cantinho.

Seguir-se-ão outras apresentações no País Basco, em França e em Itália.
A apresentação do livro terá a configuração de recital com Marina Cedro ao piano, interpretando também alguns dos tangos que a tornaram numa artista internacional.

Madalena Férin (1929-2010)


Morreu, anteontem, em Lisboa, a Poetisa Madalena Férin.
Nascida em Vila Franca do Campo (Ilha de São Miguel), a sua obra, segundo Maria Estela Guedes, «está toda ela vinculada aos Açores, à geografia vulcânica, ao mar, à neblina, às ilhas».
O seu primeiro livro, Poemas, data de 1957, tendo-lhe sido atribuído o Prémio Antero de Quental, que voltaria a receber com O Anjo Fálico, em 1990. Além destes, participou (em 2000, com os poetas Teresa Zilhão, Manuela Nogueira e José Núncio) no livro colectivo Quarteto a Solo e publicou os seguintes livros de poesia: Meia Noite no Mar (1959 - reeditado em 1984); A Cidade Vegetal e outros poemas (1987); Prelúdio para o dia perfeito (1999) e Um Escorpião Coroado de Açucenas (2003). Da sua bibliografia constam ainda dois romances, alguns contos (designadamente para crianças) e ensaios dispersos por várias publicações.
O Presidente da Região Autónoma dos Açores, Carlos César, realçou ontem que Madalena Férin foi «uma lutadora pelos ideais que o 25 de Abril tornou realidade, granjeando, por isso, a admiração de quantos tiveram o privilégio de a conhecer».


Mar de oeste

Eis que do seu dorso despontaram garras!
No vértice onde se embalavam peixes
nasceram asas,
num anseio de pombas
mortas implumes...

Eis que o líquido e o denso se casaram
formando um monstro: rochedo e cavalo,
serpente e águia,
grilheta e asa!
E num barco de papel navego eu!

(in Poemas, 1957)


Eu sou a que vim
através do nevoeiro sem couraça
com veneno nos gestos
indefesos
e com guizos de lata

Eu sou a que trouxe
explodido e retenso um mar de lava
maré-viva de fogo
nos meus dias
sem degelas de prata

Transporto nos meus coldres
toda a fúria
de me rasgar nas espadas afiadas
e uma rosa ardendo
na brancura
de se afogar em nada

(in A cidade Vegetal e outros poemas, 1987)


Circe apaga o meu nome
e o desejo do nome
ser flor ou animal
aroma ou afluente
regressar ou ficar
entre a noite e a morte
a substância de ser ou não
presente

Circe apaga o desejo
de sermos verticais
ela fecha a janela
que dá para o outro lado
transmuda o corpo aberto
em lama que rasteja
em pêlos eriçados
o vestido de bronze

quando as naus regressarem
já não somos humanos

(in Um Escorpião Coroado de Açucenas, 2003)

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Ao fundo da página
António Salvado
Estudos de Castelo Branco, 2007







Do mais alto do monte
onde o tempo se negou a prosseguir
com seu caos de mistério
e de sacralidade
e onde a música das origens
se faz ouvir por fendas
enigmáticas
e onde os pés à terra presos
é como se imponderáveis
balouçassem levitassem –
do mais alto do monte
e na extensão da planície
descortino o paraíso
para o qual descerei.

sábado, 4 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


andanças de pedra e cal
Álamo Oliveira
ELU edições, 2010








a rua mais direita


as casas ofereciam a direcção do mar
detendo a história
com os navios do coração.
era tudo tão certo que não havia
bago de jamaica que não sorrisse
antes de chegar à praça velha.
mais doce que dona amélia
era um naco de poesia molhado
a vinho tinto na lusa.


o que resta desse tempo não é saudade,
é o sabor do teu corpo de alfenim.

o teu olhar ainda cai bonito da varanda.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Saudades de Melo e Castro



E. M. de Melo e Castro, no Brasil há um ano, entrevistado aqui para o programa brasileiro Entrelinhas.