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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Arzila: Estação de Espuma
Tahar Ben Jelloun
Tradução de Al Berto
Hiena, 1987






As raparigas
de ruiva cabeleira
esperam
a alma velada
lêem no horizonte do mar
por trás do véu branco da ilusão
o limite e os perfumes das areias
recostadas sobre os meandros
azuis do vento norte
pardais
perdem-se em suas cabeleiras
entrançadas de paciência

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


O Núcleo Tenaz
Jorge Viegas
Edições 70, 1982







POEMA FINAL

Não me façam a alma nem sargaço nem estrela.
Mas se a minha alma não for bela
Tomai-a vós.
Atai-a com cinco nós
E não permitais que ela cante.
Somente,
Deixai que a água da chuva caia sobre nós.
Pois que se bebermos dela
É como se fôssemos puros,
É como se fôssemos eleitos.

domingo, 5 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Ao fundo da página
António Salvado
Estudos de Castelo Branco, 2007







Do mais alto do monte
onde o tempo se negou a prosseguir
com seu caos de mistério
e de sacralidade
e onde a música das origens
se faz ouvir por fendas
enigmáticas
e onde os pés à terra presos
é como se imponderáveis
balouçassem levitassem –
do mais alto do monte
e na extensão da planície
descortino o paraíso
para o qual descerei.

sábado, 4 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


andanças de pedra e cal
Álamo Oliveira
ELU edições, 2010








a rua mais direita


as casas ofereciam a direcção do mar
detendo a história
com os navios do coração.
era tudo tão certo que não havia
bago de jamaica que não sorrisse
antes de chegar à praça velha.
mais doce que dona amélia
era um naco de poesia molhado
a vinho tinto na lusa.


o que resta desse tempo não é saudade,
é o sabor do teu corpo de alfenim.

o teu olhar ainda cai bonito da varanda.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Contagem de Estrelas

J. T. Parreira
Núcleo, 1996







UM SALMO PARA OS JUSTOS


Como uma árvore são nascidos junto ao rio,
os justos não perguntam
pelas palavras proibidas, nem assentam
seus olhos ao nível da carne
não invocam com seus lábios
os risos passageiros,
como uma árvore juntam suas raízes
ao caudal do rio,
e tocam nas estrelas que se vêem
à transparência nas águas.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Thaumatrope
Alexandre Sarrazola
Averno, 2007







peixe-aranha: patti smith: radio ethiopia

tenho as margaridas do teu vestido de verão; azuis e amarelas
o pêlo de raposa pelos ombros e o chapéu de lã não me enganam
a chuva oblíqua a fugir do outro texto; do texto do outro
"não entres nesse quarto"; a porta sempre fechada.

éramos secos de carnes e tínhamos cortado as mãos.
de rimbaud já só aquela faixa de sombra sobre o lado direito do rosto
a ampola de cloreto etílico pousada no chão de losangos pretos e brancos
o éter aspirado num lenço que se volatilizou como uma ave maligna
"é para a picada de peixe-aranha".

a banheira de esmalte estalada no rebordo
a água fria; os teus gatos que acordavam
o teu vestido de margaridas pousado num banco da casa de banho
e o efeito da ampola como um relampejo letal

a polaroid desse dia já começou a desvanecer-se
e não afoguei ainda a imagem do silêncio
virá comigo com os gestos por fazer
para o fundo do poço de mercúrio

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Instantes, Permanência

Agripina Costa Marques
Pedra Formosa, 1993







Possa a noite ainda ampliar o espaço
em nítida passagem inteligível através
dos signos que em si se disseminam.
Quedar em vigilância face à escrita cifrada
que contêm. Descer na noite ao poço
pleno em que se fundam. Nada se perca.
Tudo conduz à luz onde a voz se enriquece
quanto o olhar atento. Que aberto permaneça.
Recto. Da escuridão ao rigoroso alvor.
Iluminação que alargada seja. Desvelada.
Na noite imensa resplandecem luzeiros.
Seja no claro dia imenso e alto o voo.

domingo, 29 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


A Realidade Inteira
Ángel Crespo
Selecção e Tradução de José Bento; Prefácio de E. M. de Melo e Castro
Teorema, 1995






As coisas

Pelos caminhos encontramos bois.
Vamos contando testas de animais cornudos.
Nos caminhos encontramos árvores.
Vamos contando ramos de altos vegetais.
Vamos pelos caminhos e contamos ervas.
Mas os bois também contam presenças de homens.
E as árvores contam robustos braços de homem.
E as ervas contam as nossas pestanas.

Todas as coisas têm
olhos para fitar-nos,
língua para falar-nos,
dentes para morder-nos.
Vamos andando como se ninguém nos visse,
mas as coisas estão a fitar-nos.

sábado, 28 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


1
Tiago P. Rodrigues
Teatrinho - Espaço de Criação, 2003







Um Corpo ou Uma Alma


E depois do sonho
algo nos faltava
para tanta viagem

(a estrada e o mar
são veias de uma respiração):
Talvez o tempo!

E agora tínhamos
um corpo ou uma alma
uma dor

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Areias onde gregos se perdem
José Viale Moutinho
Espiral Maior, 1998







folo, o centauro filho do sol irmão de circe,
percorreu todas as veias de um corpo
abandonado à porta de um hotel de lagos,

como a pobre espada de um rei deposto,
alteia lia um romance policial, só um vento
quente abafava o fim da tarde de ontem,

assim o sal me cercava, abrindo-se
nas ruas do que resta da cidade, o sol
de novo incomodando a sombra do país,

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Poemas
Paul Bowles
Tradução de José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim, 2008






MENSAGEM


Ninguém gritou no Verão
Os dias eram quartos quentes
Pelos irrespiráveis corredores das noites
Um dragão atravessou as pontes do som
Com o brilho das suas escamas e arrastando a cauda
Através dos soluçantes parques, assustando os ratos

Tropeçando desceu as ruas e afastou-se da colina
O seu riso percorreu o serpenteante rio
Todas as cúpulas da cidade estremeceram no seu alabastro
E junto às árvores dos subúrbios do sul
As ervas mais secas quebraram-se e enrugaram-se

1929

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Cynthia Livro Segundo
Dórdio Guimarães
Edição do Autor, 1966







JUÍZO A GIZ

Cidade. Tapete rolante livro folhagem dossier negro
aberta noite de luzes pensar passar
avulto avulso de pés carnaduras ágeis
figurando pagens soltos passeantes de parques.
Cidade ébria de fósforos luminosa
pirotécnica de olhos de bocas silêncio.
A nuvem do desgosto em cada homem de sobretudo
preto. Tessitura de tecido duro pesado quase frágil.
Ternura tépida que chora o forro coração
agasalhado ardendo galerias insuspeitas tensas
abandono quente.
Foi isso que impeliu enormes caixas de música
à avenida dos que passeiam.
Que lhes tirou o fluido nevoento do andar.
Que nos trouxe até candeeiros azuis
de não dizerem nada.
Foi isso isso tudo que coseu os bolsos. As luvas.
Sim as luvas de pano bordadas aborrecidas
as luvas de enganarem mãos
como fendas no vestuário.
O logro talvez a alegria de mentir
hipótese de pele estranha talvez o gosto
gasto de garantir o macio maio mais amor
quem sabe se o astro cada vez mais branco
e distante ao microscópio.
Glóbulo leucémico no sangue ir
mais longe e doente Graal do amor. Amor. Que é isso?
Eu toupeira das horas tu amazona
amiga de dormidas árvores.
Ó lusíada em seu terraço- astronomia.
Sábia a lua espia!

Ambulância e uma mulher no ventre ferida.
Caramba. Foi menos um homem nascido?
Nisto o relógio pára. Amo-te. Amo-te. Amo-te!
Socorro... Ele contigo ou comigo seria parecido.
Escrevo tenazmente desde o papiro.
Longe longe longe aquele suspiro
de luz é apenas uma estrela caída.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Flor de Jacaré
Jorge Monteiro dos Santos
Limiar, 1977







esta canção de frutos
enrolados sobre o corpo
atravessa a boca
pelas rugas da manhã

vem espancada
por dentro da carne
enegrecida sobre a terra

mas vem madura
como o rio do povo
(desagua)
pelo ventre das cidades

em vagarosa liberdade.

domingo, 22 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Antologia Breve
Obra de Eugénio de Andrade/25
Fundação Eugénio de Andrade, 7ª edição, Maio 1999







O sorriso


Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso

sábado, 21 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


O Lugar de Estudo
Fernando Echevarría
Afrontamento, 2009







Não cabe em nome algum. O que lhe demos
apenas dele nos diz quanto nos falta.
Que nomear é reduzir a objecto
de submissão quem alicerça a dádiva.
E a dádiva o que dá é um dar aberto.
Partindo de um recuo de distância
irradia, a nome algum sujeito
ou, se algum se lhe der, é o que o afasta
da precisão estrita de conceito.
Então só resta que uma escuta de alma
se intensifique para abrir-nos dentro essa profundidade inominada
a dar somente para o sempre imenso.
E desse imenso se divulga a flama,
não só invisível, mas também efeito
da pungência feliz da sua falta.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Obra III
António Salvado
A Mar Arte, 1999







Quando a terra


Quando a terra queimada cresta os pés
e os declives são íngremes severos

no pensamento nítido aparece
a luz inatingível do regresso.

Se as ondas fundas cansam desbravadas
embora na viagem de procelas,

no frio coração ganha lugar
a luz inatingível do regresso.

Porque os enganos perturbaram sendas
e permitiram brados e querelas,

tudo nos meus errores desvenda
a luz tão desejada no regresso.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Simbiose Telúrica de Fragmentos do Ser
Reflexos e Reflexões Poéticas
Manuel Madeira
POPSul, Julho 2010






In- definição do ser

Existir e saber que se existe é ter consciência
de si próprio e representa pelo menos dois seres dentro de um só
separados no entanto porque só um respira
e alimenta os dois sem os distinguir
por compartilharem o centro de um círculo encimando um triângulo
com linhas divergentes que às vezes convergem.

Para haver conhecimento do conhecimento de si,
é preciso que haja pelo menos dois pontos distintos
numa linha recta repleta de infinitos
constituídos na essência de probabilidades
susceptíveis de serem no futuro um facto consumado
que uma vez atingido parece determinado…

A consciência é um filtro computante
que computa e analisa os dados computados
através de fontes diversas que abastecem os circuitos
compostos de células especializadas no registo de vozes e conceitos
que outras decompõem em ideias e palavras
ou formas e conteúdos de valores aleatórios
tendentes a encontrar uma saída consistente.

A individualidade do ser tende a submeter-se
provavelmente à sociabilidade genérica
como o fluxo continuo provoca a inundação
ou o foco luminoso domina a escuridão.

Também «o ego surge como fundador solitário de si mesmo
ignorando o circuito solidário e gerador de que emergiu».

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


Tudo por Tudo
Fernando Aguiar
Escrituras, 2009







Se


se osculo se arranho se atendo
se forneço se faculto se clamasse
se induzo se produzo se pretendo
se clas
se.

se arranjo se fomento se nefasto
se encravo se respiro se torce
se eu perco se eu risco se eu pasto
se entor
se.

se ensino se cimento se inculpo
se entorno se entorto se parece
se arguto se minuto se desculpo
se apres
se.

se deprimo se imprimo se volteio
se borrifo se fulmino se precoce
se admiro se adquiro se permeio
se tos
se.

se defiro se arquivo se prevejo
se defendo se defino se falasse
se eu sou se eu dou se eu vejo
se achas
se.

se desleixo se assinalo se aflijo
se empenho se embalo se comece
se mantenho se pedalo se corrijo
se ces
se.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


O Poema Incompleto
Cristina Maria da Costa
Ardosia, 2005







XXIII

A palavra que habita em mim habita em mim...
Acampa no sobrolho do eu...

.....................................a que me sobra é a que me falta.

A palavra é a torre de babel do meu sentir

........................
desmorona-se
........................desfragmenta-se
para que eu revolva os destroços à procura dos alicerces do edifício do meu eu.


Habita em mim.

É o hábito do meu corpo,

.....................................
que já nem se dá a mim,
.....................................nem nada me deixa.
Vem de destroços,

vai para quedas...

Inclina-se no quadro do nascimento da palavra filha,

..................................................................a mais nova,
desagua sobre mim

e a intempérie leva o que quiser...

Depois, abandono-a!

Já saí faz tempo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Um livro de poesia a cada dia...
nem sabe o bem que lhe fazia


sulscrito 3
antologia da indiferença
revista de literatura
4Águas, Junho 2010






- és poeta
perguntaste
- sou plagiador
respondi
… plagiei todos os poetas que li
e
naveguei o único poema que a(ssa)ssinei

um poema-cavalo branco que galopa as minhas veias
que ensaia estupendos saltos-precipícios
um poema-sexo-lamina-de-duas-faces
um poema-punheta
um poema-em-fuga
(foge todas as noites da minha cama para foder com outros)

- és poeta
perguntaste
e eu, esquecido de todas as lembranças, assolado pelas consternações do mapa-múndi, encalhado nas ruas de barcelona, sem música e sem geografia, sem ir à horta onde as raízes pensam e o vinho escorre por entre fábulas de almanaque… eu que não existo.

mesmo antes de estar morto, não existo.
só disse
- tu… há muito que dormes comigo, na minha cama. tudo começou muito antes de te conhecer.
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
fui surpreendido pela arquitectura do teu corpo-prazer-ócio.
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
que ainda me mantém vivo

- és poeta
perguntaste
e eu…
só disse
- não prolonguemos as civilizações mecânicas…

a obscuridade retrocede e o ciclo das estações em salas climatizadas…

a noite e o verão perdem o seu encanto e o romper da alba está a desaparecer.
já não há espaço para o sonho.
quero descansar nas ruínas do império
enamorar-me do rio que as atravessa
casar com ele
e
passearmo-nos por entre as velhas pedras
os nossos véus de noivado (negros) serão suportados por dois adolescentes
ele de marinheiro (como gosto)
ela desnuda (como convém)

sou, todo eu, um plágio. uma janela aberta por onde transparecem milhares de imagens roubadas

premeditadamente

Manuel Almeida e Sousa